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O que ouvem os portugueses

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ED SHEERAN. Ele é, de longe, o artista mais ouvido em Portugal

O streaming veio alterar por completo os hábitos de escuta de música. O álbum está prestes a entregar a alma ao criador. E as estrelas já não são aquelas que víamos no céu

Miguel Cadete

Miguel Cadete

Diretor-Adjunto

Arctic Monkeys, Ed Sheeran Imagine Dragons, Maroon 5 e Coldplay são os artistas mais populares em Portugal. Em rigor, isto quer dizer que são os autores das canções mais ouvidas no nosso país desde o dia 12 de fevereiro de 2013 até ao passado dia 30 de setembro.

O Expresso teve acesso a um estudo do Spotify em que são elencadas por ordem decrescente todas as 50 canções mais ouvidas através daquela plataforma de streaming desde que chegou a Portugal. E a conclusão é que o mundo mudou radicalmente no que à música diz respeito. Ouvir música por streaming não é uma mudança tecnológica com efeito neutro. Ou seja, não é o mesmo que trocar o vinil pelo CD; ou mesmo o CD pelo iTunes. O streaming mudou a forma como escutamos música. E alterou também a maneira como os músicos apresentam a sua música. Os resultados estão à vista nesta listagem.

Estas mudanças podem ser quase impercetíveis mas a lista que agora publicamos demonstra que o álbum enquanto unidade conceptual é uma entidade à qual já foi passada a certidão de óbito. No mundo do streaming, os consumidores ouvem apenas as faixas que pretendem e não se veem obrigados a passar pelo alinhamento completo de um álbum. Muito provavelmente, este é um regresso ao tempo dos singles, aquele que marcou os primórdios da indústria discográfica e que vingou até aos anos 60, quando então começou a ser massificada a comercialização do LP. Hoje em dia, de nada vale meter músicas num álbum “para encher”.

Na lista a que o Expresso teve acesso, e que contabiliza os hábitos de consumo ao longo de cerca de dois anos e meio, os Arctic Monkeys são os líderes com a canção “Do I Wanna Know?”. O curioso é que o agrupamento britânico não conta com mais nenhum tema no rol dos 50 mais tocados. Noutros tempos dir-se-ia que eram uns “one hit wonder”. Ora, essa informação dá também a entender que, por estes dias, as canções são bastante maiores que os seus autores ou intérpretes, deixando perceber que o público se desliga cada vez mais de quem canta ou toca para estar apenas interessado na canção em si mesma.

Na verdade, são muito poucos os artistas com faixas repetidas nesta lista dos 50 mais ouvidos em Portugal através do Spotify. Ed Sheeran vai nitidamente à frente, não só porque ocupa o 2.º (“Thinking Out Loud”) e 3.º (“I See Fire”) lugar, mas porque ainda fez incluir mais duas canções nesta lista. Isto quer muito simplesmente dizer, apesar de não termos informação relativamente ao número de vezes que cada faixa foi tocada, que ele é o artista mais ouvido em Portugal nos últimos 28 meses.

Os outros artistas ou bandas capazes de repetir temas nesta lista são Sam Smith, Coldplay, Imagine Dragons, Calvin Harris, Ellie Goulding e Maroon 5. A dispersão de artistas é pois notória, estando a lista repleta de nomes que escapam aos media tradicionais e que não obtêm qualquer visibilidade na televisão, nos jornais ou mesmo na rádio. Muitos deles fogem também ao estatuto de banda e artista tal como está consagrado na história menos recente da música popular, pois devem ser entendidos enquanto DJ: é o caso de Avicii, David Guetta ou Calvin Harris.

Quanto às nacionalidades, o grande domínio é norte-americano ainda que os primeiros lugares da tabela sejam dominados por artistas britânicos. O caso português é, a este respeito, dramático. Entre todas as entradas, apenas uma canção foi produzida por portugueses: trata-se de “Às Vezes” dos D.A.M.A. Porém, é impossível não referir que a língua portuguesa está bastante presente. Além dos D.A.M.A. também Anselmo Ralph (“Não Me Toca”), B4 (“É Melhor Não Duvidar”), Badoxa (“Controla”) e Master Jake (“Jajão”), este último num honroso 24.º lugar, estão entre os 50 mais ouvidos, com a particularidade de todos eles serem de nacionalidade angolana. Do Brasil, ou dos outros países lusófonos, não resta nada.