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Uma avença com o crime

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REDE. Uma quadrilha arranjou um cúmplice dentro da PJ. Se houvesse alguma investigação, eles saberiam de antemão

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Começou a ser julgado quarta-feira, em Leiria, um inspetor da Polícia Judiciária que alegadamente recebia 1500 euros por mês para evitar que uma quadrilha de furto de carros fosse investigada

Teria direito a décimo terceiro, décimo quarto e, até, décimo quinto mês. De acordo com a acusação do Ministério Público, um inspetor do Departamento de Investigação Criminal da Polícia Judiciária de Leiria manteve uma avença mensal de 1500 euros com uma rede criminosa especializada em furtos de carros que incluía uma espécie de subsídio de Natal, um subsídio de Páscoa e um bónus no dia de aniversário.

Em contrapartida, era-lhe pedido para ficar de olho dentro do seu departamento, informando regularmente os seus cúmplices sobre se teriam razões ou não para temer uma investigação policial. O inspetor era especializado precisamente em furtos de automóveis. Ele e outros 17 arguidos, incluindo os cabecilhas da rede que lhe pagavam a avença, começam a ser julgados esta quarta-feira de manhã no Tribunal Judicial de Leiria.

Além de haver indícios de corrupção passiva e associação criminosa, imputados ao investigador da PJ pelo Ministério Público, estão em causa crimes de furto, corrupção ativa, falsificação de documentos, recetação, detenção. A investigação detetou também outras situações também pelo meio relacionadas com o tráfico de droga.

Surpreendido pela GNR

Apesar de o inspetor controlar o fluxo de trabalho no seu departamento na Polícia Judiciária, a quadrilha acabou por ser surpreendida com uma investigação feita pela GNR, levando a que o Ministério Público de Porto de Mós reunisse provas suficientes para conseguir acusar os arguidos.

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A rede funcionava a partir de Mira de Aire, em Porto de Mós, onde tinha um armazém para guardar os carros roubados. Em pouco mais de seis meses, entre fevereiro e setembro do ano passado, os arguidos conseguiram roubar mais de 40 carros. Metade deles foram depois recuperados pela GNR durante as operações de buscas que fez em setembro do ano passado, quando nove elementos da quadrilha foram detidos para interrogatório.

Depois de serem retirados de circulação, os automóveis passavam a ter matrículas novas ou eram desmantelados numa sucateira em São Mamede, na Batalha, e vendidos às peças. A quadrilha parecia ter uma preferência por carrinhas comerciais, em especial Peugeot 505, de nove lugares.

A GNR acabou por descobrir que o inspetor costumava encontrar-se com os seus cúmplices num restaurante em São Mamede, cujo proprietário usava um carro com matrícula falsa. O dono do restaurante tinha sido alvo de um inquérito-crime da Polícia Judiciária conduzido pelo próprio inspetor, não chegando a ser constituído arguido.

O inspetor tem estado a aguardar o julgamento em liberdade, sendo que a Polícia Judiciária suspendeu-o de funções. Há depois três arguidos, considerados os cabecilhas da rede, que se encontram em prisão preventiva, enquanto um outro arguido tem estado em prisão domiciliária.