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Giraldinha, a gatuna mais famosa do século XIX

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Maria Rosa, mais conhecida por Giraldinha, a gatuna mais famosa do século XIX

João Roberto

Qual não foi o seu espanto ao ouvir a futura vítima chamar à gata “Giraldinha” e explicar que a batizara com o nome de uma ladra muito perigosa - Giraldinha era a mais célebre gatuna do século XIX e passou parte da vida na cadeia. Este é o quarto caso da série “Crime à Segunda”, que o Expresso está a publicar sobre criminosas portuguesas

Anabela Natário

Anabela Natário

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Jornalista

João Roberto

João Roberto

Grafismo

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Tinha um ar tão de menina que, quando foi apanhada pela segunda vez, o chefe da polícia decidiu reenviá-la à família ao invés de a pôr atrás das grades. Mas mãe e pai não quiseram saber dela. Maria Rosa ficou em Lisboa e a sua morada mais certa passou a ser a cadeia do Aljube. Da vigarice e furto comuns aos golpes originais, a Giraldinha ganhará fama de Portugal ao Brasil.

"Adeus gentes. Até muito breve. Cá virei matar saudades", dizia nas saídas do Aljube. De uma boca que falava habitualmente mentira, nada saía mais verdadeiro. Entre 1885 e 1895, Maria Rosa, a Giraldinha, foi sujeita a 21 detenções e cumpriu 2552 dias de prisão, isto é, quase sete anos de clausura, uma contabilidade conhecida graças ao jornalista José Maria dos Santos Júnior e à sua “Galeria dos Criminosos Célebres”.

Tanto tempo passou atrás das grades, mesmo depois de 1895, que casou no presídio. E até do outro lado do Atlântico se deu a notícia. "Amor de condenados”, titulava o "Jornal do Recife” a 12 de fevereiro de 1899. O texto versava assim: “Ultimamente realizou-se em Lisboa um casamento interessante. Foi na cadeia do Limoeiro. A noiva era uma conhecida gatuna, chamada Giraldinha; o noivo o Bailhão, havia chegado em pouco tempo da África, onde cumprira pena. Casados, a noiva recolheu-se à cadeia do Aljube onde está acabando de cumprir dois anos de prisão. Findo eles é que irão gozar a lua-de-mel. E como saberá bem esta”.

Um breve olhar sobre alguns dos passos de Giraldinha na cidade de Lisboa

Um breve olhar sobre alguns dos passos de Giraldinha na cidade de Lisboa

A primeira vez que foi presa estava-se no verão de 1885, era dia 4 de agosto, dizem os livros oficiais. Maria Rosa, de 17 anos, ainda sem a alcunha, "andava na vadiagem" segundo a polícia. Valeu-lhe oito dias de cadeia. Viera da Guarda, dois anos antes, servir em casa de lisboetas, uma "importação" da província habitual à época e que se estenderá pela primeira metade do século XX. Ao que parece, um roubo mal esclarecido deixara-a sem teto… Mas isso é o que se conta, não o que disse a própria.

“Não, senhor; fugi para a companhia de um rapaz de quem gostava e por causa de quem meu pai me dava maus-tratos. Quando cheguei, prenderam-me e estive no Aljube oito dias, ao fim dos quais me mandaram embora”, respondeu ao jornal “A Tarde” numa entrevista publicada a 1 de maio de 1890, data em que se comemorou, pela primeira vez em Lisboa, o dia do trabalhador, com manifestações do operariado a favor de um horário de trabalho de oito horas.

Aos 23 anos, no auge da sua fama, até o nome nega ser seu, muito embora seja o que consta dos registos policiais; a mesma atitude tem-na em relação aos pais e ao local de nascimento. “Então não se chama Maria Rosa? perguntámos. Não é filha de José Teles Vicente Novelas e de Maria dos Ramos, não é natural de Faia, concelho da Guarda?” — questionou o jornalista, para levar por resposta: “Isso foi o que eu declarei à polícia, mas não digo a verdade a ninguém”.

“E só agora é que mudou o nome?” — insistiu Santos Júnior. “Mudei-o quando vim da minha terra, há aproximadamente três anos”, afirmou quem continuaremos a chamar de Maria Rosa, a Giraldinha, “mulher alta, bem talhada, rosto moreno e oval, olhos negros e rasgados, cabelos escuros”, como escreveu anos depois o mesmo jornalista que, na entrevista, registara: “É de estatura mediana, tez um pouco afogueada, olhos e cabelos castanho-escuros. A sua fisionomia não é antipática; há mesmo no seu olhar uma certa vivacidade que denota um espírito vulgar”.

