Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Loucura ou imaginação? Haverá crime?

  • 333

Conspirações, assassínios, roubos, fraudes, insólitos, intimidades e... audiências. Um homem dominou este universo como ninguém. Fosse ele vivo e teria descoberto a fraude eleitoral, antes que fosse tarde. Inventar muitos o fizeram, muitos o fazem, mas o Repórter X tinha uma técnica especial, até com a verdade nos faz pensar haver mentira.

DR

Acaba de ser descoberta uma conspiração para alterar os resultados das eleições, contudo, as autoridades não conseguem dar a garantia de que a operação tenha resultado a tempo de evitar a fraude. "O sistema é complexo e pode já estar em andamento, sendo difícil de travar por se desconhecer toda a dimensão do esquema montado", diz a polícia, que adiantou estar ainda muito por investigar.

A denúncia surgiu numa carta anónima e levou a polícia a um apartamento da rua Saraiva de Carvalho, em Lisboa, onde apreendeu uma série de material e deteve "um indivíduo sinistro" que as testemunhas alcunham de "O Homem dos Olhos Tortos” - se estivesse vivo, esta "epístola" poderia ser da autoria do Repórter X, o jornalista que misturava a realidade com a ficção, mas Reinaldo Ferreira, dono do pseudónimo, morreu faz este domingo 80 anos...

O primeiro parágrafo é uma invenção, mas ”O Homem dos Olhos Tortos" é a personagem principal de "O Mistério da Rua Saraiva de Carvalho", uma série de "notícias" publicada a partir de 17 de junho de 1917 que deu a conhecer um lisboeta detetive amador chamado Gil Goes, na verdade o primeiro investigador inventado por Reinaldo Ferreira (R.F). Seguiram-se-lhe o norte-americano polícia amador Jim-Joyce, o ardina detetive Agulha, o repórter Kiá e outros, entre os quais o Dr. Duque, o cartomante do raciocínio, um detetive que não sai de casa e tudo lhe chega, criado em 1929, antes do famoso Nero Wolfe do escritor Rex Stout, que só surgiria cinco anos depois.

Uma misteriosa conspiração para alterar o processo legislativo poderia ser, com efeito, uma "reinaldice" - como os menos encantados com a pena do polémico jornalista começaram a chamar a quaisquer patranhas - ou não fosse Reinaldo o autor das palavras que Sidónio Pais disse ao morrer. O ditador assassinado no Rossio em dezembro de 1918 não terá dito uma sílaba quando levou o tiro e caiu inanimado, mas R.F., na sua reportagem sobre o atentado, pôs-lhe na boca a frase "Morro bem... Salvem a Pátria!" que tem sido citada até à exaustão.

Naquela que terá sido a sua primeira ficção publicada como notícia, Reinaldo pôs Gil Góis a dizer que viu pelas três horas da madrugada, para as bandas de Campo de Ourique, saindo de um prédio abandonado da rua Saraiva de Carvalho, três suspeitos "transportando, com a dificuldade que denuncia um peso, um grosso volume de forma humana embrulhado em panos" que lhe "pareceram escuros".

A partir daqui, a história complica-se. Não só no enredo como na publicação. O folhetim - iniciado com o título "Loucura ou imaginação? Haverá crime?" e pós-título "Uma ocorrência misteriosa revelada ao Século por um desconhecido" - foi tido por verdadeiro, durante uns dias, levantando tal reboliço que o jornal dirigido por Silva Graça se viu obrigado a desmentir o crime e a assumir tratar-se de ficção. O que é de nota é que o jornal não desceu as vendas, os leitores queriam saber o resto da história.

Com estes episódios que mais tarde deram o livro "O Mistério da Rua Saraiva de Carvalho" e o filme inacabado "O Homem dos Olhos Tortos", de Leitão de Barros, começado a rodar em 1918 e deixado a meio devido à falência da Lusitania Film, as vendas do jornal "O Século" aumentaram, como acontecia a quase todos os periódicos que publicavam textos de Reinaldo Ferreira.

As divagações futuristas de Reinaldo Ferreira ou a ficção científica que quis publicar na Revista "Ilustração", de 16 de fevereiro de 1929. E apresenta, entre outras "previsões", a Cidade do Cinema em Portugal, Hollywood em Alcabideche

As divagações futuristas de Reinaldo Ferreira ou a ficção científica que quis publicar na Revista "Ilustração", de 16 de fevereiro de 1929. E apresenta, entre outras "previsões", a Cidade do Cinema em Portugal, Hollywood em Alcabideche

DR

REINALDO FERREIRA ENTREVISTA O REPÓRTER X

Eram bastantes os jornais de papel, que só os havia nesse suporte, e eram muitos a sair para a rua. Para se fazer uma ideia, registe-se que em 1887, só em Lisboa, publicam-se 22 jornais, e em 1927 circulam oito. Em 1926, o Repórter X trabalhava para 11 publicações: revista ABC, jornal O Século, A Tarde, Diário da Tarde, Época, O Mundo, Informação, Primeiro de Janeiro, Diário do Minho, Diários dos Açores, Libertad de Madrid, para mencionar aqueles que enumerou na entrevista que faz a si próprio em agosto de 1925.

