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O problema mais sério ainda está para chegar

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Portugal é dos países da Europa com maior disparidade na distribuição de médicos entre zonas rurais e zonas urbanas

Tiago Miranda

O centro de saúde de Mogadouro já teve 18 mil utentes e 13 médicos, agora tem metade. A diretora do centro lembra que será um “problema grave” quando ali se reformarem os médicos mais velhos. Portugal tem uma das maiores disparidades da UE na distribuição de médicos no território: por 1000 habitantes, há 2,2 médicos em zonas rurais e 5,1 em zonas urbanas. Este é o oitavo artigo da série “30 Retratos” que o Expresso está publicar diariamente: são 30 temas, 30 números e 30 histórias que ilustram o que Portugal é hoje em vésperas de eleições

Foi há 33 anos que Maria da Luz Afonso começou a trabalhar no centro de saúde de Mogadouro, no distrito de Bragança. Ainda se lembra da inexperiência com que começou aos 30 anos, numa fase tão diferente da atual – havia mais população no concelho, mais utentes no centro de saúde, mais médicos, era mais difícil chegar às grandes cidades e havia menos informação sobre saúde.

“Formei-me na Faculdade de Medicina do Porto, em 1977. Esse foi o primeiro ano que fomos colocados por sorteio e eu fui para Barcelos. Mas para mim foi muito complicado estar longe e pensei que não ia andar a correr mundo.” Voltou a Mogadouro, concelho onde nasceu e onde viveu até aos 10 anos, quando partiu para Bragança para o 2.º ciclo.

Mas seria ali em Mogadouro que viria a passar toda a sua vida profissional até hoje, assumindo desde 2006 o cargo de diretora do centro de saúde. Antes de ali chegar, estagiou e esteve um ano no Serviço Médico à Periferia – um serviço que existiu entre 1975 e 1982, prestado por jovens médicos em áreas mais pobres e com falta de recursos médicos, como condição de início de carreira.

Desde o início da década de 1980, quando regressou ao concelho, Maria da Luz tem vindo a assistir às alterações: se então o centro de saúde tinha 18 mil utentes, agora tem 9 mil e um terço das pessoas tem mais de 65 anos.

“Quando comecei aqui no centro as pessoas não eram tão exigentes como são agora e também não tinham tanto conhecimento. Era mais fácil do que é hoje.” A médica lembra-se que nessa altura, os acessos para Mogadouro eram um obstáculo. “Era difícil que os utentes se conseguissem deslocar e nós tínhamos de os mandar de ambulância para fazerem exames médicos noutros locais. Havia dias em que as ambulâncias chegavam a sair uma dúzia de vezes.”

Quando Maria da Luz entrou ali no centro, havia cerca de 13 médicos no centro de saúde – agora são seis. Os indicadores estatísticos mais recentes da OCDE mostram que em 2012 havia 4,1 médicos por 1000 habitantes em Portugal, refletindo um aumento em relação ao ano de 2000. O Relatório de Primavera de 2015, do Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS), faz referência a estes indicadores da OCDE que permitem concluir que Portugal “tem um número de médicos superior à média da OCDE, ocupando o quarto lugar entre os países com mais médicos”.

Contudo, quando se analisa a distribuição dos médicos pelo território, comparando as zonas urbanas e rurais, Portugal é um dos países com maior disparidade, “com uma distribuição predominante pelas áreas urbanas e com clara desvantagem das áreas rurais”. Segundo o relatório do OPSS, embora exista em Portugal um número de médicos “adequado às necessidades da população”, estão concentrados “predominantemente nas áreas urbanas comprometendo assim o acesso das populações de áreas rurais”.

Em Mogadouro agora há seis médicos, quatro deles nascidos ali. “Temos um médico espanhol que foi cá colocado como especialista e uma médica do Porto que partilha dois dias com a extensão de Miranda.” A diretora do centro de saúde reconhece que tem vindo a notar-se uma maior dificuldade em conseguir atrair jovens médicos para trabalhar no concelho. “Abrem concursos e ninguém concorre por causa da interioridade.”