É difícil confiar nesta gatuna encartada que deve ter sido a única a encher totalmente a primeira página de um jornal oitocentista. Por outro lado, é conhecido o pouco rigor dos relatos jornalísticos da época, muitas vezes por impossibilidade de confirmação, outras porque jornalistas e jornais serviam de fontes uns aos outros, logo, mesmo em caso de erro, a história repetia-se. Não é uma regra geral, é quase como acontece agora, quando se multiplicam na internet inverdades que passam por factos que não o são.

Mas há um nome que ela aceita sem rebuço, o de Giraldinha. Assim o disse a Santos Júnior, o qual nessa altura era jornalista de “A Tarde” e conseguiu autorização do diretor das cadeias civis de Lisboa para entrar no Aljube. A “última palavra da velhacaria”, como classifica Maria Rosa, explicou a razão da alcunha - é que sempre que lhe perguntavam de onde vinha, ela “invariavelmente” respondia “da Giraldinha”. E Giraldinha ficou.

A primeira página do jornal afeto ao partido do governo regenerador, "A Tarde", de 1 de maio de 1890, já no reinado de dom Carlos, totalmente ocupada pela entrevista concedida por Giraldinha na cadeia do Aljube

A primeira página do jornal afeto ao partido do governo regenerador, "A Tarde", de 1 de maio de 1890, já no reinado de dom Carlos, totalmente ocupada pela entrevista concedida por Giraldinha na cadeia do Aljube

Cópia do microfilme guardado na Biblioteca Nacional

Nesse ano de 1890, a sua fama parece consolidada. Já praticara uma das suas façanhas mais famosas, a que envolveu um assassino fugitivo, o Pardal, e a sua bem-sucedida fuga à polícia. Aplicou aqui um dos seus melhores esquemas, o trampolim para ser transformada em quadro de teatro de revista e logo em “Tim Tim por Tim”, uma peça de António de Sousa Bastos que será um êxito até no Brasil — um dos trunfos era o facto de o texto ir sendo modificado, adaptado à atualidade, e nesse âmbito entrou o episódio da Giraldinha a ludibriar a polícia dizendo-se íntima do homem mais procurado do momento.

O Pardal matara à traição o barqueiro Custódio, na travessa dos Remolares (prolongamento da rua das Flores até ao cais, hoje a avenida 24 de julho), e nos oito dias seguintes ainda não tinha sido preso, mas a Giraldinha foi-o, por vadiagem, uma vez mais. Sem dinheiro para o chamado "termo de abonação", aguardava na esquadra que lhe ditassem o destino. O alvoroço era grande, as preocupações estavam viradas para o fugitivo. Os polícias trocavam ideias, faziam descrições, tratavam de pormenores ligados ao caso. Cada vez que entrava um elemento da corporação na esquadra, os colegas punham-no ao corrente da perseguição. Quieta num canto, Giraldinha ia ouvindo, preparando a sua entrada em cena para mais uma vez evitar ser encarcerada no Aljube. E de repente fez-se luz.

“Eu sei onde está o Pardal, disse ela simplesmente, com um sorriso angélico, levantando para o polícia os seus olhares de veludo”, conta Santos Júnior, meia dúzia de anos mais tarde, na “Galeria”. É fácil imaginar o silêncio repentino, os olhos a voltarem-se para a detida. No tom sincero que lhe era peculiar, Giraldinha afirmou não só conhecer o Pardal, mas com ele manter relações íntimas desde antes do assassínio.

Maria Rosa apressou-se então a dizer que se encontrava com o homem todos os dias numa horta, onde ele por hábito se escondia. E conseguiu, sobretudo, captar a atenção de um polícia que viu ali a glória, o polícia Feijão. Giraldinha deu pormenores sobre o perseguido, papagueou tudo o mais que ouvira do seu canto, mas manifestou renitência em auxiliar a autoridade visto terem-na tratado de uma “maneira desamorável”.

Pouco depois, estava a negociar a liberdade em troca do esconderijo do Pardal, oferecendo os seus préstimos para engaiolar o assassino, cuja fuga levou a uma inovação em Portugal, muito usada nos Estados Unidos: a oferta de uma recompensa pela captura de um criminoso. O valor foi estabelecido em 50 mil réis, quantia igual à da despesa prevista no orçamento de uma esquadra de polícia para 1891, em Lisboa. A descrição física e o traje do assassino foram alvo de uma circular “enviada para 20 mil autoridades de todo o país”.

