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Uma joia para travar a violação

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Manifestação antiviolação em Bombaim

© Danish Siddiqui / Reuters

As violações na Índia são uma infeliz “tradição” de há muito. Para combatê-la, cinco engenheiros criaram uma joia que emite um sinal de perigo através de um microchip com sistema GPS

À vista desarmada, é apenas um colar bonito, com uma pedra azul-safira, verde-esmeralda ou preto-ónix. Mas o Safer (cuja tradução significa “mais segura”) foi criado por cinco engenheiros indianos e possui um sistema oculto na parte de trás da gema que emite um aviso de perigo, localizável graças ao sistema de GPS incorporado no microchip. Associado a uma aplicação instalada no smartphone, o alerta pode ser localizado no Google Maps e assim a ajuda pode chegar ao local do crime.

Ao ser apertado duas vezes seguidas, o Safer aciona o sistema de alerta: os contactos de emergência (os “guardiões”) escolhidos pela pessoa recebem um SMS no telefone ou uma mensagem pela internet com o alerta para a situação de perigo, assim como a sua localização exata. Silencioso, o pingente não denuncia a utilizadora. E ainda é uma bela peça de joalharia - existente em azul-safira, verde-esmeralda ou negro-ónix.

A Leaf, empresa que comercializa o Safer, não queria sobrecarregar as mulheres com mais um objeto, facilmente roubável, ou muito óbvio, que colocasse sobre elas uma carga negativa. “As indianas gostam de joias. Fomos às joalharias e descobrimos que os pingentes são os mais procurados”, partilha Paras Batra, diretor de vendas e marketing da empresa.

O Safer é mais uma arma na luta contra as violações na Índia, a acrescentar a muitas outras que têm sido criadas nos últimos anos: gás pimenta tem sido distribuído às mulheres (mas este pode sempre ser roubado pelo agressor) e foram inventados artigos como calças antiviolação, cuecas que garantem descargas elétricas de 3800 quilowatts contra o agressor ou até meias com pelos...

Manifestações na Índia após a morte da estudante de medicina, em Dezembro de 2013, vítima de violação coletiva

Manifestações na Índia após a morte da estudante de medicina, em Dezembro de 2013, vítima de violação coletiva

SAJJAD HUSSAIN

As violações na Índia são uma infeliz “tradição” de há muito, mas ganharam visibilidade internacional nos últimos anos, depois de algumas violações coletivas - nomeadamente em 2012, quando uma estudante de medicina de 23 anos que seguia a bordo de um autocarro com o namorado foi violada durante uma hora e meia por cinco homens, incluindo o condutor, e acabou por morrer. Foi, aliás, este acontecimento trágico que deu a Batra a ideia de criar o Safer.

“Fiquei muito perturbado e senti que era preciso fazer algo para tornar a cidade mais segura para as mulheres”, conta. Desde então, o país tem-se mobilizado para combater as violações. Houve várias manifestações, foram criadas linhas telefónicas para mulheres em perigo e passaram a ficar registados os nomes, fotografias e moradas dos agressores sexuais condenados. Só para se ter uma ideia, em 2011 foram denunciados 228 mil crimes contra mulheres na Índia. Só em Nova Deli, até 15 de dezembro de 2014 tinham sido registados 2.069 casos de violação.

O site da Leaf, que precisa de 6,6 mil euros para avançar com a produção em massa das joias, tem a decorrer uma campanha de crowdfunding até ao fim do mês de setembro, tendo já angariado 30% do valor necessário.