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O pai da noite lisboeta está de volta

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Alexandre Bordalo

A mente do mítico Targus reinventa-se no Cais do Sodré com o Tabernáculo

Era uma noite lisboeta muito diferente aquela que Hernâni Miguel começou a tornar popular no fim dos anos 70. O Bairro Alto e o Cais do Sodré não eram uma Meca para os jovens, a cidade não era cosmopolita, os espaços para sair à noite contavam-se pelos dedos, o país ainda estava longe de ser um atração para os turistas. Portugal saía do obscurantismo da ditadura e os portugueses começavam a abrir-se ao mundo e a novas experiências.

“Havia noite, mas era muito diferente da que há agora”, conta Hernâni, a quem muitos chamam Guru, ou um dos gurus da noite enquanto mostra o Tabernáculo. É o seu regresso ao centro da cidade, ao agora trendy Cais do Sodré, depois de dois anos no Funky, na Lx Factory, em Alcântara. À medida que guia o Expresso por esta antiga cave, agora transformada em bar, há quem bata à porta para o cumprimentar e, mais importante, para ver como é o espaço. “Há muita gente que me conhece, mas que eu não conheço.” É o fruto de muitos anos a fundar e a gerir bares e clubes noturnos, um deles o mítico Targus, um dos bares mais populares no Bairro Alto. “Nada acontecia cá nos anos 80 e passou a acontecer.”

Hernâni Miguel assenta arraiais no Cais do Sodré, 
num espaço feito para os amigos

Hernâni Miguel assenta arraiais no Cais do Sodré, 
num espaço feito para os amigos

Alexandre Bordalo

A aventura pela noite começou com o amor à música, aos discos de vinil. O então jovem de 20 anos, que tinha vindo da Guiné-Bissau para Portugal com os seus tutores, estreou-se a pôr discos no Desportivo Clube do Carmo, ainda o país vivia em ditadura. A ‘carreira’, no entanto, começou no Liceu Passos Manuel, onde se destacou como organizador de festas e muito longe de imaginar o impacto que teria na noite lisboeta. Foi, aliás, aí que percebeu que tinha a capacidade de juntar pessoas. Estudava de noite e trabalhava de dia numa fábrica de ar condicionado.

Era, diz, um Portugal cinzento, onde se andava de olhos fechados. “Com o 25 de Abril tudo mudou, foi como se nos tirassem uma venda dos olhos. Já nessa altura o Bairro Alto era um sítio mais aberto e com a Revolução tudo convergiu para lá.” Era o início para uma carreira vivida na noite que dura até hoje. Agora, num contexto diferente, nunca a cidade esteve tão popular e cheia. Para Hernâni, há um segredo que justifica isso. “Lisboa é a única cidade da Europa onde se pode beber tranquilamente na rua. Isso é algo que a torna única.”

Há dois anos saiu do centro da cidade para a Lx Factory — “num projeto que na altura fazia sentido” — e, mal fechou o Funky, regressou ao centro, onde tudo se passa. “É um bocado Erasmus corner [zona da cidade frequentada por estudantes estrangeiros que vivem e estudam em Lisboa], mas esta rua é diferente. Estou no sítio mais especial”, assegura, referindo-se à Rua de São Paulo. O futuro noturno ganha forma no Tabernáculo. Um bar, ou melhor um wine bar, feito para ouvir boa música (há muitos CD e vinis de Ella Fitzerald) e conversar. O espaço é grande e está decorado com sofás e cadeirões estrategicamente colocados em recantos, de forma a que todos se possam ouvir, para petiscar e beber, claro. Os vinhos da Bacalhôa têm lugar exclusivo. A partir do próximo mês, algumas noites da semana serão dedicadas a diferentes tipos de gastronomia: angolana, cabo-verdiana, moçambicana. “Penso nos projetos como se fosse para mim e para os meus amigos, por isso tem de haver espaço para conversar. Não há nada como uma boa tertúlia.” A promessa está feita e o lugar aberto.