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Xadrez, ioga e esgrima já estão nas escolas públicas

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José Caria

Direções apostam em atividades de enriquecimento curricular cada vez mais diversificadas. São gratuitas e permitem o acesso a todos

Isabel Leiria

Isabel Leiria

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Jornalista

José Caria

José Caria

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Olhos fechados, pernas cruzadas, mãos assentes nos joelhos, polegares unidos com o indicador e um silêncio invulgar para uma sala repleta com 27 crianças de sete e oito anos, apenas cortado por uma música suave e baixinha que sai da aparelhagem. Por segundos ninguém se mexe em cima do tapete, mantendo-se em “posição de lótus”, até nova instrução da professora. Sucedem-se “pránávamas, ásanas, mantras, nyásas”, termos pouco habituais para serem ouvidos a meio de uma manhã normal numa escola, mas a que os alunos do 1º ciclo de Ouressa se vão habituando. Desde o início do ano letivo que o ioga passou a integrar o leque de atividades de enriquecimento curricular (AEC) das escolas primárias do Agrupamento Ferreira de Castro (Mem Martins, Sintra).

Tal como as restantes AEC — desde 2005 que todas as primárias passaram a ter de oferecer estas atividades de forma gratuita, mantendo-se abertas pelo menos até às 17h30 — a frequência não é obrigatória. Mas quase todos os alunos, mais de 700, aderiram a este tempo semanal, conta o diretor do agrupamento António Castel-Branco.

Foi há dois anos que o agrupamento começou a ter ioga mas como atividade extracurricular, paga e frequentada por poucos. “Os resultados foram bons e pensámos em generalizar a todo o 1º ciclo. Há alunos com problemas comportamentais que começam logo pela dificuldade de concentração e incapacidade de estarem quietos, afetando a postura na sala de aula. E há meninos que aparecem stressados pela pressão dos testes e exames. Acreditamos que esta atividade é boa para eles. Mesmo para alguns com necessidades educativas especiais, como os hiperativos”, resume António Castel-Branco.

Não foi a única pública do país a optar por atividades mais originais. De norte a sul, são cada vez mais as escolas que, além das AEC mais comuns como o inglês, a música e a ginástica, estão a diversificar as ofertas (ver lista ao lado). A partir do contexto local ou histórico, dos recursos da escola, tentando apanhar as últimas tendências.

Mais de 260 aceitaram o desafio lançado pelo Ministério da Educação e começaram a dar Iniciação à Programação, com milhares de crianças do 3º e do 4º anos a aprenderem a escrever as primeiras linhas de código e a construírem os primeiros jogos de computador. Em Belmonte ou em Caldas da Rainha aprende-se mandarim. Em Miranda do Douro, mirandês. Noutras passou-se a falar de economia familiar e negócios.

Aprender a jogar

No caso do ioga, também há escolas no Porto, Aveiro, Leiria ou Faro a oferecer a atividade, conta Rosa Xufre, do departamento de ensino para crianças da Confederação Portuguesa do Ioga. É com esta organização que a Federação das Associações de Pais de Sintra, que gere as AEC em mais seis agrupamentos do concelho, estabeleceu o protocolo para ter duas professoras no Agrupamento Ferreira de Castro. “As escolas pedem-nos para ajudar a trabalhar a concentração, a atenção, a memória. Através das disciplinas técnicas do ioga conseguem-se benefícios a nível da flexibilidade corporal, coordenação motora, atenção, autoestima”, enumera Rosa Xufre.

Ainda que seja cedo para ver o impacto que estes complementos ao currículo virão a ter na formação das crianças, uma coisa é certa: para muitas significa aceder a experiências que dificilmente viriam a conseguir de outra forma. “Num concelho com um índice de desenvolvimento económico baixo, onde 72% dos pais têm menos do 9º ano e só 7% o ensino superior, acreditamos que a escola pode fazer a diferença. E quanto mais experiências diferentes as crianças tiverem melhor será para elas”, defende Ana Paula Fernandes, diretora do Agrupamento de Paredes de Coura, que concentra todas as crianças do 1º ciclo na sede do concelho e que antes estavam dispersas dispersas pelas escolas das freguesias.

Variedade é o que não falta. Programação, teatro, conto, brinco e aprendo, história do meu concelho, jogos de estratégia são apenas exemplos da oferta deste ano letivo. “A ideia não é dar aulas no sentido clássico, mas fazer com que aprendam de forma lúdica e que ganhem competências que se repercutem de forma transversal noutras áreas. No caso dos jogos de estratégia podemos usar um tabuleiro, um sudoku, o computador para treinar a capacidade de antecipar e planificar. E também para incutir competências sociais como jogar em equipa e lidar com a frustração de perder, algo a que não estão muito habituadas hoje em dia”, explica Ana Paula Fernandes.

Em Paredes de Coura, as AEC são asseguradas na íntegra por docentes da escola. Como muitos do interior do país, o agrupamento foi perdendo alunos e os professores ganhando tempos livres nos seus horários. E se no início a atribuição destas tarefas a professores do 3º ciclo e do secundário, habituados a adolescentes e não a crianças, foi uma das polémicas que marcaram o programa da “escola a tempo inteiro” lançado pela ex-ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues, a questão “está ultrapassada”, assegura a diretora.

José Caria

Touché

De máscara na cabeça e florete de plástico na mão, os alunos do 3º C da EB1 São João de Deus (Agrupamento Filipa de Lencastre, Lisboa) treinam os movimentos básicos da esgrima. “Em guarda, recuar, avançar, afundo!”, vai ensinado Ricardo Candeias, professor e atleta de competição da modalidade.

É uma das ofertas possíveis naquela escola, a par do xadrez (de onde já saíram vários campeões nacionais), filosofia para crianças, teatro, robótica (ensinada por alunos do mestrado em Engenharia Mecânica do vizinho Instituto Superior Técnico). “É impressionante as noções de física e de movimento que os alunos do 2º ano conseguem ter graças à utilização dos Legos didáticos”, elogia Fernando Baião, coordenador das AEC na associação de pais daquela escola, responsável pela gestão destas atividades.

“A escola de hoje vive muito para os resultados escolares. É importante garantir atividades que permitam aos miúdos experimentar coisas diferentes, sem o peso da avaliação e dos exames. E se queremos continuar a prestar um serviço educativo de qualidade temos de inovar”, diz João Bernardes Silva, diretor das Escolas Raul Proença (Caldas da Rainha). Em parceria com a Associação Tempos Brilhantes, oferece empreendedorismo e um programa de artes que inclui a realização de curtas-metragens pelos alunos, que depois fazem uma projeção para os pais.

“É importante a escola pública seguir bons exemplos e ofertas que existem no privado“, resume Filinto Lima, da Associação de Diretores de Escolas Públicas.