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“Estou aqui com uma ideia: devíamos fazer uma academia para ensinar desempregados a programar”

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O primeiro curso de código para jovens licenciados que estão no desemprego já começou, com 15 inscritos, selecionados entre mais de 600 candidaturas

Academia de Código

Por um lado há vagas para programadores que ficam por preencher, por outro há jovens qualificados sem emprego. A Academia de Código é uma empresa criada em 2013 para juntar as duas coisas e já estendeu as aulas de código às escolas primárias. Desde o início deste ano, a criação de empresas já está 8,4% acima de 2014. Este é o 11º artigo da série “30 Retratos” que o Expresso está a publicar diariamente. São 30 temas, 30 números e 30 histórias que ilustram o que Portugal é hoje em vésperas de eleições

Tudo começou numa conversa num café entre João e Domingos. “Estou aqui com uma ideia: acho que devíamos fazer uma academia para ensinar desempregados a programar.” Foi isso que Domingos lhe disse e dali partiu o resto. Desde aquele dia até hoje passaram-se dois anos – tempo suficiente para estudarem o mercado, estruturarem a ideia, criarem uma empresa, começarem o primeiro curso de programação para jovens adultos desempregados e alargarem a ideia às escolas primárias.

“Percebemos que a programação é uma área com uma falta enorme de pessoas. No ano passado havia 10 mil postos de trabalho para programadores sem ninguém para os ocupar e havia 120 mil jovens licenciados e qualificados no desemprego, porque na sua área de formação não há emprego”, explica João Magalhães, 35 anos, um dos dois cofundadores da Academia de Código. Antes daquela conversa no café, João tinha trabalhado em consultoras, num ambiente muito diferente daquele que viria a ter. Domingos já tinha sido fundador de outras start up e quando os dois se juntaram com a ideia perceberam que se completavam – um é visionário, o outro agarra na ideia para perceber como a implementar.

É assim que em 2013 é criada a Academia de Código, uma start-up com o objetivo inicial de dar formação a jovens desempregados na área da programação, ensinando-lhes código. Só que à medida que começaram a pesquisar sobre o assunto, perceberam que o problema não é só de hoje.

“É um problema de amanhã. Prevê-se que em 2020 haja 900 mil vagas na tecnologia a nível europeu, 4 milhões a nível mundial. Então percebemos que era preciso começar a aprender mais cedo, com os mais jovens.” É assim que a empresa cria a sua versão de Academia Júnior, virada para crianças a partir dos seis anos. E como se ensina código a crianças? Dando a conhecer raciocínios diferentes, explicando o que é a programação, utilizando os jogos.

Ainda que a ideia inicial da empresa tivesse sido os cursos para adultos, foi pelas crianças que tudo começou. Em janeiro deste ano avançaram com um projeto-piloto com três turmas da primária em escolas de Lisboa, num protocolo com a Fundação Calouste Gulbenkian, a Câmara de Lisboa e a Universidade de Aveiro.

“Acreditamos que isto tem um impacto positivo nos alunos, mas estamos a analisar esse impacto”, explica João. “Começámos também a ser contactados pelos colégios privados, que procuram o curso para pôr nos currículos dos diferentes anos ou como atividade extra curricular.”

Mais empresas novas, menos encerramentos e insolvências

A Academia de Código é uma das 35.647 empresas criadas em 2013, segundo os dados do barómetro Informa D&B. Olhando para o começo deste ano, entre janeiro e julho nasceram 24.064 empresas e fecharam 7893. Se compararmos com o mesmo período do ano passado, regista-se um aumento de 8,4% nos nascimentos e de 3% nos encerramentos.

Quanto aos encerramentos, o economista Daniel Bessa diz dar "muito pouca importância" a esses números. "O que é relevante, nas crises económicas, é o encerramento de empresas de maior dimensão, e o desemprego criado por estes encerramentos, mas o seu número continua a ser muito reduzido quando comparado com o das microempresas que encerram todos os dias. Em Portugal, de acordo com a informação mais recente, no último ano, em média, terão encerrado cerca de 60 empresas por dia útil e aberto cerca de 150 empresas, também por dia útil."

Outros dados do barómetro permitem concluir que nestes primeiros sete meses, houve 2737 insolvências, ou seja, menos 6,7% do que no mesmo período do ano passado. Houve também menos 11,6% de ações judiciais – ainda que se tenham registado 26.315 ações judiciais.

O economista considera o número de insolvências "normal", mas considera que o total de ações judiciais ainda é "manifestamente excessivo". "Não por causa de qualquer crise económica que estejamos a atravessar, de forma particularmente aguda, mas por causa de uma característica estrutural da economia portuguesa, que nos leva a tentar dirimir logo em tribunal, por via judicial, diferendos que, em outros países, se tenta resolver de outro modo, como seja o dos processos arbitrais, extra-judiciais".