ESPERE AÍ QUE EU JÁ VENHO, E O POLÍCIA VIROU CARTEIRO

O Pardal há de ser encontrado graças à atraente oferta em réis. Porém, Giraldinha foi mais rápida a “capturar” o polícia Feijão. Este pagou-lhe a fiança e seguiu com ela, num trem a suas expensas, para o Arco do Cego, bairro onde se encontraria o Pardal. Ali chegados, a rapariga explicou-lhe o plano: ele ficava escondido, à espera, enquanto ela iria ao encontro do homem. E para que o Pardal não desconfiasse dela, Feijão esperaria que eles entrassem numa casa ali da rua para irem jantar como estava combinado e flagrava-os.

O polícia Feijão esperou um quarto de hora, meia hora, uma hora, hora e meia… “Neste ponto começou a inquietar-se!” — conta Santos Júnior. “Duas horas, duas horas e meia…” e começou a suspeitar, até que se decidiu ir em busca da vadia sabida. A quinta tinha uma entrada pela estrada de Circunvalação e uma saída para o largo do Leão. “Conheceu então, com grande assombro seu, que se deixara cair no logro com uma candura de vestal.”

O polícia Feijão passará a ser distribuidor de correio e Giraldinha só voltará a ser presa quando, precisando de dinheiro, motivo que a levava a roubar, se meteu com quem não devia. A partir do momento em que a polícia a filou, Maria Rosa nunca mais viveu muito tempo na mesma morada, muitas vezes até dormiria ao relento. De dia andava pela Mouraria, de preferência, mas a sua zona de atuação estendia-se a toda a Lisboa, até porque conforme ia ficando conhecida mais dificuldade tinha nos endrominanços. Além disso, ausentava-se da cidade quando realizava dinheiro com o ouro a prata ou as joias que “desviava” das casas de quem lhe abria a porta e acreditava nas suas patranhas.

As técnicas que utilizava para enganar as “lesmas”, que é como quem diz as vítimas, eram diversas, mas tinha as suas preferências. Uma delas era entrar num prédio com alugueres à vista e bater à porta de um dos andares. Quando a moradora aparecia, Giraldinha dizia que procurava casa, mostrava-se ofegante por ter subido as escadas e pedia um copo de água, saindo com algo valioso debaixo do xaile, talvez até debaixo do lenço garrido que sempre usava a condizer com o vestido de chita.

Recorte da primeira página do "Jornal de Recife", de 12 de fevereiro de 1899, em que foi publicada a notícia do casamento de Giraldinha com outro preso da cadeia do Limoeiro

Recorte da primeira página do "Jornal de Recife", de 12 de fevereiro de 1899, em que foi publicada a notícia do casamento de Giraldinha com outro preso da cadeia do Limoeiro

Hemeroteca Digital Brasileira

“Larga a presa, Giraldinha!”

Numa das vezes em que usou outra artimanha partindo da mesma ideia fez uma descoberta surpreendente. Fazia-se passar por rapariga da província à procura de casa, com facilidade dada a sua pronúncia nortenha, quando a inquilina do segundo andar desatou aos gritos de “larga a presa, Giraldinha!”, ao mesmo tempo que tentava apanhar a gata que acabara de roubar uma pata de galinha destinada à janta.

“Chama-se Giraldinha a sua gata? que graça!” — terá dito Maria Rosa e obtido a explicação: “Chamo-lhe Giraldinha por ser tão ladra como a senhora está vendo”. A Giraldinha é “uma célebre ladra” de Lisboa, que tem artes de roubar Nosso Senhor Jesus Cristo”, acrescentará ainda a inquilina do segundo para ouvir da jovem provinciana “ora o demónio da mulher… Maldita!”.

Maria Rosa aceitará o convite para pernoitar na casa da gata sua homónima, já que, apesar de se ser ter ausentado duas horas para ir tratar do aluguer do terceiro andar, só podia ocupá-lo no dia seguinte, o que a deixava “embaraçada”, pois não conhecia mais ninguém na cidade. Dormiram tranquilas; de manhã, levantaram-se, a inquilina foi às compras e Giraldinha saiu pouco depois com o que pôde para trocar por moedas numa das muitas lojas de penhores da capital.