Mas o problema mais sério está para chegar nos próximos anos. “Daqui a amanhã eu vou reformar-me e como eu há uns 20 médicos aqui na região. Se não tomam medidas, vai ser um problema grave. Os jovens vão estudar para outros sítios e, se puderem lá ficar, ficam.” Maria da Luz diz que os jovens hoje são “mais exigentes” do que eram na sua altura.

Sem conseguir apontar uma solução definitiva, lembra que o Serviço Médico à Periferia era uma forma de garantir que as zonas mais remotas tinham sempre médicos. “Podia ser uma solução, ainda que temporária, para garantir que vai havendo sempre médicos nestes sítios. Na altura em que o serviço existia, houve colegas que vieram para aqui nesse serviço e por cá ficaram.”

As melhorias dos últimos 30 anos

Tiago Miranda

Maria da Luz reconhece que hoje a situação no concelho, em termos de saúde e gestão do centro, está “muito melhor”, tanto para os médicos como para os utentes, sobretudo desde que foi criada a Unidade Local de Saúde que reune três hospitais da zona e 14 centros de saúde.

Uma das vantagens é ter passado a haver uma articulação com as diferentes especialidades. “O tempo de espera de consulta tem diminuído e estamos em rede informática com os hospitais. Contactamos os especialistas, eles dão-nos instruções e se o utente precisar de ir ao hospital vai, se não precisar não vai.”

Outros dos dados que permite analisar o acesso aos cuidados de saúde é o acesso a consultas, como é sublinhado no relatório do Observatório Português dos Sistemas de Saúde. E o número de consultas médicas nos centros de saúde “tem sofrido uma redução constante ao longo do período 2008-2012”, com exceção da região do Algarve, sendo a redução mais expressiva na região Norte (25,31%).

Em paralelo ao decréscimo de consultas médicas nos cuidados de saúde primários tem havido um aumento ligeiro nas consultas médicas domiciliárias (4,16%) e um acentuado incremento das consultas de enfermagem domiciliárias (11,3%), de acordo com o relatório do Observatório.

Para dar assistência aos 9 mil utentes de Mogadouro, o centro de saúde tem um serviço de urgência básico, assim como uma unidade que se desloca a escolas, casas e lares. “Também temos uma unidade de cuidados paliativos e temos uma unidade móvel de saúde que anda pelas aldeias e inclusivamente vão visitar doentes quando não sabemos deles há muito tempo.”

Primeiro passo: programar as consultas

Tiago Miranda

Uma das mudanças foi a programação das consultas dos utentes. “Gerimos melhor o tempo e tudo isso contribui para um rendimento muito melhor.” Maria da Luz Afonso diz que hoje é muito mais importante “ir educando as pessoas”, explicando o que são os vários exames médicos ou com que regularidade têm de ir a uma consulta.

Ser médica de família num centro de saúde num concelho no interior do país – com pouca população e já envelhecida – tem características especiais. “Tínhamos doentes que vinham três vezes por mês aqui ao centro. Uns porque vivem sozinhos, outros porque não tinham nada para fazer. Um dia apareceu no centro um casal de idosos de manhã e o marido disse para a mulher ‘tu ficas aqui ao quente enquanto eu vou fazer as compras’.”

Maria da Luz lembra que ali os médicos têm um importante papel social, mais ainda sendo um sítio pequeno, onde todos se conhecem. “Eu conheço as pessoas uma por uma e conheço as famílias todas.”

Não são poucas as vezes em que recebe chamadas a meio da noite com pedidos e dúvidas dos doentes. “Na verdade, não faz a mínima ideia do que isto é. Eu sei o país que temos, as necessidades que temos, o que há de bom e de mau. Mas se alguém me ouvir a falar dirá ‘aquela ali está contente’. A verdade é que gosto do trabalho, gosto do que faço.”

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