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O pequeno segredo sujo das mulheres que lideram

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Ruben Sprich / Reuters

Andrew e Anne viveram um conto de fadas - daqueles modernos, sem feitiços ou poções mágicas mas com igualdade de direitos e deveres. Andrew e Anne viveram com ele em casa a tomar conta dos miúdos e ela a fazer carreira em Washington, ao lado de Hillary Clinton. Andrew e Anne viveram um mito que se desfez: ela deixou a carreira e regressou a casa para salvar o que ele não conseguiu sozinho – lidar com a puberdade do filho. Ela acaba de lançar um livro para nos explicar o pequeno segredo sujo das mulheres que ocupam cargos de liderança. Ele também tem umas coisas para dizer sobre a solidão do homem perante a mulher de sucesso

As feministas não gostaram quando, em 2012, Anne-Marie Slaughter, a mulher com nome de assassina, deu um murro na mesa, baixou os braços e desistiu. Mas Slaughter não o fez sem estrondo. Ao desistir de uma carreira de sucesso, fez soar o grito que se tornou célebre: “As mulheres não podem ter tudo!”

Num polémico artigo na conceituada revista “The Atlantic”, Anne-Marie Slaughter deixou um testemunho inequívoco e, por isso, incómodo.

Assumiu-se como um exemplo da dificuldade em conciliar a vida profissional com uma ambiciosa carreira de sucesso. Para trás deixava Washington, o centro do poder mundial, e um cargo nunca antes ocupado por uma mulher - diretora de planeamento político de Hillary Clinton, então secretária de Estado norte-americana. Slaughter voltou para casa, em Princeton, para o marido e os dois filhos, porque o mais velho passava por um início de adolescência turbulento.

À sua espera estava um académico de percurso brilhante, Andrew Moravcsik, professor de Ciências Políticas, em Princeton, que assumira a responsabilidade de tomar conta da casa e dos rapazes. O casal conhecera-se na universidade. Ela, mais velha, com um casamento anterior. A maternidade chegou tarde para Anne-Marie, que teve de ser ajudada por técnicas de procriação medicamente assistida. Desde o início da relação, a partilha e o equilíbrio de género fizeram parte do acordo conjugal. “Eu nunca duvidei de que as ambições dela eram tão legítimas quanto as minhas. Nem ela”, conta Andrew num texto recente e profundamente empático, também na “The Atlantic”. Neste conto de fadas, não houve nunca lugar para poções mágicas, apenas para um exercício vigilante da igualdade de direitos e deveres.

No início, conta Moravcsik, o acordo até funcionou. O facto de ambos serem professores universitários e a maior flexibilidade do ambiente académico de Harvard - e mais tarde Princeton - até lhes facilitou o quotidiano. “Pareciam pequenas Escandinávias nos Estados Unidos, com políticas que a maior parte dos norte-americanos apenas podem sonhar, como licenças de paternidade, horários flexíveis, tempo de férias generosos (duas semanas de férias pagas) e segurança no emprego”, detalha.

Depois do nascimento dos filhos, Andrew e Anne retomaram as suas carreiras, presumindo que nada de fundamental havia mudado. E enquanto houve chuchas, a situação foi sendo contornada, havia dinheiro para amas e empregadas domésticas. Mas cedo Slaughter começou a ser chamada a responsabilidades maiores. Primeiro foi nomeada reitora de Princeton e, quando o telefone tocou de Washington, ninguém teve dúvidas que a resposta de Anne a Hillary seria sim.

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O pequeno segredo sujo

As crianças cresceram e os desafios da paternidade aumentaram. Cuidar de um bebé era fisicamente exigente, mas os problemas de um adolescente eram esmagadores para pais e filhos. “Alguns jovens saem dos carris. Quando a puberdade embateu no nosso filho mais velho, os problemas surgiram, começou a andar em más companhias, a faltar às aulas e chumbar a matemática. As disputas comigo aumentaram. Em menos de um ano, foi suspenso da escola e detido pela polícia”, desabafa Andrew Moravisck.

A liderança da casa estava nas mãos dele, mas os alarmes soaram e Anne-Marie sentiu-se confrontada com a gravidade da situação e decidiu voltar para casa. Como muitas outras norte-americanas, qualificadas e privilegiadas. Era um mito que caía por terra. Um recente estudo do Pew Research Center alerta para a “penalização da maternidade”, que passa por remunerações inferiores das mulheres face aos homens e menor presença em cargos de liderança empresarial ou política, apesar de um desempenho académico superior delas. E a consequência deste custo, já provada em estudos, é que nos Estados Unidos cada vez mais casais desistem de ter filhos em prol de uma carreira de sucesso.