“O Repórter X não atingiu ainda os trinta anos; engordou um pouco e o seu ventre começa a estar pançudo; tem uma boca que é uma espécie de passarela de orelha para orelha; uns olhinhos azuis pequenos e otimistas; é em conjunto um dos seres mais feitos que tenho conhecido até hoje, não só no género humano como no irracional.” A descrição é da lavra de Reinaldo Ferreira, numa entrevista ilustrada por uma fotografia (montagem) com a legenda: “Reinaldo Ferreira (à direita) entrevista o repórter X (à esquerda); ou vice-versa”.

“Não sou funcionário público, não recebo um centavo que não seja a troco de um papel escrito. E - detalhe que muito me satisfaz - em doze anos de jornalismo nunca recebi nada do Estado nem tive essa cousa tão desejada pelos mortais: um ordenado. Faço artigos; e cada artigo vale tanto... E nada mais. Chamam-me louco por isso, mas eu assim trabalho como quero e quando quero", explica a si próprio o Repórter X, que à afirmação “você trabalha demasiado” responderá: “juro-lhe que sou mandrião! Se trabalho muito é porque sou mais gastador do que mandrião”.

Trabalhava todos os dias, em média três onças de tabaco francês, já que quando se acabava o tabaco parava de escrever. Dormia cinco horas por noite, levantava-se habitualmente às nove, escrevia até às 13, altura em que ia “levar os colarinhos aos fregueses”, ou seja, entregar os artigos escritos. A seguir tomava café e almoçava, dava voltas para “saber coisas”, pelas 19h regressava a casa e punha-se a escrever durante uma hora. “E depois já ninguém me apanha. Saio como que de uma jaula.”

Compreende-se assim como as suas ligações amorosas seriam penosas: a primeira mulher, Lucília, mãe dos seus primeiros dois filhos, troca-o por um médico conhecido do Porto; a segunda companheira, Carmem Cal, com quem tem Oswaldo, em 1931, cansa-se do vício e desiste de tentar mudar-lhe o destino. Reinaldo ainda fará uma desintoxicação da morfina, na Casa de Saúde Portuense, cuja experiência aproveitará para o livro “Memórias de um ex-morfinómano”. Mas em 1934, de novo em Lisboa, depois de “inconseguir” manter os jornais que vai fundando, entre os quais se destaca o “Repórter X” - lançado com dinheiro desviado, à revelia, pelo seu irmão mais novo -, tristonho e com pouca energia, volta a injetar-se com morfina para não mais a largar.

No ano em que Reinaldo se entrevista, ainda sem os malefícios da toxicodependência, já tinha escrito centenas de novelas em português e espanhol, muitas anónimas ou com nomes americanos, mas não tinha nenhuma nas suas prateleiras. “Os livros saem-me das mãos como os artigos… É ao calhar. Não tenho tempo de refletir sobre eles… Não são filhos de nove meses nem mesmo de sete… São, muitas vezes, de dias ou de horas. E por isso sofro inquietações horríveis. Penso sempre que pratiquei uma má ação: que pratico ‘des fausses couches’. Mas que remédio.”

Falou francês para não dizer aborto espontâneo, que na altura a linguagem podia fechar um jornal. Conversava ele, na sua casa da rua do Alecrim, com Reinaldo Ferreira… O diretor da ABC, Rocha Martins, mandara o seu jornalista entrevistar o Repórter X, explica Reinaldo na sua prosa confessando que não lhe agradou. “Aqui entre nós: não tenho por ele a menor simpatia. Existe nesse sentimento um pouco de emulação profissional… Sou jornalista há muitos mais anos do que ele e amealhei muito menos vantagens. Não é justo.” Mas foi à porta ao lado da redação da revista, onde morou uns tempos, antes de ir para o Porto a convite do seu amigo Jorge de Abreu, diretor do “Primeiro Janeiro”, do qual em “três tempos” é despedido.

