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Menos casas e mais caras para arrendar em Lisboa e no Porto

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ESCASSEZ. Nas zonas centrais da capital escasseiam as casas para arrendamento de longa duração

ana baião

Entre a opção pela venda e o aluguer de curta duração a turistas, sobram poucas casas para arrendar e os preços continuam a subir

Carla Tomás

Carla Tomás

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Jornalista

A oferta de casas para arrendar caiu 21 por cento na área metropolitana de Lisboa e 26% no Grande Porto, entre junho de 2014 e março de 2015, de acordo com dados do Sistema de Informação Residencial divulgados pela Confidencial Imobiliário. A empresa que analisa este sector de mercado a nível nacional considera que esta quebra reflete “a diminuição da oferta disponível desde o terceiro trimestre de 2013”.

Simultaneamente, as rendas têm aumentado, sobretudo na Grande Lisboa, onde foram efetuados 6202 contratos de arrendamento, neste período. Comparando o primeiro trimestre de 2015 com o do ano anterior verifica-se “um crescimento de 7,6%” no valor das rendas residenciais na capital quando a variação média no país não vai além de 0,8%, indica o último relatório da Confidencial Imobiliário.

Três razões essenciais explicam esta realidade, segundo o presidente da Associação Lisbonense de Proprietários, Menezes Leitão: “Houve o desbloqueio do acesso ao crédito e há mais gente a comprar casa; assistimos a um recuo na reforma da lei das rendas que não deixou os proprietários confiantes em arrendar; e o novo regime de arrendamento local levou muitos proprietários a optarem por essa via de arrendamento temporário a turistas”. Quanto ao aumento do valor das rendas é tudo “uma questão de lei da oferta e da procura”, acrescenta Menezes Leitão, já que “havendo menos casas disponíveis, a consequência natural é a subida dos preços”.

Por seu lado, o Diretor da Associação Nacional de Proprietários, António Frias Marques, discorda dos resultados apresentados pela Confidencial Imobiliário porque, diz, “cingem-se às agências de imobiliário e não têm em conta os senhorios que as arrendam diretamente”. Por isso, sugere: “As pessoas devem andar na rua com a cabeça para cima à procura de casa e não irem só às agências ou aos sites na internet que implodem os preços para a comissão ser maior”. Mas Frias Marques admite que “Lisboa e Porto estão cheias de casas degradadas” que são difíceis de arrendar nesse estado.

CARO. Diminuição da oferta e aumento da procura faz disparar os preços

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ana baião

A concorrência do “short renting”

Nas agências imobiliárias escasseiam as casas para arrendamento de longa duração. Não é de admirar, por isso, que um apartamento de três assoalhadas no Chiado com uma renda de mil euros mensais, não dure muito tempo em carteira. São uma raridade e só para alguns bolsos, num país onde o salário médio líquido ronda 900 euros.

Nesta zona da cidade “há uma quase ausência de casas para arrendamento”, informa Pedro Torres, gerente da loja Era do Chiado. Cerca de 95% do negócio desta agência é a venda de casas e sete em cada 10 clientes são investidores que compram para remodelar e colocar em regime de “short renting”.

Segundo as contas de Pedro Torres, “alugar um apartamento a 65 euros durante 22 dias por mês (porque não está alugado o mês todo) permite ganhar 15.730 euros num ano (o 12º mês vai para impostos, IMI e condomínio)”, o que o leva a calcular que “um investimento de 140 mil euros dê uma rentabilidade de 11,2%”. Ou seja, permite recuperar o investimento ao fim de nove anos. Cerca de “80% dos clientes da zona história pagam a pronto e 60% são estrangeiros”, acrescenta o agente imobiliário.

A pouca oferta de casas para arrendamento estende-se a toda a cidade e até a outros concelhos da área metropolitana (AML), como Oeiras ou Cascais. No primeiro trimestre de 2015 “houve uma redução de 15% do volume de contratos efetuados face ao período homólogo do ano anterior”, indica o relatório da Confidencial Imobiliário, sendo que Lisboa representa 39% dos contratos feitos neste período dentro da AML.

VENDA. A estabilização do crédito bancário voltou a impulsionar a compra e venda em detrimento do arrendamento

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ana baião

€8 por metro quadrado

A raridade de casas disponíveis para arrendar a preços que não ultrapassem €550 euros é um muro que se ergue para quem quer residir em Lisboa. Por motivos de saúde, Maria, 49 anos, precisa de sair de um T2 de 50 metros quadrados num quinto andar pombalino, do Chiado. Mas já viu que “é impossível continuar na zona”. Já tentou as imediações da Almirante Reis, Anjos ou Arroios, sem sucesso. E as únicas hipóteses que encontra disponíveis na cidade são zonas periféricas como Benfica.

O valor médio das rendas na cidade ronda oito euros por metro quadrado, mas nas zonas mais centrais quase duplica. “Nas zonas históricas é impossível encontrar uma casa para arrendar”, constata Maria. O que lhe dizem nas agências imobiliárias “é que está tudo a alugar a turistas, sejam os próprios donos que se mudam para fora da cidade e põem a casa a render, ou pessoas que alugam prédios e vários apartamentos e depois os subalugam”.

Porto sofre do mesmo mal

Na área do Grande Porto, o valor do metro quadrado para arrendamento é inferior ao de Lisboa (€6,1), mas a quebra de casas para arrendamento ainda foi maior − 26% − segundo a Confidencial Imobiliário.

“O português gosta de ter casa própria e quem tem casa para pôr a arrendar gosta de fazê-lo por sua conta”, afirma Susana Ribeiro, gerente da loja da Remax da Boavista. Também esta agente imobiliária diz que as casas para arrendar na carteira desta loja não vão além de 5% do total. E admite que, “tal como Lisboa, o Porto está na moda para os turistas” e os investidores nacionais “preferem comprar apartamentos e pô-los a render ao dia em vez de terem o dinheiro no banco”.

O inquérito de agosto da RICS/PHMS aos proprietários e agentes do setor conclui que a quebra no arrendamento se deve à estabilização do mercado de compra e venda, passada a crise do “subprime”. Os inquiridos estimam que os preços das casas para venda subam “em média 5% ao ano durante os próximos cinco anos”, a nível nacional, mas que as rendas estabilizem no curto prazo.

Em 2011, o Censos dava conta que em Portugal existiam 570 mil senhorios e 785 inquilinos. Na altura contavam-se cerca de 900 mil casas para venda em todo o país.