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Os computadores não salvam a Educação

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HIGH-TECH. Os elevados recursos investidos em tecnologias de informação e comunicação dentro das salas de aula nem sempre trazem resultados positivos para o ensino. É preciso saber usá-los de forma eficaz, alerta a OCDE

ENRIQUE CASTRO-MENDIVIL/REUTERs

Portugal é um dos países onde o acesso a computadores na escola é mais fácil. Mas um estudo da OCDE concluiu que não há uma relação positiva entre o uso das tecnologias e melhores desempenhos dos alunos, pelo menos nos famosos testes internacionais do PISA. Vários países asiáticos comprovam-no

Foram 31 os países e economias analisados pela OCDE e a conclusão pode ser surpreendente: “Em nenhum dos casos onde a maioria dos alunos usa a Internet na escola de forma frequente se registou uma melhoria do desempenho”. Pelo menos olhando para os testes internacionais do PISA, que medem a literacia em leitura, matemática e científica e são realizados de três em três anos por meio milhão de estudantes de 15 anos.

O relatório “Students, Computers and Learning: Making The Connection”, divulgado terça-feira, não pretende ser de todo um manifesto antitecnologia nos estabelecimentos de ensino. Mas diz claramente que o investimento em laptops, tablets e quadros interativos não é suficiente, por si só, para provocar melhorias. E alerta mesmo para as consequências negativas que o uso excessivo das tecnologias pode ter, já que ficou demonstrado que alunos que usam computadores na escola com muita frequência têm piores notas do que os colegas que recorrem a estes equipamentos de forma moderada.

“Regra geral, podemos dizer que a relação entre o recurso a computadores no ensino e o desempenho dos alunos se pode traduzir numa curva com o formato de uma montanha: o uso limitado pode ser melhor do que a interdição total, mas níveis de utilização acima da média da OCDE estão associados a resultados significativamente piores”, lê-se no documento.

Geração 'corta e cola'

“A introdução da tecnologia das escolas levantou demasiadas falsas esperanças”, comentou no início da semana o diretor da OCDE para a Educação, Andreas Schleicher, citado pela BBC online, lembrando que alguns dos países com melhores desempenho nos testes internacionais de literacia têm sido “muito cautelosos no uso da tecnologia dentro da sala de aula”. “Se calhar, a tecnologia está a funcionar como uma distração e leva a que os estudantes estejam a limitar-se cada vez mais a usar o ‘corta e cola’ de respostas ‘pré-fabricadas’ que encontram na Internet”, acrescentou Andreas Schleicher.

Explicações à parte, o facto é que alguns dos países/economias que mais ‘brilham’ no PISA são dos que relatam menos recurso a computadores, como é o caso da Coreia do Sul e de Xangai. Ambos ocupam os últimos lugares deste ranking (68% e 75% dos alunos, respetivamente, dizem não usar o computador na sala de aula num dia normal de escola) e ambos apresentam das melhores prestações nos testes do PISA.

Escolas portugueses recordistas em computadores

Já em Portugal, cujos alunos se colocaram na média da OCDE em termos de literacia matemática no último teste internacional (2012), a percentagem de não utilização de computadores é bem mais baixa: 41%.

O reforço tecnológico do parque escolar foi uma das marcas dos governos de José Sócrates e os resultados estão à vista: 98% dos alunos de 15 anos dizem ter acesso a computador na escola, um dos valores mais altos em toda a OCDE, cuja média está nos 92%.

Quando questionados sobre os hábitos de utilização da Internet nos estabelecimentos de ensino volta a verificar-se um desencontro semelhante: Coreia do Sul, Xangai, Hong Kong, Japão e ainda Polónia, que teve honras de destaque no último PISA pela evolução registada, são os países com médias diárias mais baixas. Mas são também os que apresentam dos melhores desempenhos nos testes internacionais.

Em Portugal, a média diária de utilização de Internet na escola é de 24 minutos, muito semelhante aos 25 minutos da média da OCDE.

No extremo oposto estão sete países com a utilização mais intensiva, sendo que em “três registaram-se declínios significativos” no desempenho em leitura – Austrália, Nova Zelândia e Suécia – e noutros três (Espanha, Noruega e Dinamarca) “estagnaram”, lembrou Andreas Schleicher.

Por isso, frisa o responsável, não basta ter computadores nas escolas. Falta saber integrá-los. “As escolas têm de encontrar uma forma mais eficaz de integrar a tecnologia no sistema de ensino e de aprendizagem para dotar os professores de um ambiente de trabalho que promova uma pedagogia do século XXI e dotar as crianças das competências do século XXI de que elas precisam para ter sucesso no mundo de amanhã”, sublinha.

Asiáticos no topo da competência digital

Em relação às competências digitais, os alunos portugueses apresentaram resultados abaixo da média da OCDE, tanto no que respeita aos exercícios de leitura em suporte digital, como nos de matemática em que era necessário o computador.
Neste ranking, vários países do sudeste asiático voltaram a dar cartas.