“Abandonado por Lucília em 1928, Reinaldo passa a viver no ano seguinte com Carmem Cal, ainda aparentada com a família portuense dos advogados Cal Brandão. Continua, entretanto, a trabalhar no ‘Janeiro’, onde congemina a mais inverosímil das suas ‘reinaldices’: uma alegada campanha alemã para desacreditar a moeda inglesa, que passaria pela produção de libras de louça. Isso mesmo, de louça; quebravam-se e tudo. O pior é que envolveu na trama o banqueiro Francisco Borges, do Banco Borges & Irmão, e a coisa, naturalmente, deu para o torto", conta Luís Miguel Queirós na biografia escrita para o “Público” no ano do centenário de nascimento.

UM SALTO REAL PARA A FICÇÃO

Reinaldo, alfacinha de gema, nascido a 10 de agosto de 1897 na freguesia de São Mamede, entrou no jornalismo em 1914 pela mão de Virgínia Quaresma, considerada a primeira mulher jornalista portuguesa. Parece que travou conhecimento com ela num café e lá a convenceu a que o apresentasse ao seu chefe de redação Hermano Neves, que ficará conhecido pela sua cobertura da implantação da República e da I Guerra Mundial. Virgínia, na altura já com 32 anos, será sua madrinha de casamento e quem lhe proporcionará um lugar em Paris numa agência noticiosa.

A Hermano Neves, o jovem Reinaldo propõe a criação de uma secção de crítica de cinema. A proposta foi bem aceite e, pouco depois, “os trabalhos do novel jornalista começavam a ser publicados em ‘A Capital’, que assim se tornava no primeiro jornal da imprensa diária portuguesa a explorar o género”, escreve Fernando Mendonça Fava na edição de 2010 da Revista da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Mas a primeira reportagem a que o mandaram foi a um incêndio na rua de Dona Estefânia.

Reinaldo Ferreira em 13 de dezembro de 1927, no casamento de seu irmão Ângelo, secretário da Companhia da Roça do Porto-Alegre do Banco Burnay, de onde, sem Reinaldo saber, desvia dinheiro para que este funde um jornal

Reinaldo Ferreira em 13 de dezembro de 1927, no casamento de seu irmão Ângelo, secretário da Companhia da Roça do Porto-Alegre do Banco Burnay, de onde, sem Reinaldo saber, desvia dinheiro para que este funde um jornal

Três anos depois, aos 20, deu “o salto da realidade espartilhante da reportagem para o firmamento sem peias de ficção", sustenta Joel Lima no prefácio biográfico ao livro “Memórias Extraordinárias do Dr. Duque, o Cartomante do Raciocínio”, publicado em 1997. “Os seus temas eram, preferencialmente, questões escaldantes da vida nacional, a espionagem e os casos de polícia. O mistério e o seu estilo de escrita eram os ingredientes certos da receita segura do êxito e das grandes tiragens”, adianta Fernando Fava.

A vida de Reinaldo é de tal maneira cheia de peripécias, preenchida por tanta atividade - jornalismo, folhetins, novelas, guiões, peças infantis, cinema - que se estranha a idade com que morreu, em 1935, já em pleno Estado Novo: 38 anos, minado pela morfina e pelos pulmões, que foram sempre o seu ponto fraco. A verdade é que começou cedo. Aos 13 anos, já a criança franzina e loura se fazia passar por pessoa crescida para que lhe publicassem textos, trabalhando a caligrafia, “de língua de fora, como o Eusebinho dos ‘Maias’ a fazer exercício de má letra’, como conta na entrevista concedida a si próprio.

“Ao princípio, antes de ser profissional, quando, ainda no colégio, mandava artigos para o ‘Mundo Cinematográfico’ de Barcelona a cinco pesetas cada um, estudava em casa os mais feios rabiscos. Julgava que assim disfarçaria aos olhos do estrangeiro a minha meninice. E estava convencido que os homens de talento deviam ter uma caligrafia de médico", diz o Repórter X lamentando que os seus escritos “parecessem chineses” e que, por essa razão, os tipógrafos o tivessem obrigado a passar a escrever à máquina.

Aos 13 anos, Reinaldo tem uma paixão pelo cinema, “sonha com a realização de filmes com atores e temas portugueses”. “Perseguindo o devaneio, começou a escrever artigos para revistas da Sétima Arte em França, Itália e Holanda, levando a sua audácia ao ponto de propor a rodagem de filmes em Portugal, com argumentos extraídos das obras de Camilo Castelo Branco. O curioso é que alguns desses artigos, embora escritos num francês sofrível, foram publicados e, facto não menos curioso, a determinado trecho, a revista da produtora francesa Gaumont nomeou-o seu correspondente em Portugal”, conta Joel Lima.

