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Como se consegue uma entrevista ao Papa? Pedindo-lhe diretamente

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FOTO L'OSSERVATORE ROMANO

Aura Miguel, jornalista da Rádio Renascença, fez o que ninguém tinha até hoje conseguido em Portugal: entrevistar um Papa. Um pouco de lata, de persistência e de coragem para arriscar foram fatores decisivos. Francisco facilitou. “É tão disponível que até nos esquecemos que é o Papa”, diz Aura

Aura Miguel assume que ainda não caiu bem em si, que ainda está “a pairar”. A entrevista ao Papa Francisco foi o scoop de uma vida e os efeitos não passam rápido. Jornalista há quase 30 anos e editora dos Assuntos Religiosos da Rádio Renascença há já duas décadas, conhece bem os meandros do Vaticano. É a vaticanista portuguesa mais antiga e, agora mesmo, está a acompanhar o Papa Francisco na sua visita aos Estados Unidos e a Cuba, naquela que será a 84ª presença num voo papal. Podia já estar farta e habituada à rotina do jornalismo religioso. Mas não. A surpresa com que recebeu a notícia - da mão do próprio Papa - de que tinha direito a uma entrevista exclusiva deixou-a “estupefacta”, sem reação e até com insónias. “Foi uma coisa desmesurada”, diz. Ao Expresso, aceitou contar esta sua pequena/grande história.

É preciso ter lata para conseguir uma entrevista com o Papa?
Não sei se é lata. É preciso aproveitar o momento.

E aproveitou o momento, num avião, em janeiro...
Eu pensei: “ele sabe que eu sou a única portuguesa a bordo, já lhe falei tantas vezes de Portugal. Vou-lhe pedir uma entrevista”. E ele é muito disponível - tem isso na cara, é muito impressionante. E quando ele se aproximou, eu disse: “tenho uma coisa para lhe pedir”. “O quê?”, perguntou ele. E eu disse: “uma entrevista para a Rádio Renascença”.

É tão disponível que nem parece que é Papa?
Até nos esquecemos que ele é o Papa, é verdade. É como se tivéssemos um “tu-cá-tu-lá”. E ele olhou para mim e fez aquela cara de quem diz “olha, que amorosa”. Não disse, mas fez aquela cara de quem recebe por dia centenas de pedidos...

Respondeu do género: põe-te na fila...
Mas aí é que eu não desisti. Já tinha feito o pedido oficial, há dois anos, e disse-lhe que um bom pretexto para uma conversa seria o consistório de Fevereiro, em que o nosso patriarca seria feito cardeal. Ele disse: “ah” e eu agarrei-me a isso. Pediu-me para relatar esta conversa a um dos seus secretários. E assim fiz. Nada de resposta.

Desistiu?
Sim. O tempo foi passando. Passou o consistório. Nada. Era normal. O Vaticano funciona muito assim.

Já tinha tentado com João Paulo II?
Com João Paulo II tinha tido a sorte de o entrevistar a bordo de um avião para os Açores. Mas foi diferente: foram apenas duas perguntas sobre Timor. Quando fiquei sem resposta, pensei mesmo que tinha cumprido a minha missão. Assunto arrumado. Mas, passados seis meses entro no avião Papal com destino a Sarajevo. O Papa vem-nos saudar, como é normal. E quando ele chegou ao pé de mim, eu cumprimentei-o e disse-lhe que estávamos muito contentes por ele ter manifestado vontade de vir a Fátima em 2017. E ele olha para mim e diz. “Ah, desculpe, estou em falta para consigo. Devo-lhe uma entrevista”. E eu fiquei completamente pasmada. Fiquei de boca aberta. Não tive reação. Ao meu lado estava uma, de uma televisão americana, que começou logo a dizer. “nós também queremos, nós também queremos”, mas o Papa continuou em frente. E eu nem dormi nessa noite. Tive uma insónia.

Por ir entrevistar o Papa?
Sim. Porque sabia que a bola estava do meu lado, mas não sabia o que fazer. Através das vias normais, não tinha conseguido nada. Não sabia se devia sugerir uma data. Estávamos no Verão, entrava a silly season. Na manhã seguinte, lembrei-me que haveria, em setembro, a visita ad limina dos bispos portugueses. Animada com este horizonte, escrevi uma carta ao secretário do Papa. E nunca recebi resposta. Até hoje.

