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Vejo tudo negro

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Entre janeiro e o fim do mês de agosto deste ano, registaram-se 2.845 incêndios florestais em todo o país

Rui Duarte Silva

José António viu arder os terrenos, as árvores e os animais em Sortelha, concelho de Sabugal, onde se deu o maior incêndio no país desde o início deste ano. Até ao final de agosto, os incêndios consumiram 53.951 hectares, mais do que no ano passado, mas menos do que a média anual na última década. Este é o 16.º artigo da série “30 Retratos” que o Expresso está a publicar diariamente. São 30 temas, 30 números e 30 histórias que ilustram o que Portugal é hoje em vésperas de eleições

Raquel Albuquerque

Raquel Albuquerque

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Jornalista

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

Infografia

Jornalista infográfica

O fogo já tinha ido à serra outras vezes, noutros anos. A população de Sortelha juntava-se e, com molhos de giestas, batia no fogo quando ele se começava a aproximar demasiado das casas, dos terrenos, dos animais. E funcionava. Só que desta vez foi diferente: nada o controlava e a única coisa que puderam fazer foi correr o mais depressa possível para fugir das chamas e salvarem-se a si mesmos. “Foi indescritível. O fogo saltava de um sítio para outro e tomou uma velocidade estonteante. Ninguém podia ter feito nada.”

Há já mais de dez anos que José António Marques criava ovelhas. Era mais uma ocupação e não uma fonte de subsistência, mas tinha orgulho naquele gado. Eram 16 ovelhas, de castas especiais, tinha ele ido buscá-las ainda pequenas ao Alentejo. Tratava delas o melhor que podia e não queria ter muitas mais. “É que não gosto de pensar que o gado tem fome. Este era gado para carne e era inteligente. Eu subia no meu trator e bastava um assobio para elas virem.”

Só que a 22 de agosto, a freguesia de Sortelha, no concelho de Sabugal, viu aquele que foi o maior incêndio desde o início deste ano no país, que destruiu 5303 hectares. O fogo queimou-lhe os terrenos, que até estavam limpos, deixou-lhe as árvores negras e matou-lhe as ovelhas. Salvou-se ele, por um triz, com uma camisa enrolada na cara para conseguir respirar e a ver as chamas passarem-lhe por cima.

Diz-se na freguesia que foi a trovoada dessa madrugada que causou o incêndio. “Caiu uma faísca no cimo da serra, eram umas duas e meia ou três de manhã”, conta Fernando Jesus, 39 anos, que se lembra de o fogo “ter vindo à serra” quatro vezes, mas “nunca como desta vez”. Já de manhã, por volta das nove horas, viu um helicóptero ir até ao cimo da serra apagar as chamas. “Fui lá ver e, no fim, realmente, parecia extinto. Vim para baixo deviam ser umas 10 horas”, conta ao Expresso, por telefone.

Só que não tinha ficado extinto. Quando voltou a sair de casa, por volta das 11 horas, viu uma “frente de lume na serra”. E aí, sim, com o dia já quente e um vento diferente do habitual na zona, o fogo veio por ali abaixo. “Aquilo avançou uns dois quilómetros e meio em 15 minutos ou menos do que isso. Foi uma coisa nunca vista. O fogo já vinha puxado pelo vento. Ainda tentei controlar aqui, mas já não consegui.”

Mais que em 2014, menos que nos outros anos

O que aquele incêndio queimou em Sortelha corresponde a quase 10% de toda a área ardida desde o início do ano. Entre janeiro e fim de agosto, arderam 53.951 hectares no país, segundo o último relatório do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

Foram 13.786 ocorrências de fogos, entre elas 2845 incêndios florestais. São números superiores aos do ano passado, mas estão abaixo das médias dos últimos dez anos (2005-2014) – menos 7% de ocorrências e menos 35% de área ardida, conclui o ICNF.

“A área ardida em 2015 está em linha com o expectável, sendo aproximadamente metade da média de longo prazo (120 mil hectares). À partida, as condições eram desfavoráveis devido à pouca precipitação de inverno-primavera e a seca resultante, que ainda se mantêm”, comenta Paulo Fernandes, especialista em incêndios florestais e professor na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD).

“A área ardida na primavera foi elevada relativamente ao histórico, mas os meses de verão foram relativamente calmos. Isto explica-se pela ocorrência de poucos dias com simultaneidade de ar seco, temperatura elevada e vento forte, uma vez que estivemos essencialmente sob a influência de massas de ar marítimo, não se tendo verificado as condições de vento leste usualmente associadas a grandes extensões ardidas.”