Por uns tempos, safava-se bem. Quando a polícia a detinha, sabendo de antemão que determinado roubo apresentava o seu carimbo, ela negava, aguentava, até ser confrontada com as vítimas, mulheres, o seu alvo preferencial para evitar confrontos físicos. Nessa altura, dizia: “Não me importava de confessar se essa lesma não tivesse tido a deslealdade de se queixar à polícia, em vez de me procurar”.

A Giraldinha era uma mulher com alguns encantos, especialmente na lábia. Os polícias, com alguma ingenuidade, acabavam por lhe achar graça, daí que as suas histórias saltassem para os jornais com detalhe. Era uma “estrela” e tinha-se em boa conta. “Eu é que não estou para fazer mais partidas, porque se estivesse não me apanhavam cá!” — foi a primeira coisa que disse a Santos Júnior quando este foi ao Aljube entrevistá-la, isto depois de lhe ter mandado dizer que estava a perder o seu tempo caso pensasse que ela iria falar-lhe.

Nesse ano de 1890, marcado pelo ultimato feito a Portugal por Inglaterra, Giraldinha, longe do problema do tráfico de escravos, cumpria pena por ter roubado a bruxa da rua da Paz à Ajuda. Parece que Francisca da Conceição Ferreira, conhecida por Chica-russa por ser ruiva, servia larga clientela de ambos os sexos e muito crente “nas suas mixórdias e rezas”, atividade que lhe proporcionava boas maquias e que atraiu a Giraldinha.

Acabada de sair do Aljube, convinha a Maria da Rosa afastar-se do centro da cidade para trabalhar mais livremente. Fez-se de cliente, de mulher perturbada por uma história de amor, e explicou que para pagar o que Francisca lhe pedia tinha de ir buscar dinheiro. Não terá tido então oportunidade para o roubo, mas mudará a agulha da estratégia quando Francisca lhe disse que ia com ela e aproveitava para pôr a pulseira de ouro a arranjar.

Foram da Ajuda para Alcântara, onde a Chica-russa, cujos palpites eram gabados, deixou a pulseira num ourives. Mal pôde, a Giraldinha desenvencilhou-se da bruxa, voltou à loja e convenceu o homem do ouro e da prata a dar-lhe a pulseira com o argumento de que a sua “mana queria consultar o marido antes do conserto”. Quando foi apanhada, por queixa da vítima, disse que vendera a joia por seis mil réis a uma desconhecida que estava na estação de comboios.

Na entrevista ao jornal “A Tarde”, Giraldinha apresentara uma versão diferente, a qual, apesar de tudo, é plausível, pelo menos em parte. Primeiro, há que lembrar que estava furiosa com a “velhaca” da Francisca, prometendo que a levaria a sentar-se também no “banquinho dos réus”; depois que, sendo quem era, diria o que lhe passasse pela cabeça para se livrar da acusação.

Maria da Rosa contou que, em 1886, quando o homem com quem vivia quis casar com outra e se separaram, recorreu à Chica-russa para inverter a situação e esta “lhe apanhara muito dinheiro por várias vezes” e que o golpe da pulseira fora coisa combinada entre ambas, mas sem explicar como. Pode ser que tenha conhecido assim a dita bruxa, já que se situava em Algés, uma das casas onde morou com o enigmático padeiro de quem dizia apenas ter um nome começado por D.

"Irra! é muito homem para uma mulher só!"

O seu lema era "morrer com honra”, dizia. De uma outra vez, de novo na esquadra, com os polícias a apertarem consigo, sem nada conseguirem, ela já a ver a vida a andar para trás, Maria Rosa deu um murro na secretária e bramou "irra! é muito homem para uma mulher só!" e conseguiu um momento de descontração para ganhar forças.

Maria Rosa gostava de se meter com a polícia. Talvez até encarasse mesmo essa relação como a do gato e do rato. Logo ao princípio da carreira, a sua tática foi a de se fazer passar por parente muito próxima de um alto cargo da corporação policial. Sabia tudo sobre a família, sua vizinha na rua das Portas de Santo Antão. Quem a deteve por essa época, acreditava nela, agindo com benevolência. No dia em que a esperteza foi descoberta, ela riu-se e reconheceu não ser familiar, sim conterrânea…

O chefe da polícia fartou-se das queixas contra a Giraldinha e mandou um alerta a todos os subordinados: mal a avistassem deviam prendê-la, nada de fechar os olhos como acontecia por vezes. A rapariga soube das ordens e, quando viu um polícia na calçada do Marquês de Abrantes, avançou ela em sua direção atirando-lhe "ora ainda bem que o encontro".

