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A futura vida do Desterro

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PATRIMÓNIO. Construído como Mosteiro da Nossa Senhora do Desterro, em 1591, foi albergue de monges, hospício de peregrinos, orfanato, quartel e hospital. Fechou portas em 2006 e deverá reabrir em 2016 com nova vida

JOSÉ CARLOS CARVALHO

Antigo hospital do Desterro abrirá portas em Lisboa na primavera de 2016 como “centro experimental aberto para o mundo”. O promotor, a Mainside − que tem no currículo projetos como a LxFactory e a Pensão Amor − está a reabilitar o edifício e projeta um novo conceito de alojamento, inspirado nas celas monásticas, e um centro de medicinas alternativas, que incluirá uma biblioterapia para “ajudar à cura” através dos livros

Já foi mosteiro, colégio dos órfãos da Casa Pia, quartel militar e hospital. Agora o Desterro prepara-se para uma nova transformação. A partir da primavera do próximo ano deverá abrir portas, por fases, como espaço multifunções “aberto para o mundo”, onde hotelaria, restauração, saúde e comércio se vão conjugar com uma roupagem diferente, inspirada nos 500 anos de história do edifício e a pensar, pelo menos, nos primeiros 10 dos próximos 500.

Depois de desativado em 2006, o antigo hospital foi adquirido pela Estamo (empresa que gere a aquisição, arrendamento e venda do património imobiliário público). Sete anos depois, por iniciativa da Invest Lisboa (agência de promoção económica de Lisboa) foi assinado um protocolo com a Câmara de Lisboa e a Mainside (promotora da LxFactory e da Pensão Amor) para neste espaço de 11 mil metros quadrados desenvolver um projeto inovador.

PROMOTOR. José Queirós Carvalho, numa das entradas do futuro complexo, é o rosto da Mainside

PROMOTOR. José Queirós Carvalho, numa das entradas do futuro complexo, é o rosto da Mainside

JOSÉ CARLOS CARVALHO

A Mainside ficará com a concessão durante 10 anos e o projeto “está feito à escala para ser rentabilizado nesse período”, garante José Queirós Carvalho. O sócio da Mainside espera “bom senso e negociação para se concluir a obra”, numa alusão às dificuldades que levaram a “um compasso de espera” na intervenção que fez adiar a data de abertura de 2014 para 2016.

O modelo de “centro experimental aberto para o mundo” conta com um investimento de €3 milhões e “assenta em três projetos âncora que têm de funcionar”, sublinha José Queirós Carvalho. Estes são o futuro alojamento em forma de cápsulas, o centro de medicinas alternativas e a cozinha em torno do fogo. E já contam com parceiros certos para alguns deles, mas estão “abertos a mais propostas criativas”, já que para o promotor “as ideias inovadoras nem sempre veem de grupos com algum poder”.

Quartos em forma de cápsula

ALOJAMENTO. Protótipo de um das futuras cápsulas em madeira que funcionarão como quarto

ALOJAMENTO. Protótipo de um das futuras cápsulas em madeira que funcionarão como quarto

GONÇALO PELÁGIO/MAINSIDE

Não tivesse sido aquele um mosteiro da Ordem de Cister, que também serviu de albergue para os monges de passagem pela cidade, e a ideia de criar um novo estilo de alojamento não teria surgido. Na nave do quarto andar do edifício virado para a Avenida Almirante Reis, que albergou em tempos um dormitório com mais de 100 camas, vão passar a existir meia centena de “cápsulas habitáveis”, umas em forma de suíte com casa de banho incorporada e outras mais pequenas com acesso a quartos de banho comuns.

“Não é um hostel, não é um hotel, é uma coisa diferente”, afirma José Queirós Carvalho, que quer atrair para este tipo de alojamento gente “que queira usufruir da experiência única de habitar um mosteiro, nem que seja por uma só noite”. A materialização e exploração desta vertente estalajadeira ficarão a cargo da Mainside, mas não está excluída a possibilidade de surgir um segundo projeto hoteleiro.

Bem-estar: entre as mezinhas e as leituras

SAÚDE. Em 1897, o Hospital da Nossa Senhora do Desterro abriu o primeiro serviço nacional de doenças venéreas e nele foi criada a “enfermaria das meretrizes”

SAÚDE. Em 1897, o Hospital da Nossa Senhora do Desterro abriu o primeiro serviço nacional de doenças venéreas e nele foi criada a “enfermaria das meretrizes”

JOSÉ CARLOS CARVALHO

Os antigos blocos operatórios e enfermarias, agora sem contraplacados e com os tetos abobados expostos, irão ser ocupados pelas diferentes valências do futuro “centro de bem estar”. A ideia partiu de Joana Teixeira, 35 anos, que até há pouco tempo trabalhava na área de marketing de uma multinacional, e de José Pinho, um dos mentores da Ler Devagar e de Óbidos Vila Literária.

