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Um povo maravilhoso e situações tipicamente portuguesas: como eles contam e comentam o nosso impasse político

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Tiago Pereira dos Santos

Javier Martin é correspondente do “El País” em Portugal. Francisco Chacón escreve para o “ABC” a partir de Lisboa. Alison Roberts faz o mesmo que Martin e Chacón, mas para a BBC. São três dos jornalistas que contam lá fora - mas a partir de cá - o impasse que vivemos. Explicam ao Expresso o que escrevem, analisam o que se passa e desvendam o que não cobrem. E os leitores deles também se expressam: “Oxalá aconteça o melhor para Portugal, se é que alguém sabe o que é melhor para esse povo maravilhoso”, escreveu um leitor espanhol no “El País” a propósito do que tem lido

Por conta da indefinição governativa em Portugal, Javier Martin foi forçado a alterar a sua rotina de trabalho em Lisboa. Passa agora os dias atento aos avanços e recuos das reuniões entre Passos Coelho, António Costa, Catarina Martins e os demais líderes envolvidos nas recentes negociações pós-eleitorais, tudo para que o jornal espanhol para onde escreve possa contar com as notícias mais “frescas” sobre a atual situação política portuguesa.

Jornalista correspondente do “El País”, reconhece que “a expetativa é grande” e o momento muito “interessante”, mesmo que a área fuja aos seus temas habituais. “Raramente fazia política”, diz, embora por estes dias mal consiga fazer outras coisas.

A Francisco Chacón, que a partir da capital portuguesa escreve para o “ABC”, tem acontecido o mesmo. “Nas duas últimas semanas tenho escrito pelo menos três notícias por dia”, explica. Diz que “o resultado eleitoral começou por ser visto em Espanha, pelo Partido Popular, no poder, e pelos seus apoiantes, como algo positivo. Os responsáveis pela aplicação da austeridade conseguem ser os mais votados?” Mas eis que o país fica “num labirinto”, prossegue, “uma situação tipicamente portuguesa, em que agora há mudanças, agora já não... com a tremenda surpresa que significou a reviravolta do PS ao afastar-se da coligação vencedora”.

“Aprender a lição”

Basta navegar pelos sites informativos para perceber que os media espanhóis têm, de facto, dedicado muito espaço à agenda política portuguesa, dando visibilidade aos seus protagonistas mais evidentes e fazendo eco de nomes que certamente serão desconhecidos para a maioria dos espanhóis - um extenso artigo sobre a opinião da ex-ministra Manuela Ferreira Leite foi publicado na sexta-feira no “El País”, por exemplo.

Os leitores interessam-se, diz Javier Martin, "até por olharem para a sua própria realidade” e equacionarem um possível “efeito de contágio”. Aguardam para ver se chega ao poder um Governo liderado pelo PS e, inclusive, comentam com frequência os artigos publicados online.

Escrevia na semana passada um leitor, identificado como Fernando Xyz, um comentário a propósito de uma notícia no “ABC” sobre a eventual coligação de esquerda: “Todos os esforços e a recuperação, ainda que lenta, podem acabar no lixo. Enfim, esperemos que estes poucos meses de fiasco para os novos governantes em Portugal possam fazer ver a toda a gente o mau que seria um Governo PSOE-Podemos em Espanha”.

Para Francisco Chacón, o interesse dos leitores espanhóis é menos “pelo objetivo de comparar” - os dois países são muito diferentes - “e mais para aprender a lição”. A escolha de António Costa, afirma, “soa a grande erro, algo até irresponsável”, pelo risco de se estar a aliar “a uma esquerda muito fragmentada”. “A má comunicação entre Catarina Martins e Jerónimo de Sousa ficou patente durante a campanha, diz o jornalista, além de a porta-voz do BE “ser muito jovem, com pouca maturidade política” para o que se joga no momento. As pessoas perguntam-se se “é legítimo que a coligação fique de fora do Governo”, conclui, parecendo que Costa fala em simultâneo “com Deus e com o Diabo”, o que o faz arriscar ter a imagem de um “político sem escrúpulos”.

A propósito de uma das notícias publicadas recentemente no “El País”, após um dos encontros entre o PS e o Bloco de Esquerda, comentava um leitor, com pessimismo: “Parece-me muito improvável que se forme este Governo [coligação de esquerda]. Há muitos fatores contra, e não creio que durasse muito no caso de se formar. Seria o fim do PS, porque me parece que partiria o partido em dois. Isto é o que penso, não o que gostaria. Oxalá aconteça o melhor para Portugal, se é que alguém sabe o que é melhor para esse povo maravilhoso”.

A situação portuguesa chega a motivar acesas trocas de comentários entre leitores. “Para mim, golpe de Estado seria se acabasse a governar a opção ideológica que contraria mais pessoas. Se a esquerda soma mais vontades, por que razão deverá governar a direita?”, escreveu o leitor Jose Acaído num comentário no site do “El País”.

O caso BBC

Com o tempo a passar e com as negociações num impasse, o potencial de interesse pelo tema vai diminuindo também, reconhece Francisco Chacón. “Para o bem de Portugal, seria bom chegar a uma solução rápida. As bolsas e os mercados estão atentos”, acrescenta. Mas o seu colega Javier Martin sabe que “tudo pode acontecer”. Por isso tenta ser, sobretudo, didático. “Ao escrever, tenho de passar sempre a visão do país, pelo que mais que contactar diretamente os políticos, o meu trabalho passa por ler toda a imprensa, acompanhar as televisões, para ir transmitindo o ponto da situação.”

Como correspondente da BBC, é o que tem feito Alison Roberts, presidente da Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal e há já 17 anos no país. “As eleições são o tipo de acontecimento que nos dá a garantia de conseguir publicar notícias”, afirma, mas depois “o interesse varia em função do país e do órgão para que escrevemos”. Por isso, segue a atualidade, mas nem sempre publica notícias sobre ela.

É natural que, “pela proximidade, a situação portuguesa interesse mais a Espanha que à Polónia, por exemplo”, continua, sendo que no caso do leitor britânico “é sempre interessante a questão da comparação com os outros países europeus, como aconteceu com os artigos que falavam de Portugal e da Grécia”.

No caso da “BBC”, por ser “bastante institucional”, Alison Roberts diz que faz menos sentido o acompanhamento a par e passo do processo de negociações políticas: “Não tenho feito uma cobertura exaustiva, pelo nível de detalhe envolvido. Agora, se Cavaco Silva diz qualquer coisa de relevante após as reuniões, claro que vou escrever sobre isso”.