De imediato, inventou uma história de que estavam ali na calçada os homens da moeda falsa, que ele, polícia, se despachasse que os falsificadores ainda se safavam. Que falasse com o cabo Jacob, que ele sabia bem do que se tratava. Ela não arredaria pé na vigia do prédio. O polícia deitou a correr "a marche marche" para a esquadra da rua dos Lagares, na Graça, uma caminhada das boas. Claro que quando lá chegou, o chefe Jacob Ferreira disse-lhe das boas mal o ouviu pronunciar o nome da informadora.

“A sensibilidade feminina é isto; ninguém sabe amar como uma mulher; ninguém como ela sabe odiar”, analisa Santos Júnior, à luz do pensamento da época, para quem a Giraldinha não aproveitou “senão muito bem as vantagens físicas de que dispunha, logo que percebeu que essas vantagens podiam ter, para os seus fins, alguma utilidade prática”.

Como acontece às celebridades, “esta criatura predestinada para a carreira do crime” teve direito a uma falsa partida deste mundo, noticiada em vários jornais do reino de dom Carlos e, claro, no Brasil. “Faleceu anteontem, no hospital do Desterro, depois de ter sofrido horrores, vitimada por uma terrível doença contagiosa, a conhecida e afamada gatuna Maria Rosa, a Giraldinha”, começava por dizer o “Século” de 1 de dezembro de 1902 e o jornal brasileiro “Fluminense” de 21 de fevereiro do ano seguinte.

A crónica de João Câmara na "Gazeta de Notícias", em março de 1902, intitula-se "O Bicho", alcunha de um popular gatuno que ganhou a simpatia popular dada a estratégia engendrada para fugir da prisão. A primeira parte, no entanto, é dedicada à Giraldinha

A crónica de João Câmara na "Gazeta de Notícias", em março de 1902, intitula-se "O Bicho", alcunha de um popular gatuno que ganhou a simpatia popular dada a estratégia engendrada para fugir da prisão. A primeira parte, no entanto, é dedicada à Giraldinha

Hemeroteca Digital Brasileira

“Há tempos supôs-se que tinha morrido a Giraldinha. A S. Ex. como a quem era, fizeram-se logo necrológicos de coluna e meia, com prólogo, narração, comentários e peroração, com todos os tropos e figuras de estilo. Rainha das gatunas não merece menos”, escreveu o dramaturgo português João Câmara na crónica que publicava no jornal brasileiro “Gazeta de Notícia”, desde o sucesso da sua peça “Os Velhos” no Rio de Janeiro.

“Os casos mais notáveis de sua vida aventurosa foram todos esmiuçados e no fim, como aos mortos ilustres se põe o estendal das condecorações, lá vinham todas as condenações que tivera. Inteligência não lhe faltava. Que belo tipo para episódios alegres num drama soturno do [teatro] ‘Príncipe Real’. Resultado final: uma simpatia grande pela Giraldinha, uma alegria quando foi sabido o engano e que ela vive, senhora séria e casada, degradada na Costa de África”, acrescentava nesse texto de 31 de março de 1902.

É verdade que a tuberculose a atacou durante anos, que da primeira vez que foi condenada ao degredo em África não chegou a sair de Lisboa devido ao seu estado de saúde. Todavia, a doença “só” a matará aos 40 anos de idade, pouco tempo depois de ter apanhado, na certa, o grande susto da sua vida.
No primeiro dia de agosto de 1908, uma varina de apenas 12 anos de idade aparece assassinada em Lisboa. No local, a polícia encontrou um lenço de seda e prendeu a Giraldinha e uma outra sua parceira do Aljube, a Josefa Colares. Numa ocasião ou noutra, pode ter dado um golpe menos pacífico, mas nunca praticara um homicídio.

As suas colegas do Aljube disseram à polícia que ela usava aquele lenço, emprestado pela Josefa. Esta, porém, negava que o lenço fosse seu… Acabaria por se provar que a Maria Rosa apenas se servira do lenço na cadeia para atar a cabeça, nas alturas em que lhe doeram os dentes. E a Giraldinha saiu em liberdade, uma vez mais por pouco tempo - desta feita, a tísica antecipou-se à autoridade terrena.

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