Já com um ano e pouco de profissão, Reinaldo casa-se com Lucília do Carmo Ferreira, de 17 anos, filha de mãe solteira, num terceiro andar da avenida Almirante Reis, casa de seus pais, pelo menos até à altura em que o pai parte para lugar desconhecido e a mãe vai viver com ele e com Lucília para Paris. Portugal tornara-se pequeno para tanta imaginação. E Reinaldo não se sairá mal na capital francesa, onde se deslocou a pretexto de fazer a cobertura da criação da Sociedade da Nações em 1919, a pretexto porque já “levava consigo uma carta de apresentação de Virgínia Quaresma para Óscar de Carvalho Azevedo, jornalista brasileiro responsável na capital francesa pela sucursal da Agência Americana”.

EXPULSO DE ESPANHA POR CRITICAR PRIMO RIVERA

Em Paris, onde terá dado o primeiro passo para se viciar em morfina, foi incumbido de abrir uma sucursal da agência noticiosa na capital belga, onde resolve tudo num mês. E vai morar para Barcelona, em 1921, tentando saciar a sua paixão, faz tudo para entrar na indústria cinematográfica. Em França, nasceu sua filha Yolanda, em Espanha seu filho Edgar que há ser poeta e cuja morte prematura aos 37 anos, em Moçambique, onde morava desde o liceu, o impedirá, segundo os críticos, de igualar Fernando Pessoa.

“Começou por, junto dos Estúdios Montjuich, colaborar na montagem e encenação do filme Arlequines de Seda y Oro, do jornalista e literato catalão Amichatis. Depois entrou como actor numa película do cineasta Ramon Caralt, interpretando a figura de um médico sádico e malvado. A seguir conseguiu convencer Aurélio Sidney da Gaumont a rodar um filme em Barcelona, no qual ele, Reinaldo, era argumentista, cenarista e assistente do encenador. Os honorários eram altos mas aconteceu que Sidney, que era também o actor principal, adoeceu e morreu pouco depois, a quatro cenas do fim da película”, diz Fernando Fava em “Reinaldo Ferreira, o artesão do Fingimento”.

O cinema pode não lhe ter corrido bem, mas a sua atividade literária é intensa. Escreve novelas em série, a um ritmo tal que o seu amigo e jornalista Paco Madrid nem todas consegue traduzir para o espanhol. Segundo Fernando Fava, as que saíam naquilo que vulgarmente se chama “portinhol”, meio português meio castelhano, vendiam-se mais e a razão prendia-se com o facto de “as abstrusas construções gramaticais” serem confundidas com a língua catalã, à data proibida.

Ainda passou uma temporada em Madrid, mas foi obrigado a regressar a Portugal por escrever, no jornal El Liberal, contra a ditadura implantada pelo golpe de 1923, de Primo de Rivera, fundador da organização fascista “União Patriótica”, a qual há de ter a sua congénere portuguesa “União Nacional”, o partido único do ditador Salazar. Mesmo assim, Reinaldo não desiste das críticas e continua a fazê-las no jornal A Tarde, em 1924, irritando o governo espanhol. É aqui que surge o semi-heterónimo. Depois de um amigo o aconselhar a não assinar com o seu nome, Reinado Ferreira risca-o, escreve por cima Repórter e o tipógrafo toma um indecifrável borrão por um X.

Reinaldo escreveu inúmeras histórias, entrevistas, algumas provavelmente reais, as mais famosas terão sido inventadas, como no caso de Mata Hari e Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, sua grande inspiração, mas as reportagens que mais lhe agradaram apontou-as: “A da Rússia dos Soviets - que tantos caluniaram. E antes dessa a da mendicidade, quando vestido de farrapos andei a pedir esmolas em Lisboa”. Foram três dias de mão estendida em 1918, para "A Manhã", assinando pela primeira vez com o seu nome e apelido. Até aqui, só apareciam no final dos textos as iniciais R.F.

EM PARIS COM A CANETA NA RÚSSIA

Ao que parece, Reinaldo rumou à Rússia, mas não terá saído de Paris. Porém, fará publicar na revista ABC, em 1925, 24 reportagens, aproveitando em parte o que escreveu o correspondente francês do “Journal”, o jornalista Henry Béraud, que, em maio desse ano, estivera na União Soviética. O restante sairá da sua imaginação, como refere Luís Queirós, “o jornalista passa a vida a tropeçar em portugueses, desde o porteiro do Kremlin ao homem que embalsamou Lenine”.