Foi nos serviços e no retalho, seguidos pelo alojamento e restauração, que foram criadas mais empresas. Mas se olharmos para as maiores variações entre os primeiros sete meses deste ano e do ano passado, então conclui-se que houve um aumento no sector das indústrias extrativas – ainda que seja em pequena quantidade –, assim como no sector das atividades imobiliárias e das telecomunicações.

Daniel Bessa lembra que a atividade económica em Portugal se concentra na área dos serviços. "Parece-me normal, portanto, que sectores como o do retalho (pequenas lojas, de tudo e mais alguma coisa) ou os da restauração e hotelaria (quase sempre, estabelecimentos pequeníssimos, que só com muito boa vontade poderemos qualificar como restaurantes ou como hoteis) sejam aqueles em que abrem mais empresas – resultado, quase sempre, de um empreendedorismo muito pouco qualificado e muito pouco exigente em meios, sejam eles financeiros ou tecnológicos."

Já este ano, a revista "Forbes" destacou por duas vezes o empreendedorismo em Portugal, focando Lisboa. Num primeiro artigo, apontou a capital como um dos cinco melhores pontos de inovação na Europa. Eindhoven na Holanda, Budapeste na Hungria, Talinn na Estónia e ainda a Lituânia são os outros quatro. Destacando alguns números quanto ao aumento de novas empresas em Lisboa, a revista fala da crise económica e defende que "muitos ficam surpreendidos" em saber que o empreendedorismo está a crescer.

A mentalidade mudou

João vai acompanhando as outras start up que têm surgido nos últimos anos. A sensação que tem é que houve mais gente a ter de dar a volta e a afastar-se da ideia de encontrar um "trabalho para a vida". No seu caso, foi diferente: começou por trabalhar em consultoras, depois lançou-se no desenvolvimento da ideia da Academia e quando percebeu que havia oportunidade de a empresa se desenvolver, largou o trabalho que tinha. Mas João diz que se por um lado a crise e falta de emprego obrigou a que muitos jovens tivessem de procurar alternativas à saída da faculdade, por outro também mudou a mentalidade, tornando mais simples a ideia de criar um negócio próprio.

Também Daniel Bessa aponta nesse sentido. "Em condições normais, numa economia, grande ou pequena, nascem e morrem muitas empresas. Com raríssimas excepções, as empresas nascem muito pequenas (com uma, duas pessoas) e a maior parte dessas empresas morrem pouco depois de terem nascido", afirma. "Estamos, portanto, a falar de um domínio muito pouco afetado pela chamada crise económica, sendo até de admitir que, em condições de crise, na falta de emprego mais convencional, haja um maior número de pessoas que tenta sobreviver, criando uma empresa."

E se a empresa começou com Domingos e João, hoje são 11 pessoas a trabalhar na empresa – sobretudo formadores. A ideia inicial – ensinar código a jovens desempregados – materializou-se há uma semana, quando começaram as aulas. São 15 alunos, com idades até aos 30 anos, desempregados, licenciados e a viver em Lisboa - eram esses os requisitos para a candidatura. São de áreas tão diferentes quanto a música, arquitetura, veterinária, engenharia florestal, design, matemática e gestão.

Durante as próximas 14 semanas, todos os dias e a tempo inteiro, vão ter aulas para virem a ser programadores juniores. E sem custos porque o curso é gratuito – financiado com o dinheiro que a Academia de Código recebeu do orçamento participativo da CML.

Academia de Código

“Recebemos mais de 600 candidaturas e tivemos de selecionar 15. Foi duro fazer essa seleção.” João lembra que há uma componente social na empresa: foi, aliás, quando o desemprego começou a aumentar que a ideia surgiu. “Estarmos numa época difícil só deu mais força, foi um dos grandes motores. Uma das nossas grandes motivações era ajudar a resolver este problema.”

Hoje são apenas 15 alunos a terem formação todos os dias nas instalações da empresa, na rua da Prata, em Lisboa. Mas o objetivo é alargar a todo o país. João diz que é “gratificante” olhar para o que aconteceu desde o dia em que falaram no café até ao primeiro dia de aulas. “É motivante ver isto, tem sido fantástico.”

Tanto este curso de adultos como o próximo – cujas candidaturas abrem a 19 de outubro – são financiados pelo orçamento participativo. “Para a frente é um desafio”, diz João, acrescentando que a ideia é que as próprias empresas que procuram programadores venham a pagar para os formar e que venham também a abrir cursos pagos para outras pessoas que não estejam desempregadas.

“Se olharmos para todas as áreas profissionais, hoje tudo depende da tecnologia. E não é só a falta sentida hoje, é o que ainda vem pela frente. É uma competência que vai ser transversal: a programação vai ser necessária e pode ser uma mais-valia para quem esteja desempregado.”

[Artigo atualizado às 11h19]

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