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Como transformar o mundo: atenção a este fim de semana

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D.R.

Um sexto da humanidade não tem acesso a água potável, um terço não sabe o que é ter eletricidade - “há uma relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta”. Neste contexto, a mobilização global para “transformar o mundo” é discutida este fim de semana numa cimeira da ONU. O documento para combater a pobreza que estará em cima da mesa é visto pelo ministro do Ambiente, Jorge Moreira da Silva, como a ponte para um acordo no combate às alterações climáticas até final do ano. “Não há plano B”

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

O futuro do planeta está em cima da mesa em Nova Iorque, este fim de semana. E vai continuar a estar daqui a dois meses em Paris. “Para se terem bons resultados nas negociações sobre alterações climáticas é importante ter um bom resultado no combate à pobreza. E a realização destas duas cimeiras no mesmo ano pode ser um fator decisivo para se chegar também a um novo tratado climático”, sublinha Jorge Moreira da Silva, ministro do Ambiente, Ordenamento do Território e Energia.

A ideia vai ao encontro das palavras do próprio secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, que tem declarado que a cimeira do desenvolvimento sustentável, que começou esta sexta-feira, servirá para se ultrapassarem os impasses que têm impedido até agora um ambicioso tratado mundial pós-Quioto.

“Como Transformar o mundo: a agenda para o desenvolvimento sustentável até 2030” é o documento que espera contar com o acordo dos 193 Estados representados na ONU. O documento em discussão tem 17 objetivos, traduzidos em 169 metas, e propõe acabar com a pobreza, com a fome e com as desigualdades de género e sociais dentro e entre países. Mas a agenda de “Como transformar o mundo” também quer assegurar padrões de consumo e de crescimento económico sustentáveis, assim como promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres e dos oceanos e combater as alterações climáticas.

A junção destas múltiplas preocupações pode permitir ultrapassar aquele que foi “um dos bloqueios para um acordo na cimeira do clima de Copenhaga”, em 2009, lembra Moreira da Silva. Então, os países em vias de desenvolvimento consideravam que a agenda de combate às alterações climáticas não os tinha em conta. E por isso, sublinha o ministro, “é importante tornar claro o empenho no combate à pobreza”.

Nos últimos 15 anos não se conseguiu erradicar a pobreza − como tinha sido prometido pelo Objetivos de Desenvolvimento do Milénio, acordados em 2000 − mas foi possível chegar a um consenso quanto aos objetivos e reduzir a percentagem de população mundial que vive com menos de um euro por dia (de 47% para 14%); assim como aumentar o número de crianças que frequentam a escola primária (de 83% para 91%), segundo dados da ONU. Mas ainda há mil milhões de pessoas sem acesso a água potável e dois mil milhões sem acesso a eletricidade. E muito ainda por fazer.

O Papa Francisco, que também discursou na ONU esta sexta-feira, é outro dos trunfos para que se chegue a um acordo de modo a evitar a subida da temperatura em mais de dois graus celsius até ao fim do século. Na Encíclica “Laudato Si”, divulgada em junho, foi lançada a mensagem de que “há uma relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta”. Francisco apelou então − e voltou a apelar esta sexta − ao combate às alterações climáticas, tendo em conta que “o clima é um bem comum” e que as populações dos países em vias de desenvolvimento são as principais vítimas do aquecimento global e este é fruto da ação humana.

“Não há plano B”

Se as emissões de gases com efeito de estufa, como o CO2, continuarem ao ritmo atual, as temperaturas médias do ar poderão subir mais 3,6 graus até 2100 com consequências catastróficas. Por isso, o ministro Jorge Moreira da Silva salienta que “é fundamental haver um acordo em Paris (em dezembro) abrangente e ambicioso, inclusivo e custo-eficiente”. Mas para isso, adverte, “é preciso um sobressalto que faça as pessoas perceberem que não há um plano B e a pressionarem os seus governantes para que exista liderança e responsabilidade” na condução do processo.

Cerca de uma centena de países responsáveis por 80% das emissões globais de gases com efeito de estufa já tomaram medidas. O problema é que “não são suficientemente ambiciosas”, critica Moreira da Silva. E reforça o alerta: “A cimeira de Paris é a última hipótese”.

Na cimeira do desenvolvimento sustentável de Nova Iorque, este fim de semana, Portugal está representado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, e pelo secretário de Estado do Ambiente, Paulo Lemos, que irá discursar este domingo.

Também Francisco Ferreira, que está na delegação portuguesa em representação da Quercus e do Centro de investigação em sustentabilidade e Ambiente (CENSE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, sublinha que “este pacote com uma agenda tão abrangente à escala mundial e com mais objetivos e mais ambiente dá outra força às negociações climáticas”, mas prefere manter “cautela” quanto a resultados finais.

Já Moreira da Silva está mais otimista, porque considera que “as vozes que levantavam dúvidas científicas já não existem”. “Praticamente nenhum líder político desvaloriza as alterações climáticas e este combate é custo-eficiente e possibilita crescimento económico e criação de emprego.”