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“Um mau professor não pode continuar na sala de aula”

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TIAGO MIRANDA

Entrevista a Margaret Raymond, Investigadora na Universidade de Stanford

Isabel Leiria

Isabel Leiria

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Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

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Fotojornalista

A diretora do Centro de Investigação sobre Resultados em Educação (Credo) da prestigiada Universidade norte-americana de Stanford foi convidada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos a olhar para o sistema educativo português e a propor caminhos para aumentar a qualidade. Avaliar mais — alunos, professores e diretores — e definir políticas em função de dados objetivos foram propostas que deixou na sua passagem por Lisboa. O que os alunos aprendem hoje afeta o seu futuro, mas também o do país. Por isso, defende, a profissão docente é demasiado importante para não se atuar sobre os maus profissionais.

Durante dois anos estudou o sistema educativo português. O que a impressionou mais?
Do lado positivo, o empenho de professores e diretores no ensino dos alunos e o espírito de colaboração nas escolas. Era algo que não estava à espera. Do lado negativo, posso dizer que assisti a aulas em que os professores não estavam bem preparados. Testemunhei uma em que o professor de Matemática estava a ensinar uma coisa errada sem o saber.

É consensual a ideia de que a qualidade dos professores é o fator mais importante em Educação. Mas conseguimos definir o que é um bom professor? Como se garante um corpo docente de qualidade?
Esse é um dos maiores desafios para os ministros de Educação de todo o mundo. Muito do que pensávamos que sabíamos sobre o que faz um bom professor não está correto. Por exemplo, já há estudos que mostram que as qualificações com que se apresentam à entrada da profissão não têm nenhuma relação com o facto de os alunos aprenderem ou não. Sabemos que são precisos muitos anos para que consigam ser muito bons. O que devemos fazer é definir metas, como foi feito com os alunos, e competências a atingir em cada etapa do seu desenvolvimento profissional, desde o professor ‘estagiário’ até chegar a ‘mestre’ na profissão. E as competências não são só pedagógicas. A capacidade de se adaptarem aos alunos que têm pela frente e definirem diferentes estratégias, de comunicação, de se relacionar com pais, colegas e diretores são igualmente importantes. À medida que vão atingindo diferentes patamares, com o apoio da escola, devem ser recompensados financeiramente por isso. A definição de metas e avaliação também se deve aplicar aos diretores das escolas.

E quem avaliaria?
Sou a favor de uma inspeção independente composta por professores, mas de outras escolas. É melhor não conhecer os avaliados para se evitar constrangimentos pessoais.

Há quem coloque a questão da competência de professores de fora para avaliar outros.
Se estivermos a falar de alguém que não tenha experiência de sala de aula podia compreender o argumento. Mas estou a falar de avaliadores que seriam professores experientes, que chegaram a ‘mestres’ e que podem apontar falhas e recomendar formas de melhorar. Em todo o mundo os docentes estão desejosos de ter esta ajuda. Em Portugal, há uma boa oportunidade de fazer alterações na formação, colocação e avaliação dos professores, já que nos próximos 10 anos sairão milhares do sistema e há toda uma nova geração a entrar.

O que se fazia aos que falhassem?
O impacto do professor na vida dos estudantes e consequentemente na sociedade é demasiado grande para que se possa permitir que um mau profissional permaneça na sala de aula.

Defende também uma alteração no recrutamento dos docentes, essencialmente feito pelo Ministério da Educação, em função dos anos de experiência dos candidatos e das notas finais dos cursos?
As notas de há 20 anos...Sim, defendo. Assegurar que se tem bons professores em todas as salas de aula não é algo que uma agência central possa fazer bem. A parte administrativa do processo podia ser deixada ao Ministério, porque há eficiência aí. Mas a decisão real sobre quem fica numa escola e mais se adapta às necessidades dos alunos e à cultura do estabelecimento de ensino deve ser descentralizada. Não há ninguém no Ministério que possa saber isso.

No seu estudo “O quinto compromisso: Desenvolvimento de um Sistema de Garantia do Desempenho Educativo em Portugal” recomenda a introdução de mais testes nacionais. Porquê?
No vosso sistema atual os alunos são testados apenas num ano em cada ciclo de escolaridade, mostrando o nível de conhecimentos que atingiram e que resulta do contributo da escola, da família e do que sabe o próprio jovem. Se forem testados em dois anos consecutivos já é possível avaliar que progresso académico tiveram e o impacto da escola nessa evolução.

Mas há mais vida além dos exames em Educação.
Não contrario isso. Os testes fazem um excelente trabalho na medição das competências cognitivas. E sim, seria redutor resumir a avaliação a isso se essa componente não tivesse qualquer relação com outras que também são adquiridas na escola. Mas a verdade é que há uma correlação elevada: é muito provável que um aluno com bons resultados na parte académica tenha também competências emocionais, sociais, criativas. Era positivo que conseguíssemos também avaliar esses ganhos. Mas neste momento não sabemos medir isso e temos de ir trabalhando com o que temos. E defendo que esta evolução dos resultados dos alunos também deve ser tida em conta na avaliação dos respetivos professores.

O debate político em torno da Educação devia ser menos ideológico e mais baseado em números que diz ser fundamental recolher e analisar?
Uma das razões porque os vossos debates são tão ideológicos é porque não têm dados nem informação. É difícil saber o que aconteceu com alguma medida se não há resultados para discutir. Mas não é só uma questão de ter boa informação. É preciso que esteja disponível a todos, pais, empresários, jornalistas, já que são um instrumento adicional para avaliação das políticas.

Tem estudado muito o impacto das charters schools nos EUA (financiadas com dinheiro público, mas geridas por privados). Qual é o balanço?
Há uma grande variedade na qualidade. Mas a conclusão mais importante é esta: as escolas podem ser muito bem sucedidas se funcionarem com um grande nível de autonomia e capacidade de decisão e temos milhares que provaram que, independentemente do estatuto socioeconómico e conhecimentos com que os alunos chegam, podem evoluir e ter sucesso.