Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Cada vez mais gente lê e escreve ao volante

  • 333

Cena da vida quotidiana no escritório ambulante

JOÃO CARLOS SANTOS

É uma das causas do aumento da sinistralidade, cujo travão tem longo caminho para fazer

As estatísticas são omissas em relação à nova realidade, mas os agentes do sector da segurança rodoviária apontam a leitura e o envio de mensagens (ou até pesquisas na net e partilhas nas redes sociais) por parte dos condutores como um dado emergente nos fatores da sinistralidade. E esta está a crescer em Portugal (dentro de uma tendência geral na Europa, aliás). Após o ano passado ter sido o melhor de sempre nas estradas nacionais, nos primeiros oito meses de 2015 houve mais 5,1% de acidentes, com um agravamento maior dos casos mortais (subida de 9,2%, passando de 293 vítimas para 320). Já nos feridos graves, o acréscimo é inferior (2,5%).

José Miguel Trigoso, presidente da Prevenção Rodoviária Portuguesa (PRP), embora ressalvando que faltam dados pormenorizados para perceber melhor a realidade atual, fala de uma “nova causa”, que não ocorre “só em Portugal”. O responsável da PRP deu já o alerta: “Há um uso generalizado, indiscriminado e muito frequente de meios de comunicação dentro do carro, que provocam uma desconcentração brutal dos condutores.”

O tempo em que o telemóvel só servia para falar já pertence ao passado. “Neste momento, é muito pior: é o problema das mensagens. O velho telemóvel está a ser substituído pelos smartphones. Entram pelo carro dentro as mensagens, os e-mails, o Facebook e as outras redes sociais. Entra tudo...”, disse Trigoso, em recente entrevista ao Expresso.

Ao encontro da leitura do presidente da PRP vem agora Pedro Miguel Silva, porta-voz da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR).“Um carro é hoje um centro de comunicação”, afirma. O chefe da divisão de Trânsito e Segurança Rodoviária da GNR, major Paulo Gomes, caminha no mesmo sentido: “Há telemóveis que são autênticos escritórios portáteis. E face à necessidade, cada vez maior, de as pessoas aproveitarem o seu tempo, usam os momentos ao volante para ver e-mails ou responder a mensagens.”

Um novo problema circula na estrada. “Está a provocar uma alteração significativa na tendência decrescente na sinistralidade rodoviária, no mundo ocidental”, sublinha o presidente da PRP. O ‘problema’ de que se fala é o texting, como é designado no jargão internacional.

A evidência desta nova realidade está, no entanto, muito longe de refletir-se nos números. Por um lado, há uma espécie de bug estatístico: as contraordenações aplicadas por causa do telemóvel apenas registam o “uso indevido” — assim é designada a infração no Código da Estrada. Fica por saber se é uma mera conversa telefónica (o mais frequente, apesar de tudo) ou uma comunicação escrita.

Por outro lado, nos casos de sinistros que chegam a tribunal, ainda é mais difícil encontrar a agulha no palheiro. “Em sede de averiguação dos acidentes, a experiência diz-nos que os condutores envolvidos, ainda que estivessem a utilizar o telemóvel, não o assumem nas declarações que prestam”, esclarece a PSP.

“Conheço relatos de desastres com vítimas mortais, causados por pessoas que iam ao telemóvel. Mas quem é que vai ao Ministério Público acusar-se?”, interroga-se Manuel João Ramos, presidente da Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados (ACA-M).

São casos de prova quase impossível de obter. “A menos que tenham sido vistas [a falar ou a ler/escrever], as pessoas não assumem”, afirma Nuno Salpico, presidente do Observatório de Segurança das Estradas e Cidades. “Sabemos empiricamente que os telemóveis estão na base de acidentes. Mas a determinação da causalidade é difícil de conseguir”, acrescenta. Juiz de profissão, as palavras de Nuno Salpico têm aqui peso redobrado.

O texting — uma “epidemia escondida”, como lhe chama Manuel João Ramos — é, assim, o novo perigo das estradas. Que todos nomeiam, mas ninguém consegue traçar com rigor a sua dimensão ou, muito menos, encontrar-lhe o antídoto.

Para já, só se avança o potencial da doença (ver números na coluna ao lado): o risco de acidente grave; o sequestro da atenção de quem está ao volante; os metros que podem ser percorridos pelo condutor em tal estado de alheamento, e que lhe podem ser fatais, para ele e terceiros.
Por enquanto, a terapêutica passa sobretudo pela prevenção. Foi o caso da Brisa, a principal concessionária das autoestradas, que neste verão deu o mote (sem no entanto discriminar a nova estirpe, o texting): “Não use o telemóvel enquanto conduz.”

Campanhas à parte, os dados mais recentes dão sinais diferentes. Se no raio de ação da PSP, as autuações por uso indevido do telemóvel estão em linha com o ano passado, já nas estradas patrulhadas pela GNR houve derrapagem. No primeiro semestre de 2015, 15.775 condutores foram apanhados, contra 9411 em período homólogo do ano passado (um aumento de 67,6%).

Entre outras causas prováveis da subida, o responsável da GNR admite uma razão: “O aumento de funcionalidades dos telemóveis e smartphones, o que faz com que se multipliquem as possibilidades de uso e, logo, a ocorrência de infrações.”
A ‘epidemia’ parece ter vindo para ficar.

NÚMEROS

23

Um condutor a olhar o ecrã do telemóvel corre 23 vezes mais riscos de acidente grave do que se estiver concentrado. É uma probabilidade superior ao nível médio de perigo de condução sob o efeito do álcool

5

é o tempo máximo, em segundos, de desvio consecutivo do olhar para ler e/ou enviar mensagens

125

são os metros que um automóvel percorre durante cinco segundos, a 90 kms/hora. Numa localidade (se for a 40 kms/hora), anda ‘apenas’ 55,5 metros

Texto publicado na edição do Expresso de 5 setembro 2015