“Faltava em Lisboa um espaço que concentrasse tudo o que tem a ver com bem estar”, defende Joana Teixeira, que quer ali “abrir o mundo das medicinas alternativas até agora demasiado fechado”. Da troca de ideias surgiu o projeto de juntar um centro com consultas e tratamentos de naturopatia, acupuntura ou medicina ayurveda, massagens ou workshops de bem estar e alimentação saudável, que será complementado com uma vertente ressuscitada de biblioterapia e cineterapia, onde os livros e os filmes ajudam nos tratamentos.

“Isto nada tem a ver com ocultismo ou charlatanice”, garante José Pinho. A ideia é disponibilizar consultas com especialistas em medicina tradicional chinesa ou mesmo convencional e “dependendo do diagnóstico, poder complementar o tratamento com livros ou filmes”. A iniciativa teve inspiração no simpósio médico britânico “Novel Cure”, que elenca uma caterva de doenças para as quais há um livro recomendado. Por cá, o compêndio bibliográfico anglo-saxónico de curas está a ser adaptado e traduzido por Francisco José Viegas, que lhe junta títulos da literatura lusófona e latino-americana.

Os livros poderão ser consultados ou comprados na futura biblioteca do Desterro. Segundo José Pinho, “será uma espécie de farmácia em que em vez de comprimidos ou xaropes são receitados livros” e contará com “ajudantes de farmácia com competência para sugerir um 'genérico' alternativo quando o livro receitado pelo médico estiver em falta”. Em espelho, surge a cineterapia, com uma sala de cinema para visualizar filmes prescritos, mas exibir ciclos temáticos.

Em fermentação

MULTIFUNÇÕES. Além das naves imensas, existem pequenas salas como esta do antigo capitólio para as quais ainda não há um destino certo

MULTIFUNÇÕES. Além das naves imensas, existem pequenas salas como esta do antigo capitólio para as quais ainda não há um destino certo

JOSÉ CARLOS CARVALHO

No piso térreo − que terá acesso direto pela Almirante Reis quando a Câmara avançar com a demolição do edifício ao lado do conhecido restaurante Ramiro e ali fizer uma praça, como está projetado − surgirá “o grande refeitório comunitário”, em torno de uma imponente lareira que simboliza o fogo como elemento central.

Mas há mais ideias em ebulição. Entre elas, “uma escola ou universidade da Vida", de inspiração anglo-saxónica e indiana que ministrará cursos de produção agrícola, de carpintaria ou até workshops de auto-ajuda.

Ainda a florescer, com avanços e recuos, estão outras ideias e conceitos como o de uma “maternidade de plantas” para alimentar as hortas da vizinhança ou um laboratório de mezinhas que fará uso dessas plantas.

Outra das apostas é a criação de um atelier de arqueologia. “Ao contrário do que é habitual, queremos tirar partido das descobertas arqueológicas e em vez de estas pararem a obra passam a fazer parte de um work in progress”, defende José Queirós Carvalho. O conceito ainda não está fechado, mas a Mainside está a ultimar uma parceria com a Era Arqueologia e quer reunir académicos e arqueólogos numa espécie de atelier que terá espaço no Desterro para estudar e mostrar ao público os achados arqueológicos de Lisboa.

Eixo de intervenção

LOCALIZAÇÃO. O edifício do Desterro tem atualmente entrada pela rua com o mesmo nome, mas terá no futuro uma abertura pela Avenida Almirante Reis

LOCALIZAÇÃO. O edifício do Desterro tem atualmente entrada pela rua com o mesmo nome, mas terá no futuro uma abertura pela Avenida Almirante Reis

INFOGRAFIA JAIME FIGUEIREDO

A Câmara de Lisboa considera o projeto de reabilitação e dinamização do hospital do Desterro “estratégico para a cidade, tendo em conta a sua localização no eixo de intervenção prioritário Martim Moniz – Praça do Chile”, onde a autarquia tem avançado com outras intervenções, como a regeneração da Mouraria e do Largo do Intendente. Este fica exatamente do lado oposto da Avenida Almirante Reis. Por isso, “a dimensão, localização e relevância” daquilo que vai surgir no Desterro, é vista pela Câmara como “uma possível âncora fundamental para a regeneração e revitalização de toda a área”.

Sarmento de Matos, um dos historiados que elaborou o estudo sobre a história do edifício e a sua dimensão urbana e arquitetónica considera que “será uma mais valia para a zona a ocupação deste espaço de qualidade arquitetónica excecional”