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Os indies dos jogos que colocam Portugal no mapa

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Cosmonaut, jogo português em realidade virtual que chamou a atenção

DR

Game Dev Camp juntou 484 participantes em Lisboa para mostrar o que de melhor se faz na indústria dos videojogos no nosso país. Com muita inovação

O entusiasmo nas caras de Tiago Franco e Filipe Caseirito não enganava. Amigos do secundário, apaixonados por jogos, fundadores e únicos membros do estúdio Fun Punch, estavam a apresentar o Striker’s Edge, um jogo multiplayer que rapidamente se revelou um dos mais concorridos no maior evento em Portugal para a criação de videojogos. E os indies portugueses não deixaram nada a desejar.

O Game Dev Camp realizou-se na sede da Microsoft, em Lisboa, e reuniu 484 participantes no sábado para revelar os seus produtos mais recentes, além de 36 oradores portugueses e estrangeiros. Foi um dia longo, mas útil, para os 75 estúdios presentes, que não se coibiram de cimentar sinergias e aprender aspetos valiosos.

“Há muita entreajuda entre todos, é bom. Há sempre uma opinião a dar”, revela Mariana Damasceno. Formada em design, abandonou o trabalho como animadora de séries de animação – entre as quais se contava a Nutriventures, por exemplo – para se juntar a um pequeno estúdio, a Raindance LX. “Todos abandonamos o que fazíamos para entrar neste mundo”, conta. “Um desvio surpresa” que até agora tem sido positivo para a designer. O Between me and the Night, descrito como um um jogo de plataformas surrealista, foi o resultado desta dedicação e recebeu inclusivamente a atenção de Mathew Buxton, um dos nomes que mais expectativa gerava no evento. “Tem uma grande jogabilidade, é do melhor que vi”, afiançou.

“Evolução é ridícula”

Um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento de jogos na King - a empresa que criou um dos maiores sucessos mundiais na indústria, o jogo móvel Candy Crush Saga -, Mathew Buxton conhece bem Portugal e o nosso mercado, pois trabalhou durante cerca de um ano na sede portuguesa da Miniclip. Há cada vez mais estúdios independentes com jogos “inovadores” e de “grande qualidade.” A evolução é “notória”, garante: “Acho que Lisboa pode ser um dos principais centros de videojogos a nível europeu, tem todas as características. Há bons estúdios independentes, pessoas com muito talento e potencial para atrair as grandes empresas”.

Pensa-se que, no total, a nossa indústria valha mais de sete dígitos, mas ainda é uma migalha irrelevante quando comparada com o ‘bolo gigante’ que é um dos mercados que mais dinheiro representa a nível global. De acordo com a Newzoo, o sector movimenta atualmente 91,5 mil milhões de dólares (80,9 mil milhões de euros), que se estima que cheguem a 107 mil milhões de dólares (95 mil milhões de euros) em 2017. Valores que colocam os videojogos acima da indústria do cinema, por exemplo. Sem esquecer os títulos para plataformas móveis, uma parte cada vez mais importante deste crescimento.

Miguel Rafael também não tem dúvidas que Portugal pode ser uma componente forte deste mercado. É um dos fundadores da Tio Atum, empresa que já lançou seis jogos mobile, com mais de um milhão de downloads. O objetivo que levou à criação do nome foi “chegar ao topo da pesquisa no Google” e, para o licenciado em pintura, os resultados estão a ser bons. Por enquanto, a indústria em Portugal ainda está a “anos luz do que acontece no estrangeiro”, pelo que “só dá para sobreviver, não para ser milionário”. Agora, o crescimento dos últimos anos deixa esperanças para chegar a outro nível: “A evolução é ridícula”.

Realidade virtual: o próximo passo

Uma opinião partilhada por Frederico Sousa, que utiliza como exemplo o número muito maior de pessoas que comparece a este Dev Camp. É “um sinal” de realce para uma comunidade constantemente mais diversa. O jogo que apresentava no certame, o Nanny Sleeptime, é disso um bom exemplo. Descrita como “politicamente incorreta”, a jogabilidade centra-se numa ama que tem que enfrentar crianças descontroladas e foi resultado de uma sessão de brainstorming às “cinco da manhã de uma sexta-feira por skype.” Em três dias tinham o conceito trabalhado para experimentar. Agora, os membros do estúdio Space Pajamas trabalham para lançar uma versão definitiva. Uma forma de trabalhar que “estimula a criatividade e mostra o que se pode fazer”.

“Há muita coisa boa a acontecer” na opinião de Mark Alexander, da empresa escocesa Yoyo Games. Acredita que estão a acabar “certos estereótipos ligados aos jogos” e que há “maior liberdade de criação além das grandes empresas.” O futuro é “entusiasmante” e a realidade virtual pode ser o próximo grande passo, embora ainda “não tenha a certeza como tal vai acontecer”. Já Mathew Buxton não tem dúvidas que “esse é o caminho”.

É o que tenta fazer Rui Guedes e a sua equipa a partir do Ground Control Studios. São dos únicos em Portugal a desenvolver jogos para Oculus Rift, o equipamento comercial mais avançado de realidade virtual. “É bom demais para ficar de fora”, atira. Um dos títulos em que trabalham é o Cosmonaut, que permite ao jogador entrar (quase literalmente) numa estação espacial. É um novo mundo, que “vai ter o seu boom em 2016”, ano em que esperam lançar comercialmente este videojogo.

O caminho ainda é longo, mas as novidades dos indies portugueses já chamam a atenção.