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Afinal, quem descobriu a primeira flor da Terra?

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O fóssil da flor da espécie “Kajanthus lusitanicus” fotografado por um microscópio eletrónico. Foi descoberta em Portugal em 2008 e é um exemplar único de um novo género e espécie de flor

MÁRIO CARDOSO MENDES

Há uma grande competição entre grupos de investigação em todo o mundo para descobrir quais as flores mais antigas que terão surgido na Terra

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

Dois grupos internacionais de investigação, um deles com um cientista português, estão a disputar a autoria da descoberta do fóssil da primeira flor do planeta. A identificação da planta desta flor já foi objeto da publicação recente de dois artigos científicos em revistas de referência internacional.

Tudo começou quando, a 17 de agosto, a Universidade de Indiana, em Bloomington (EUA), revelou em comunicado, depois amplamente difundido nas redes sociais, que o paleobotânico David Dilcher e um grupo de cientistas europeus, tinham descoberto “o que poderá ser a mítica primeira flor” que apareceu à face da Terra. No mesmo dia saíu um artigo destes investigadores sobre a descoberta na conhecida revista de referência mundial “Proceedings of the National Academy of Sciences” (PNAS).

A equipa de cientistas identificou mais de 1000 fósseis de angiospérmicas, as primeiras plantas com flor, e descobriu que tinham 125 a 130 milhões de anos de idade. Eram plantas aquáticas a que chamaram “Montsechia vidalii”, “que cresceram abundantemente em lagos de água doce naquelas que são hoje as regiões montanhosas de Espanha”, explicava o comunicado. Os fósseis foram recolhidos nas montanhas do centro do país vizinho e nos Pirenéus, junto à fronteira com a França.

David Dilcher, professor emérito do Departamento de Ciências Geológicas da universidade, afirmou então que “a descoberta coloca questões importantes sobre a história evolutiva dos primeiros tempos das plantas com flor, como o papel que tiveram na evolução de outras plantas e animais”. E vai certamente contribuir para os cientistas perceberem quais os acontecimentos, a nível da evolução e da ecologia, que tornaram as angiospérmicas predominantes nos atuais ecossistemas.

As flores de uma planta aquática fossilizada encontrada na China, a “Archaefructus sinensis”, eram até então as mais sérias candidatas a primeiras flores da Terra. “Mas com base na nossa investigação sabemos agora que a “Montsechia” é contemporânea, ou mesmo mais antiga, do que a “Archaefructus””, adiantava David Dilcher, um especialista em angiospérmicas reconhecido a nível internacional. Um observador menos avisado não identifica, no entanto, os fósseis encontrados como plantas com flores. “A “Montsechia” não era constituída por componentes típicas das flores atuais, como pétalas e estruturas produtoras de néctar para atrair insetos”, esclarece o investigador da Universidade de Indiana. “E vivia todo o seu ciclo de vida debaixo de água”.

Mário Cardoso Mendes, investigador da Universidade do Algarve e da Universidade Lusófona: “Existem claras evidências de que as flores decobertas no registo fóssil português são bem mais antigas do que as descobertas em Espanha”

Mário Cardoso Mendes, investigador da Universidade do Algarve e da Universidade Lusófona: “Existem claras evidências de que as flores decobertas no registo fóssil português são bem mais antigas do que as descobertas em Espanha”

Mário Cardoso Mendes

Cientista português contesta pai da descoberta

Só que toda esta história de David Dilcher não é pacífica. Assim, antes da publicação na PNAS surgiu outra, na edição de 15 de julho da revista científica “Grana”, da autoria de uma equipa internacional que inclui um paleobotânico português, Mário Cardoso Mendes, do Centro de Investigação Marinha e Ambiental (CIMA) da Universidade do Algarve e do centro de investigação DREAMS da Universidade Lusófona. A equipa, que integra também investigadores da Universidade de Viena (Áustria), do Museu Sueco de História Natural (Estocolmo) e da Universidade de Aarhus (Dinamarca), reclama para si a descoberta dos fósseis das primeiras flores da Terra, bem como os locais onde estes se encontram, que não são em Espanha mas em Portugal.