E voltou a haver nova viagem do Papa?
Sim, em Julho. Foi uma viagem muito longa, de 13 horas e éramos 75 jornalistas a bordo. E quando chegou a minha vez, o Papa para. Mete a mão no bolso da batina e começa a remexer, a remexer. E eu pensei: “vai-se assoar”. E ele saca de um envelope. E vira-se para mim, e diz: “isto é para si”. E eu pensei. “Que horror, que gaffe monumental. Ele enganou-se. Isto é, seguramente, para outra pessoa”. E olhei e estava escrito: “signora Aura Miguel”. Era eu! Abri e fiquei em total estupefação: havia um santinho de São José, outro de Santa Teresinha do menino Jesus, que é uma santa da sua devoção. E a minha própria carta estava lá dentro, e escrito à mão: “8 de setembro, 11h30”. E em baixo: “os bispos portugueses vêm a 7”. E eu de boca aberta. O Papa ainda me tocou no braço: “veja lá, se não lhe der jeito, diga-me que eu mudo a data”.

Como se tivesse outros assuntos de agenda...
Ele foi-se embora e eu estava de tal maneira estupefacta que senti que, se não tivesse o envelope na mão, tinha tido uma alucinação. Esta faceta deixou-me completamente desarmada, até hoje.

A proximidade do Papa é real?
Absolutamente. A presença dele projeta um lado acolhedor. E acho que isso incentivou-me a fazer um pedido que, à partida, era inusitado e praticamente impossível.

Nunca lhe passou pela cabeça pedir o mesmo a João Paulo II ou a Bento XVI, por exemplo...
Nunca. E se eu era próxima de João Paulo II! Tenho fotografias com ele a fazer-me festinhas na cara, mas nunca me passou pela cabeça pedir-lhe uma entrevistinha. É por causa da sua presença fraterna, de abraço, que nos faz esquecer que Francisco é Papa.

E como se prepara uma entrevista com o Papa?
Logo no voo, o Papa perguntou-me: “é rádio, não é?”. E eu nem falei no site. Cheirou-me que ele não queria imagem. Logo a seguir veio o padre Lombardi (porta-voz do Vaticano) ter comigo e perguntou-me se já tinha data para a entrevista. Aí percebi que o Papa decidiu tudo sozinho. E perguntei ao porta-voz como é que fazíamos para o site. E Lombardi confirmou-me que o Papa não gosta de imagem, que não se sente à vontade com televisão e perguntou-me se fazia diferença se fosse o Vaticano a filmar.

O Vaticano impõe condições?
Precisa de transcrever a entrevista e traduzi-la, porque a transmite através da Rádio Vaticano em várias línguas. Há detalhes desse género a tratar. Todo este tipo de questões é colocado. Do nosso lado, também estivemos a avaliar quando seria melhor a transmissão, porque havia os debates eleitorais e tudo isso. E decidimos emitir a 14 de setembro às 9 horas. E foi a essa mesma hora que a radio Vaticano divulgou em várias línguas.

O Vaticano pede para ver a entrevista? Faz cortes?
O objetivo é transcrever e traduzir tudo. Neste caso, havia uma insistência na entrevista em que o Papa responde uma coisa que nem se percebe bem. O padre Lombardi sugeriu que se cortasse e eu não vi mal nisso.

E não foram postas condições?
Combinamos coisas, como a língua em que seria feita a entrevista. A administração da Renascença também pediu se podia ir. E o Papa mandou dizer: “muito obrigada, não venham. O dinheiro que gastariam na viagem deem aos pobres”. E assim se fez. E foram postas duas condições: o Papa não queria falar da visita aos EUA porque tinham chovido centenas de pedidos da América e o Papa tinha-se recusado a falar. Se viesse a falar sobre isso comigo, abria um berbicacho.

Era mais uma condição diplomática do que editorial...
Outra foi que o Papa não queria falar do Sínodo da família. Mas, acabou por o fazer, porque pouco antes da entrevista tinha enviado as cartas pastorais e acabou por surgir no contexto da conversa. E de resto não houve mais nada.

E como é que se prepara uma entrevista como esta?
É um desafio. A partir do momento em que ficou marcada, todos os momentos são a pensar nisso. A entrar no mar, a sair, em casa. Estavam sempre a surgir ideias. Eu tinha um caderninho onde ia apontado. E foi-se burilando. É um bocado como quando se faz uma pintura, ou um livro. Vai-se moldando, vai ganhando uma forma.