Reinaldo Ferreira via o jornalismo como a “varinha de condão que abria simultaneamente todas as portas”, o “elixir que nos dá todas as emoções”, e transformou-se sobretudo num pioneiro da literatura policial e do cinema português. “Acusam-no de fantasiar de mais, à volta de cada assunto…”, lançara-lhe o responsável Reinaldo, no seu papel de jornalista da ABC. Em resposta, o “grande X do mundo”, como a ele se refere a revista quando anuncia a ida ao ‘país dos sovietes’, começa por dizer que “em tantos anos de jornalismo só teve três desmentidos”, que procura assuntos extravagantes, os desprezados e... “desenvolvo uma técnica que está de acordo com a minha maneira de trabalhar", explica, resolvendo clarificar com um episódio histórico, o da “resposta de Charlotte, amante do rei Fernando VII de Espanha”.

“Charlotte era francesa e foi a primeira mulher a maquilhar-se em Espanha. O rei amou-a loucamente e todos os elegantes da época andavam perdidos pela sua beleza. Quando passeava pela Castelhana, o seu rosto era o íman de todos os olhares. Um dia, várias damas da corte espanhola, disseram: O êxito de Charlotte é a pintura. Se não fossem as tintas, ela não conquistaria ninguém… E ela respondeu: Ah! sim? Pois digam a essas senhoras que se pintem também…”

Luísa Carlota, retratada pelo pintor VIcente López Portaña

Luísa Carlota, retratada pelo pintor VIcente López Portaña

DR

Episódio chekado

Fernando VII reinou entre 1808 e 1833. Sofria de macrossomia genital, quer dizer, “as dimensões do seu membro viril eram muito superiores à média”, segundo um médico da época citado por César Cervera no diário espanhol ABC, em março desse ano. Além de citar o escritor francês Prosper Mérimée descrevendo o pénis real como sendo “fino como uma barra de lacre na base, tão gordo como um punho na extremidade”, Cervera afirma ainda que o rei “era um declarado misógino e muito conservador".

Se era verdade que não tinha as mulheres em grande consideração, também o serão os seus passeios noturnos disfarçado, “tanto para se inteirar da vida no reino, à laia de sultão oriental, como para se entregar, fora do Palácio, a certos desportos que os muçulmanos praticam dentro do harém”, lê-se em “Fernando VII, Rey Constitucional”, de W.R. de Villa-Urrutia, que, neste seu livro de 1922, afirma ainda gostar o rei “de moças de muito trato e pouco senhorio”.

Nas “Memórias históricas sobre Fernando VII”, escritas em 1840 por Michael J. Quin, vê-se outra coisa - lê-se que este rei “nunca teve amores publicamente conhecidos”. No entanto, nas “Memórias Intimas”, o marquês de Mendigorria, general coevo a par dos segredos reais, fala nos amores de Fernando com uma “formosa viúva”.

Será esta a francesa Charlotte? Nenhum destes autores refere diretamente um nome, daí que seja difícil comprovar que Fernando VII, rei aos 36 anos, tenha tido a amante nomeada por Reinaldo Ferreira. O nome mais aproximado é o de sua cunhada, Luísa Carlota, casada com o tio materno dom Francisco de Paula de Bourbon.

Luísa Carlota de Bourbon-Duas Sicílias será tia e sogra da rainha Isabel II, a filha de Fernando VII que o levou a revogar a lei sálica que não permitia a ascendência de mulheres ao trono, em detrimento de seu tio. Carlota era irmã de Maria Cristina, a quarta mulher de Fernando, e era italiana, nascida em Nápoles. Terá sido amante do cunhado?

Fernando VII foi casado quatro vezes. Da primeira mulher Maria Antónia Teresa teve duas filhas que morreram bebés. Com a segunda, a sua sobrinha portuguesa Maria Isabel Francisca de Bragança, de 19 anos, as relações eram péssimas, as suas saídas noturnas mais frequentes, mas teve tempo para a engravidar duas vezes - da primeira morreu o recém-nascido, da segunda faleceram mãe e filho.

A terceira, de 15 anos, também sua sobrinha, ia desmaiando quando o viu, mas depois “não o queria tirar de cima”, assim a alemã Maria Josefa Amália, mais nova 20 anos, explicou à mãe, por carta, que o marido imposto não era bonito mas fazia maravilhas no leito conjugal. O problema é que morre sem lhe dar filhos.

A quarta mulher, Maria Cristina, mãe de Isabel, herdeira do trono, é também sua sobrinha e a única que lhe sobrevive e se vingará engravidando do seu amante.

E, em tão curto espaço de tempo, horas, não conseguimos ir mais longe na nossa investigação.

O que Reinaldo Ferreira não faria se tivesse acesso à Internet...