Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

“Em nome da minha voz, que é a voz da minha geração, deixem que esta história vos conte a verdade”

  • 333

A luta pela igualdade faz-se de muitas maneiras e Sonita sabe-o. Dos Estados Unidos, onde conseguiu um visto e uma bolsa para estudar, canta às mulheres afegãs: “Em nome desta caneta, que é a minha arma, e da minha voz, que é a voz da minha geração / Deixem que esta história vos conte a verdade, a história das mulheres indefesas no Afeganistão”. Sonita, a refugiada afegã que canta rap pelos direitos das mulheres - e que fugiu para não casar à força

D.R.

“Deixa-me sussurrar-te as minhas palavras / Para que ninguém me ouça quando falo de vender as nossas filhas / A minha voz não deve ser ouvida, pois sou contra a lei charia / As mulheres devem manter-se em silêncio, é a tradição da nossa cidade”

Provavelmente não reconhece estes versos, não tocam na rádio nem passam na MTV. Mas valeram a Sonita Alizadeh, uma afegã de 18 anos, um visto para os Estados Unidos e a oportunidade de estudar como bolseira na Wasatch Academy, no estado norte-americano do Utah. 75 mil visualizações no Youtube significaram para esta jovem a visibilidade para ser escolhida pelo Strongheart Group, uma organização que ajuda indivíduos que sofrem por causas sociais a contar as suas histórias.

Sonita escapou da ameaça de se ver casada por obrigação com apenas 18 anos. A sua mãe só soube que tinha fugido para os Estados Unidos quando já não havia nada a fazer. Visitou-a há meses, de novo com o intuito de a convencer a casar com um homem mais velho que em troca pagaria 9 mil dólares à sua família. Desta situação, pela qual Sonita já não culpa a mãe - considera que esta tentava apenas reproduzir as tradições familiares - surgiu o êxito “Daughters for Sale”.

Mas esta não foi a primeira vez que a jovem mostrou o seu talento para compor música rap. Sonita, filha de uma família muçulmana devota, fugiu em criança para o Irão, tentando escapar ao controlo talibã. Foi já naquele país que começou a escrever poesia: durante o dia, limpava a casa de banho de uma organização não governamental para refugiados afegãos; quando chegava a casa, via videoclips de música rap para passar o tempo. Começou assim a compor as suas próprias músicas, embora cantar a solo, sendo mulher, seja ilegal no Irão.

Sonita acabou por chamar as atenções para o seu talento. Em 2014, venceu um prémio de mil dólares numa competição que visava promover um hino que chamasse os eleitores afegãos às urnas. Segundo Sonita, para a sua mãe esta terá sido a prova de que a filha consegue “fazer dinheiro tal como um rapaz”. Seguiu-se o êxito “Daughters for Sale”, com a ajuda de um realizador iraniano que apostou na jovem.

Sonita Alizadeh encontra-se no Utah há quase um ano e espera conseguir o visto para acabar os seus estudos naquele país. No entanto, os planos que se seguem são no sentido de voltar ao seu país de origem e combater as desigualdades, sobretudo as que tocam as mulheres. Entretanto, Sonita não para: a sua última música homenageia Farkhunda, jovem afegã que foi espancada e morta nas ruas de Cabul em março.

Para Farkhunda, Sonita canta: “Em nome desta caneta, que é a minha arma, e da minha voz, que é a voz da minha geração / Deixem que esta história vos conte a verdade, a história das mulheres indefesas no Afeganistão”.