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Chefe das Secretas depõe em tribunal. E vai ter de responder à pergunta: “Autorizou alguma coisa?”

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Júlio Pereira agraciado com a Ordem de Isabel a Católica

João Carlos Santos

Júlio Pereira é ouvido esta quinta-feira como testemunha no processo das Secretas. Estratégia da defesa passa por implicá-lo no caso de acesso ilegal à lista de telefonemas do jornalista Nuno Simas

Rui Gustavo

Rui Gustavo

Editor de Sociedade

Se cumprir o que prometeu na primeira sessão de julgamento do caso das Secretas, o advogado Paulo Simão Caldas vai tentar implicar Júlio Pereira no escândalo que levou, precisamente, a este processo judicial. “Sabia do que estava a acontecer, autorizou alguma coisa?”. “É óbvio que vou fazer essa pergunta”, garante o defensor de João Luís, antigo diretor operacional do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED), suspeito de ter transmitido a ordem para obter a lista de telefonemas do jornalista do “Público” Nuno Simas.

Júlio Pereira, que é magistrado do Ministério Público e está à frente das secretas há dez anos, não é uma personagem estranha ao caso. Foi ele quem apresentou a queixa no Ministério Público (MP) que deu origem ao processo judicial – depois do Expresso ter revelado o caso - e até já foi ouvido, em agosto de 2011, no auge do escândalo. A inquirição foi conduzida pela procuradora Teresa Almeida, a mesma que faria a acusação e representa o MP no julgamento. E a julgar pelo que disse, a defesa vai ter dificuldades em fazer valer a sua tese. Júlio Pereira garantiu que desconhecia quaisquer contactos com a Ongoing, disse que Jorge Silva Carvalho, antigo diretor do SIED e principal arguido do processo, já estava fora dos serviços quando mandou dois emails a Nuno Vasconcellos, presidente da Ongoing, com informação sobre dois empresários russos e um porto grego que aquela empresa queria negociar.

Faltou a pergunta mais difícil: sabia de alguma lista de telefonemas do jornalista Nuno Simas? Deu ordens para obter essa lista? Júlio Pereira não voltou a ser ouvido e só esta quinta-feira, a partir das 10h, terá de responder aos advogados dos arguidos que estão interessados em demonstrar que a obtenção de listas de telefonemas era um procedimento não só permitido como encorajado nos serviços secretos.

De acordo com uma fonte judicial, quando apresentou queixa, Júlio Pereira juntou ao processo o caminho informático da ordem para a obtenção da lista de telefonemas de Nuno Simas, jornalista do “Público” que escreveu algumas noticias sobre o mal-estar que se vivia nos serviços secretos. E de acordo com a acusação terá sido assim: no verão de 2010, Jorge Silva Carvalho, então número 1 do SIED, quis saber quem era a fonte do jornalista e pediu a João Luis que obtivesse a lista. Este transmitiu a ordem ao espião Nuno Dias (o único que continua no ativo) que por sua vez pediu à mulher, Gisela Teixeira, que “sacasse” a lista da Optimus, empresa onde trabalhava.

Mais tarde, e sempre de acordo com a acusação, Jorge Silva Carvalho saiu dos serviços e negociou a entrada na Ongoing com Nuno Vasconcellos, de quem era irmão maçónico na loja Mozart. Para demonstrar que poderia ser útill, e quando já estava demissionário, pediu um dossier sobre dois empresários russos com quem a Ongoing queria negociar e um relatório sobre um empresário madeirense que tinha sido casado com a mulher de um administrador da Ongoing. A defesa alega que as informações foram obtidas em fontes abertas e que nada têm de ilegal.

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