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O primeiro transplante de cérebro vai mesmo acontecer

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Valery Spiridonov, um informático russo de 30 anos, voluntariou-se para ser o primeiro paciente a fazer um transplante de cabeça, em dezembro de 2017

© MAXIM ZMEYEV / Reuters

Loucura ou genialidade? Já há data para o primeiro - e muito polémico - transplante de cabeça. Dezembro de 2017 será o mês em que todos os olhos estarão postos no cirurgião italiano Sergio Canavero e no seu paciente russo, Valery Spiridonov. Especialistas portugueses questionam a credibilidade da intervenção

Antes de serem cientificamente validadas, as experiências são sempre experiências. Algumas são tidas como atos de loucura, outras, disruptivas, são posteriormente classificadas como históricas. Na História da Medicina, como na da Humanidade, não faltaram momentos em que verdades científicas foram consideradas loucuras. Galileu, para muitos "o pai da ciência moderna", foi condenado pela Inquisição por sustentar que a Terra era redonda e rodava sobre si própria e em torno do sol - e não o contrário. Contudo, transplantar uma cabeça, com todas as ligações neuronais (e implicações éticas) inerentes, é certamente uma das últimas fronteiras da Medicina moderna.

Um cirurgião italiano, Sergio Canavero, assegura que isso é possível - e já tem uma data e um paciente para a revolucionária operação: em dezembro de 2017, na China, o paciente russo Valery Spiridonov será o homem deitado na mesa de operações a rezar para acordar (de preferência melhor) da cirurgia. Se isso acontecer, o seu nome ficará na História da Medicina - e a vida pessoal do informático de 30 anos será também ela revolucionada - já que sofre da doença da Werdnig-Hoffman, uma atrofia muscular espinhal rara para a qual não há tratamento nem cura. Se a operação tiver sucesso, Spiridonov ganhará um novo corpo e uma vida nova. "Tenho recebido pedidos de muitos doentes, mas prometi a Valery Spiridonov que seria ele o primeiro", diz Canavero.

A operação deverá demorar 36 horas ao todo, segundo o cirurgião italiano, e 150 pessoas vão participar no processo. A cabeça do paciente será arrefecida para desacelerar a decomposição das células. As veias e artérias do pescoço serão ligadas a máquinas que manterão o fluxo do sangue. O grande problema reside no seccionamento da espinal medula - responsável pelas tetraplegias, que até agora nunca se conseguiram reverter. Ao cortar a espinal medula, a primeira coisa a ligar ao novo corpo, pode não se conseguir religar todas as conexões que esta assegurava. Os músculos, nervos, artérias e veias da cabeça serão religados após a ligação da medula.

Canavero apresentou os planos da cirurgia em junho, na Conferência Anual da Academia Americana de Cirurgiões Neurológios e Ortopédicos em Maryland, e publicou vários artigos sobre a intervenção. Segundo ele, o segredo está no corte da medula. Com uma lâmina de diamante, quer fazer uma secção limpa e aplicar uma força de apenas 10 Newton - ao contrário de uma lesão acidental, em que a força de impacto é de 26.000 Newton, defende. Depois, serão usadas micropartículas selantes (polietileno glicol) para a fusão dos tecidos conjuntivos e células.

Os riscos da operação são imensos. A juntar aos da cirurgia, a cabeça do paciente pode rejeitar o novo corpo. Se sobreviver, o paciente terá um ano de recuperação pela frente. Mas Canavero defende que "as hipóteses de tudo acabar bem são de 90%", embora haja, claro, "um risco marginal" inegável. O médico italiano defende que a tecnologia de que a medicina dispõe atualmente já permite realizar este procedimento e que o intervalo de dois anos até à operação será para realizar todos os cálculos e estudos científicos. "A cirurgia só será feita depois de todos os médicos e especialistas terem 99% de sucesso." Canavero vai trabalhar na Harbin Medical University com o médico chinês Ren Xiaoping. O custo da operação está estimado em 11 milhões de dólares.

Sergio Canavero é um neurocirurgião de 50 anos e dirige o Grupo de Neuromodulação Avançada, um "think tank" dedicado aos avanços da estimulação cerebral, em Turim, Itália. Terá sido na Universidade de Turim que se formou, em 1989, segundo diz.

Ao médico Ernesto de Carvalho, professor de neurocirurgia do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, da Universidade do Porto, este assunto nem lhe despertou "particular interesse" para tentar saber mais sobre a intervenção. "Com o que se conhece hoje das dificuldades existentes numa operação deste género - que é de uma complexidade enorme, quer em termos de estruturas nervosas, quer de estruturas vasculares", confessa-se "muito cético" em relação ao sucesso da operação. "Acho que temos hoje, ainda, muitas dificuldades a ultrapassar antes de chegarmos a essa fase."

O médico coloca outra questão, de natureza filosófica: "Se sob o ponto de vista orgânico um transplante é sempre uma questão problemática, então do ponto de vista filosófico ainda mais. O que vai sobreviver? A cabeça, ancorada num corpo estranho? Ou o corpo, ancorado numa cabeça estranha?" O diretor de serviço de neurocirurgia do Hospital de S. João, no Porto, Rui Vaz, vai mais longe: "Não vejo qualquer credibilidade científica nesse projeto. Parece-me demagogia pura, impossível de acontecer. Além disso, anuncia-se uma operação com um ano e meio de antecedência? Isso só pode ser uma manobra de marketing, para não dizer pior."