Para tentar reverter esta tendência de escolha entre o trabalho e a família, Anne-Marie Slaugter acabou de lançar um livro - “Unfinished Business” -, onde apresenta propostas para desarmar um ambiente laboral desfavorável à conciliação da vida familiar com as ambições profissionais.

Desdobra-se em apresentações da obra e entrevistas. Contou ao “Huffington Post”, por exemplo, que foi chamada à escola porque o filho a desenhara como um computador. Não ao computador, mas como se fosse um computador, e o marido foi retratado a cozinhar... E, com o humor que a caracteriza, não deixa de chamar a atenção para o “pequeno segredo sujo das mulheres que ocupam cargos de liderança: um marido que assuma o papel de cuidador da casa”.

Mas para Anne-Marie Slaughter, constatado o problema, não são as mulheres que têm de mudar: são as empresas e instituições. Uma maior articulação das agendas de trabalho com os horários escolares e o fim das punições aos funcionários que reivindicarem mais tempo com as famílias são algumas das propostas presentes no livro.

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A solidão do homem perante a mulher de sucesso

Mas Andrew Moravcsik também não tem papas na língua e no artigo da “Atlantic” revela que assumir o papel de principal encarregado da educação dos filhos “não é fácil para a maior parte dos homens”. E confessa: “Na última década, a quantidade e qualidade do meu trabalho de investigação sofreu, embora me mantivesse como cientista político numa universidade de topo. Mas, na maior parte das carreiras fora do ambiente académico, a minha posição de liderança teria sido impossível”.

Dois terços dos americanos ainda acreditam que deve ser o homem a suportar as necessidades económicas da família, segundo a investigação do Pew Research. E apenas 8% acreditam que as crianças ficam melhor em casa com os pais do que com as mães. E, tentando desdramatizar o peso dos estereótipos na sociedade norte-americana, Andrew Moravcsik não esconde que chegou a ser confrontado com dúvidas femininas sobre se ele, apesar de tomar conta dos filhos, “ainda era um macho alfa”...

“Para os homens, o papel de educador principal pode ser solitário”, desabafa na “The Atlantic”. Nos eventos escolares, Moravcsik não encontra forma para furar a barreira dos comentários das mães, unidas, e a sua maior companhia é o computador portátil. Sem interlocutores, fica à parte e, como consequência, chegou a carregar “um pesado sentimento de inadequação”.

Além de dizer que a opção por cuidar dos filhos - enquanto a mulher, “mais competitiva”, saía para a luta - fez bem ao casamento, o professor de Princeton sublinha que “os pais, do sexo masculino, têm algo de especial a oferecer às crianças”: são mais práticos, orientados, disciplinados e amantes da brincadeira. Diz ele.

Ambição e romantismo

Andrew alinha com a mulher ao afirmar que “ambos os sexos estão tramados pelo mesmo sistema”, mas diz que “os homens que assumem o papel de cuidadores principais beneficiam de algo que durante muito tempo estava reservado às mulheres: uma relação de grande proximidade com as crianças”.

O cientista político conclui o artigo dizendo que, apesar dos muitos dias de cansaço, nunca desistiria do que conquistou com os filhos. A confiança para a partilha dos pequenos-grandes segredos ou os momentos em que foi chamado em primeiro lugar numa noite de pesadelos. “Quando os meus filhos recorreram a mim desta forma, senti um orgulho que em muitos aspetos foi mais profundo do que qualquer orgulho que já experimentei profissionalmente”, resume Moracvsik.

Anne-Marie Slaughter, 57 anos, continua a passar pouco tempo em casa, agora como presidente da Fundação New America, um “think tank” suprapartidário vocacionado para a análise das políticas públicas. O filho mais velho está na faculdade e o mais novo continua em casa, com o pai, ainda à espera de escrever os livros que teve de adiar.

Mas há sinais de mudança. Há alguns dias, Michelle Obama, a primeira-dama dos Estados Unidos, numa conferência sobre educação feminina, aconselhou as raparigas a ultrapassarem os rapazes e, sobretudo, a nunca desistirem da ambição profissional em nome do romantismo. E já esta semana, Paul Ryan, ex-candidato à vice-presidência dos Estados Unidos pelo Partido Republicano e apontado como possível porta-voz do Congresso, está relutante em assumir o cargo para não perder tempo com a família.

Se tiver uma história pessoal sobre a experiência de ser um homem que cedeu o protagonismo profissional à mulher e assumiu a liderança da educação dos filhos, conte-nos a sua história. Envie um resumo para Christiana Martins