 Fóssil do fruto coberto de grãos de pólen da “Canrightiopsis dinisii”, uma das três novas espécies de plantas com flores descoberta por uma equipa internacional de investigadores que inclui um cientista português

Fóssil do fruto coberto de grãos de pólen da “Canrightiopsis dinisii”, uma das três novas espécies de plantas com flores descoberta por uma equipa internacional de investigadores que inclui um cientista português

Mário Cardoso Mendes

O artigo revela e descreve um novo género e três novas espécies de angiospérmicas: a “Canrightiopsis intermedia”, a “Canrightiopsis crassitesta” e a “Canrightiopsis dinisii”. Os cientistas realizaram o seu estudo com material português recolhido na chamada Bacia Lusitaniana (litoral centro-oeste), entre Torres Vedras e o norte de Aveiro, onde existe um património fóssil muito rico e diversificado, que permite acompanhar a evolução das plantas com flor deste o periodo geológico do Cretácico Inferior (entre 145 e 99 milhões de anos atrás) até ao Cretácico Superior (entre 99 e 65 milhões de anos atrás), onde estas plantas se tornaram dominantes.

“Os resultados obtidos neste estudo têm um impacto científico de inegável significado ao nível da Botânica e da Paleobotânica”, explica Mário Cardoso Mendes ao Expresso, “tendo em conta que o novo género de flores agora descrito estabelece a ligação entreo o extinto género “Canrightia” e os géneros da flora moderna (atual) “Chloranthus”, “Ascarina” e “Sarcandra”. Numa jazida em Torres Vedras, a equipa a que pertence o investigador português encontrou restos das angiospérmicas “mais antigas do mundo, com cerca de 130 milhões de anos, onde foram identificados diversos pólenes anteriores aos das “Montsechia vidalii” identificadas em Espanha”.

Grande competição entre cientistas

Ao longo dos tempos tem havido enorme competição entre os grupos de investigação em todo o mundo com o intuito de tentar descobrir qual a flor mais antiga que terá surgido na Terra, conta o investigador português. “Mas existem claras evidências de que as flores recolhidas no registo fóssil português são bem mais antigas do que as “Montsechia vidalii” de Espanha”. Por isso, há constantemente em Portugal cientistas de outros países, em especial da Europa, a fazer investigação nesta área, porque o nosso país tem um património fóssil “muito grande, que é o mais antigo do mundo”.

Grãos de pólen fossilizados da flor “Kajanthus lusitanicus”, descoberta pelo paleobotânico português Mário Cardoso Mendes e publicada em dezembro de 2014 na revista científica GRANA

Grãos de pólen fossilizados da flor “Kajanthus lusitanicus”, descoberta pelo paleobotânico português Mário Cardoso Mendes e publicada em dezembro de 2014 na revista científica GRANA

Mário Cardodso Mendes

O problema é que em Portugal, “o Ministério da Educação e Ciência, apenas tem financiado investigação aplicada com retorno financeiro directo, quantificável e tangível, deixando à margem a investigação fundamental”, lamenta Mário Cardoso Mendes. Mas países como a Espanha, a França e os EUA “investem seriamente neste tipo de investigação” e as verbas atribuídas a projectos na área da Paleobotânica são elevadas e têm contribuído para a pesquisa de jazidas petrolíferas, por exemplo.

Ou seja, “é bastante crível que a informação patente no comunicado da Universidade de Indiana venha a contribuir para atrair financiamento para alguns projectos de investigação em França, Espanha e EUA”. Mário Mendes acrescenta que “os paleobotânicos acharam muito estranho que uma informação desta natureza não estivesse mencionada no artigo da PNAS – nem poderia – e surgisse num comunicado amplamente difundido pelas redes sociais”. O investigador diz que não gosta de fazer comparações, porque cada publicação tem o seu valor científico, “mas o trabalho publicado na GRANA está a ter um enorme impacto no seio da comunidade científica internacional”.