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Investigador da UMinho cria associação antibullying

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Paulo Costa, docente de educação física, acredita que só prevenindo as crescentes práticas de bullying entre jovens em contexto escolar o problema pode ser travado. A solução passa por ajudar vítimas e agressores

Isabel Paulo

Isabel Paulo

Jornalista

Paulo Costa, investigador da Universidade do Minho, lançou esta terça-feira, em parceria com o município de Braga e o Instituto Português do Desporto e Juventude, a Associação Antibullying com Crianças e Jovens (AABCJ), projeto através do qual se propõe reduzir os comportamentos de violência continuada, física, verbal ou psicológica em idade escolar.

No Dia Mundial de Combate ao Bullying, o docente de Educação Física, de 40 anos, alerta que este é um fenómeno em crescimento que pode vir a ser agravado nos próximos anos pelo cyberbullying, “uma via multiplicadora de ofensas regulares entres os jovens utilizadores das redes sociais”.

Numa altura em que a nível mundial se estima que uma em cada três crianças com idades entre os 13 e os 15 anos sejam vítimas de bullying em contexto escolar, Paulo Costa sustenta que a situação em Portugal não tem sido devidamente acompanhada, motivo que o levou a criar a AABCJ.

A entidade, que conta já com mais de 100 associados e mais de 11 mil seguidores online (www.facebook.com/AABcCJ), pretende funcionar como ponte entre alunos, escolas e pais de vítimas e agressores, que, defende a associação, precisam de ser ajudados e encarados como parte da solução para o problema. Entre os associados encontram-se “os pais de Nelson Antunes e Miguel, de 10 anos”, irmão do estudante de 15 anos que se suicidou numa escola de Braga, em janeiro do ano passado, após ter sido vítima de bullying.

Paulo Costa tomou posse como presidente da nova associação esta terça-feira ao fim da tarde. A sede está localizada nas instalações da escola de formação Nexus, em Braga. Na AABCJ vão colaborar docentes e psicólogos e pedopsiquiatras em regime de voluntariado, estando prevista no imediato ações de esclarecimentos junto de alunos, professores, funcionários escolares e pais.

A Associação Antibullying é a concretização no terreno de um vasto trabalho de investigação de Paulo Costa, desenvolvido no Instituto de Educação da Universidade do Minho entre 2010 e 2013, estudo longitudinal de um grupo de 160 alunos dos 12 aos 15 anos. Na escolha desta temática para tese de doutoramento teve origem num caso de bullying envolvendo uma aluna de Paula Costa, que os pais acabaram por transferir de escola para separar a filha das colegas agressoras.

“É muito raro a intimidação acontecer em frente de adultos, mas nas aulas de Educação Física há muitos episódios de humilhação ou de rejeição em relação a colegas, aos quais o professor acaba por ser testemunha”, conta Paulo Costa, docente no Agrupamento de Escolas de Real, em Braga.

Os resultados da tese, orientada por Beatriz Pereira, uma das investigadores pioneiras nesta área, indicam que 37,1% das crianças e jovens inquiridos foram em algum momento vítimas de comportamentos agressivos ou intimidatórios na escola. O estudo não aponta para diferenças relevantes em relação ao género das vítimas, com exceção de bullying por razões homofóbicas, caso em que os rapazes são os mais afetados. A exclusão, a intimidação verbal, a agressão física e assédio sexual foram, por esta ordem, os comportamentos de risco mais vezes sinalizados por parte de Paulo Costa. Embora na altura residual, o investigador refere que em estudos internacionais recentes o cyberbullying é de todas as práticas de humilhação a que começa a ganhar maior prevalência.

Vítimas silenciosas

No final da investigação, Paulo Costa concluiu ainda que 75% das vítimas optaram por sofrer as humilhações em silêncio, constatação que o leva a defender que a temática deveria estar incluída na formação dos professores. “Se os professores forem capazes de perceber alguns sinais ou alterações comportamentais que indiciem sujeição a práticas de bullying, poderão mais facilmente atuar e ajudar uma potencial vítima”, refere.

Mas é no plano preventivo que a AABCJ mais aposta, através de ações regulares em meio escolar. “Os alunos devem dizer sem medo o que pensam sobre o assunto, tornando-os em elementos pró-ativos e não eventuais vítimas passivas”, refere o professor de Educação Física, que enfatiza a necessidade de todos os alunos compreenderem de forma clara o que é o bullying e de que forma se manifesta.

“Se as vítimas por vergonha ou medo têm medo de divulgar quem as atormenta, os colegas têm não só o direito como o dever de o fazer”, sublinha Paulo Costa. O caso mais mediático de silêncio total por parte da vítima e encobrimento por parte das testemunhas foi o episódio das repetidas agressões por um grupo de colegas a um aluno de uma escola da Figueira da Foz, situação divulgada em junho passado, um ano depois da ocorrência dos factos.

“As vítimas ou as testemunhas de situações de violência física, verbal ou psicológica têm de saber o que fazer perante este tipo de situações e a quem devem recorrer para pedir ajuda», adianta ainda Paulo Costa.

Segundo um estudo divulgado em 2014 nos EUA, os adolescentes vítimas de bullying revelam o dobro da propensão para o suicídio. Quando a agressão continuada é feita via internet, a prevalência é ainda maior, dada a exposição das vítimas frente a uma maior audiência. Mitch van Geel, o investigador que liderou a investigação ao longo de 12 anos e que analisou dados de 234 mil jovens, referiu à revista “Time que o risco é maior no cyberlullying porque os insultos ficam registados, assombrando e denegrindo as vítimas durante mais tempo.