Para o especialista, o número de ocorrências não é muito relevante, pois a “esmagadora maioria” ocorre em áreas periurbanas, “essencialmente à volta do Porto”, e resultam em áreas “ardidas extremamente baixas por falta de espaço florestal ou de continuidade no espaço florestal”. Porto e Braga são os distritos com mais ocorrências este ano. Quanto à área ardida, os mais afetados são Guarda, Viana do Castelo, Braga e Vila Real, correspondendo a 60% do total da área ardida.

“As regiões do país que consistentemente apresentam áreas ardidas mais elevadas são os distritos de Vila Real e Viseu. Estes distritos arderam muito em 2013, pelo que ainda não estão ‘disponíveis’ para arder”, aponta Paulo Fernandes. Vila Real e Viseu, afetados em 2013, “este ano arderam pouco”, aponta, com base nos dados do ICNF. “Pelo contrário, em Viana do Castelo havia mais para arder, uma vez que não registava manchas ardidas significativas desde 2010.”

Rui Duarte Silva

Afinal não

De todas as ocorrências desde até ao fim de agosto, bastaram 69 incêndios para queimar 34.102 hectares de espaços florestais, ou seja, cerca de 63% do total da área ardida. “Os 63% de 2015 confirmam que se trata de um ano moderado: não é tão baixa como nos anos mais favoráveis (2008 ou 2014), mas contrasta com os anos mais extremos de 2005 (85%) e 2003 (93%)”, afirma Paulo Fernandes.

No distrito da Guarda, cerca de 44% da área ardida corresponde apenas ao grande incêndio florestal de Sortelha. Naquele dia, quando José António Marques chegou aos seus terrenos, o fogo estava a um quilómetro. “O gado estava lá dentro. Ainda deitei um balde de água à porta, mas, quando me voltei, o fogo estava a uma distância de quase dez metros. Só tive tempo de fugir. Parecia uma onda de propagação depois de um bomba cair.”

José António estava a uns dez metros de um pequeno abrigo. “Percebo em que direção vem o fogo, escondo-me ali, ponho a camisa na cara e só vejo as chamas a passar por cima. Não fiquei lá porque tive sorte. Se eu estivesse dez metros abaixo do que estava, não tinha conseguido chegar a tempo de me abrigar.”

Pelo meio, as ovelhas tentaram fugir, mas quase todas morreram. E as que não morreram na altura ficaram de tal maneira queimadas que José António mandou abatê-las, acabando com o sofrimento a que ainda assistiu nas horas seguintes ao fogo. José António diz que achava que tinha visto tudo até então. “Afinal não.”

Rui Duarte Silva

Vejo tudo negro

E o que é que mudou nos últimos dez anos em Portugal, quanto à prevenção de incêndios? Paulo Fernandes diz que, por um lado, passou a haver uma maior dissuasão, “feita através do patrulhamento pelas brigadas da GNR”. Por outro, quando à gestão do combustível florestal, “não se avançou, ou até se retrocedeu, no que respeita a ações de educação e sensibilização, notando-se a ausência de programas continuados e com impacto.”

Tem também havido intervenção no espaço florestal, através do desenho de redes de defesa da floresta, baseadas em “faixas de compartimentação”, ou seja, faixas de gestão de combustível que constituem a chamada rede primária. “Esse trabalho de planeamento tem lentamente vindo a ser concretizado no terreno e começa a dar alguns frutos: por exemplo, no incêndio de Gouveia deste ano limitou a área ardida potencial.”

Porém, sublinha que estas infraestruturas “destinam-se a facilitar o combate, mas frequentemente os meios de combate não tiram partido da sua existência”, sendo “extremamente importante” garantir uma integração da prevenção e do combate.

José António Marques e Fernando Jesus foram apenas duas das pessoas afetadas pelo incêndio em Sortelha. Os dois contam que nos dias seguintes ao incêndio – que ainda hoje está muito presente – as pessoas falaram sobre o que viram, o que sentiram, aquilo que perderam e o que sabem que podiam ter perdido. O desespero, a sensação de impotência e as imagens daquele fogo tão rápido ainda não se apagaram.

“Aqui onde estou, quando olho para os lados, vejo tudo negro. Não temos nada verde”, descreve Fernando, que viu arder alguns terrenos e as árvores, salvando-se a casa e os animais. Nem ele nem José António receberam apoio, mas ambos dizem que agora há que olhar para a frente. “Uma pessoa não pode estar agarrada ao que perdeu. Há pessoas que conseguem lidar com isto melhor que outras, mas não podemos estar sempre a pensar nisso. Senão não se avança.”

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