E conseguiu seguir o guião?
Baralhei-me um bocadinho. Desde logo porque tinha enviado as perguntas ao padre Lombardi. Ninguém me pediu, mas eu achei que devia. E quando o Papa chegou à sala da entrevista, trazia as minhas folhas na mão. E mal chega, pergunta-me: “não percebe espanhol? Os portugueses não percebem espanhol?”. E eu disse, que me era mais fácil falar italiano. E ele disse. “Vamos fazer assim: eu percebo português se falar devagar. Por isso, você faz-me as perguntas em português, devagar, e eu respondo em espanhol”. E isto para a rádio foi maravilhoso! Eu comecei o guião, mas como ele é um ótimo contador de histórias, vi logo que não ia conseguir despachar aquelas perguntas todas... Claro que ficou muita coisa de lado. Mas depois de acabar, estava tão maravilhada com a experiência, que não me lembrava sequer do que ele tinha dito. Não era capaz de saber se tinha corrido bem.

A entrevista foi feita onde?
Na Casa de Santa Marta. Tive de chegar meia hora antes. Estavam dois técnicos e um fotógrafo da radio Vaticano e o padre Lombardi. Eu ia carregada de prendas, com dois sacos enormes.

Prendas de quem?
Prendas daqui. Um livro sobre os 75 anos da Renascença, uma carta da Administração a dizer que iam dar o dinheiro da viagem aos refugiados. Uma garrafa de vinho do Porto de 1917 vintage. E ainda uma pasta com as primeiras páginas da Bola e do Diário de Notícias, que traziam a história da vinda de São Lorenzo de Almagro a Portugal, em 1947. Eu ia carregadíssima, com mais os microfones e isso tudo. E desde que saimos da sala de imprensa, atravessamos a Praça de São Pedro, entramos no Vaticano, entramos em Santa Marta. E ninguem nos barrou, mandou parar ou tentou ver o que eu levava. Quando o Papa diz para vir, as portas abrem-se todas. Impressionou-me. Porque é tão difícil chegar ao Papa e é tão fácil chegar a ele!

Não houve dress code?
A única exigência é ir de escuro. Eu levei uma blusa azul.

Em que sítio de Santa Marta foi a entrevista?
Numa sala, onde o Papa, normalmente, recebe. É uma sala grande, só com uma mesa de apoio e um canapé. Com um quadro de Nossa Senhora. Eu estava sem saber onde me sentar. Se ficava no canapé com o Papa. E foi mesmo assim, sentados lado a lado, o que imprimiu o ar de uma conversa familiar. Como se estivesse ali a conversar com um amigo.

E isso vem dele?
Vem dele. E eu, que estava um bocadinho ansiosa, beneficiei imenso disso. Quando imprimi o guião, as folhas caíram e estava na hora de ir para Santa Marta e eu rapidamente pus o número nas folhas. Mas enganei-me na numeração e em plena entrevista, com o Papa a falar, dei-me conta que estava tudo trocado. E até essa circunstância, misteriosamente, correu bem. Graças em grande parte a essa atitude de acolhimento do Papa.

Este é o scoop da sua vida. De que forma a afetou?
Foi uma coisa desmesurada. Eu já ando há muito nestas andanças, mas há lá uns que são mais seniores do que eu e isso nunca tinha acontecido. A verdade é que ninguém o pediu.

Mas mesmo conhecendo bem o Papa Francisco, surpreendeu-a a atitude dele?
Como experiência pessoal, nunca tinha sentido uma fraternidade tão grande.Eu própria agora ouço-me e surpreendo-me. A serenidade dele sobrou para mim. É contagiante.

Diferente de todos os outros Papas?
João Paulo II era mais referencial. Era um colosso de santidade, mas fazíamos sempre cerimónia à sua frente. Uma pessoa queria poupá-lo, até porque ele estava doente. Eu sentia uma retração para não o incomodar. Bento XVI era tímido, mais velho e com outro registo de prioridades. Claramente, não estava lá para conviver connosco. Eu não tenho nenhuma razão de queixa, antes pelo contrário, sempre foi muito querido para comigo, mas nunca pensei em tirar-lhe tempo que ele gostava de ter para pensar e para estudar teologia! Este é o oposto. O que ele gosta mesmo é de estar com as pessoas. E esta experiência de relação como pessoa que eu nunca tinha sentido.

E o que aprendeu como jornalista?
Aprendi que vale a pena sermos nos próprios. Uma vez, perguntei a João Paulo II o que devia fazer para ser uma boa jornalista. E ele pensou, pensou. Parou e respondeu: “é preciso discernir sempre”. E isso para mim foi importante. Não se deve dar nada por adquirido. É preciso fazer o juízo, avaliar e decidir. Com este Papa decidi arriscar. Arrisquei. E resultou.