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Privadas subiram com a publicação dos rankings de escolas

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Alberto Frias

Quase metade das secundárias públicas mantiveram-se entre as piores posições sete anos após a publicação dos primeiros rankings

Independentemente dos méritos e das desvantagens da publicação anual de rankings das escolas secundárias, que ordenam os estabelecimentos de ensino consoante as médias obtidas nos exames nacionais, há um dado que fica evidente. A simples divulgação teve um impacto forte na prestação das escolas, com um aparente prejuízo para as públicas.

Logo à partida constata-se que o fosso entre as médias registadas nas escolas privadas e estatais (naturalmente mais baixas nestas últimas por uma série de constrangimentos sócio-económicos ou de seleção de alunos) aumentou "consistentemente" ao longo dos anos. Se em 2003 as médias num sistema e noutro foram respetivamente de 103,6 valores e 100,8 valores (numa escala até 200), em 2010 passaram para 115,3 e 102,5, aumentando a diferença entre os dois.

Em segundo lugar verificou-se que houve bastante mais secundárias públicas a manterem-se nos lugares inferiores dos rankings. Já no sector privado houve simultaneamente mais encerramentos, mas também mais evoluções positivas.

Estas são duas das principais conclusões do estudo "Ranking das escolas: o impacto nas escolas públicas e privadas", da autoria de Ana Balcão Reis, Carmo Seabra e Luís Catela Nunes, apresentado esta quarta-feira e divulgado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), no âmbito do Mês da Educação, organizado por esta associação e que decorre até final de outubro, com várias conferências em diferentes pontos do país.

Neste estudo, os autores, investigadores na Nova School of Business and Economic, olharam para o desempenho de 652 escolas (137 particulares e 515 públicas) nos rankings publicados entre 2003 e 2010. O primeiro ano em que tal aconteceu, quando o Ministério da Educação autorizou a divulgação dos resultados por escola, foi em 2001.

Rankings com forte impacto

E com essa publicação houve de facto uma "alteração nas dinâmicas das escolas", afirma Ana Balcão Reis. Olhando para o posicionamento das escolas nos rankings ao longo dos anos, constata-se que há uma persistência maior nos extremos - as que se mantêm entre as 25 por cento com os resultados mais baixos e as que estão no quartil das que têm médias mais elevadas. Mas essa persistência varia muito consoante se trate de escolas públicas ou privadas.

Basta ver que 84 por cento das privadas que estavam no topo dos resultados em 2003 mantiveram a sua posição em 2010. No sector estatal isso aconteceu com apenas 46 por cento.

No extremo oposto, entre as 25 por cento com as médias mais baixas, a situação inverte-se. Só 26 por cento das privadas se mantiveram aí. E um número muito expressivo (40 por cento) fecharam. Entre as secundárias estatais, praticamente metade - 43 por cento - foi incapaz de sair do fundo da tabela. E só 14 por cento fecharam.

Mesmo que se alargue a análise, as movimentações registadas continuam a favorecer o sector particular. No meio da tabela, encontram-se bastante mais escolas privadas a melhorar entre 2003 e 2010 do que públicas.

Triagem de alunos e professores

"Houve uma maior dificuldade em mudar nas públicas", nota a investigadora Ana Balcão Reis, a que não será alheio o "nível muito inferior da autonomia das escolas públicas" e que torna "mais difícil um ajustamento aos rankings".

A este facto acresce um dos impactos negativos dos rankings que tem a ver com um efeito de "triagem" dos "melhores" alunos e professores, só acessível aos estabelecimentos de ensino privados.

Entre as consequências negativas descritas em vários estudos internacionais sobre os efeitos da publicação de rankings de escolas e as positivas (como a motivação para melhorar) será muito difícil estabelecer um balanço final, admite Ana Balcão Reis. Mas perante o facto consumado de que a informação existe e está acessível, o mais importante mesmo é garantir a "qualidade dos dados" e completá-los com o máximo de informação possível.

Este estudo sobre o efeito dos rankings nas escolas portuguesas integra o livro da FFMS A escola e o desempenho dos alunos, disponível a partir desta quarta-feira e que reúne ainda outras investigações, desde o impacto dos chumbos aos factores que ajudam a explicar as diferenças de desempenho em países da OCDE. A publicação pode ser descarregada on-line, de forma gratuita.

Esta quinta-feira volta a haver debate (transmitido em direto no site da FFMS a partir das 17h30), desta vez com a apresentação de um estudo da autoria de Margaret Raymond e Yohannes Negassi(da Universidade norte-americana de Stanford) sobre o sistema educativo português.