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Minha querida agricultura

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António Duarte António tem 25 hectares de olival e um lagar de azeite que já está na família há mais de 100 anos

António quis fugir da vida na terra que os pais e os irmãos levavam. Estudou engenharia, trabalhou como programador e aos 50 anos voltou à agricultura. Emociona-se no fim da conversa, ele que faz parte dos 6,5% de população agrícola familiar em Portugal, proporção que em 1989 era de 19,8%. Este é o sexto artigo da série “30 Retratos” que o Expresso está a publicar diariamente. São 30 temas, 30 números e 30 histórias que ilustram o que Portugal é hoje em vésperas de eleições

Casais de Cabaça foi onde tudo começou. Foi lá que nasceu, numa pequena aldeia a 20 quilómetros de Santarém. O pai era agricultor e tinha nas suas mãos o lagar que já vinha do seu bisavô, conhecido como o Zé Cabaça. Já são 120 anos desde que o lagar de azeite chegou à família – e esteve sempre a funcionar até 1991. António cresceu a tratar dos animais, do olival do pai e de tudo o que ele o pusesse a fazer na terra. Desde pequenos que ele e os dois irmãos, ambos mais velhos, sempre foram incumbidos de várias tarefas na agricultura.

António começou por fazer a escola primária no Verdelho, a 1,5 quilómetros de casa. Depois foi para o liceu em Santarém, mas mesmo assim, ao fim de semana, o pai encarregava-o das tarefas na terra. “Aquilo já me custava mais porque ia tratar dos animais, ficava a cheirar mal e nessa altura já tinha contacto com as pessoas da cidade. Eu vinha de um meio camponês e sentia nas pessoas uma certa repulsa, tinha um certo complexo na integração”, conta António Duarte António, 62 anos, proprietário de 25 hectares de olival e um lagar de azeite em Verdelho, Santarém.

Do liceu em Santarém, António passou para a faculdade em Lisboa e a vida começa a mudar, em vários sentidos. “Nessa altura, deixo o cabelo vir até debaixo da orelha. Foi lá para 1969, quando se começou a sentir no país uma certa abertura com a entrada de Marcello Caetano. Havia uma livraria onde costumava ir e que tinha lá catálogos de livros. Eu pedia para vê-los e queria tudo o que estivesse fora do mercado, ou seja, censurado. Trazia-os todos para casa – sobre educação sexual, deportação em campos de concentração, além de tudo o que fosse de Marx, Hegel ou Estaline.”

Só que nem os pais nem os irmãos partilhavam os mesmos interesses. “Um dia, o meu irmão encontrou entre os meus livros o ‘Manifesto do Partido Comunista’. Pegou nele e pô-lo na mesa do meu pai. A partir dessa altura, vir para aqui começa a ser uma tortura para mim.” António lembra que nunca fez parte de nenhum partido durante toda a sua vida, mas as suas ideias e as questões que colocava foram-no afastando aos poucos do pai e dos irmãos, à medida que o seu dia a dia tinha cada vez menos em comum com o dos irmãos, que continuaram a trabalhar na terra com o pai.

Até cerca de 1975, o pai tinha como principal atividade a agricultura, mas também tinha a transformação de azeite e de outros produtos. “Tinha aqui uma unidade e fazia muito dinheiro. Isto funcionava bem e eu tentava dizer-lhe que dava para ter aqui uma situação de empresa, que ele devia dar um ordenado aos meus irmãos.”

Em 1973, a população agrícola representava 28% da população ativa em Portugal. Mas foi também nessa fase que sofreu um decréscimo. “Os fluxos migratórios para os centros urbanos e a emigração para a Europa, na década de e 60 e princípios dos anos 70, foram responsáveis pela saída da agricultura de uma parte muito significativa da sua população ativa”, escreve Francisco Avillez em “A Agricultura Portuguesa”, ensaio publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Entre 1963 e 1973, a população agrícola teve um decréscimo de cerca de 400 mil ativos e assistiu-se à saída dos campos dos agricultores “potencialmente mais aptos”, o que dificultou uma resposta à crescente procura interna de bens alimentares, segundo o autor.

Atualmente, de acordo com as estatísticas agrícolas do Instituto Nacional de Estatística (INE), a população agrícola familiar corresponde a 6,5% da população residente, ou seja, 674,6 mil pessoas – uma quebra de 15% em relação a 2009. Dentro dessa proporção estão os produtores, os cônjuges e restantes membros da família, pelo que o número desce para 565,8 mil pessoas quando olhamos apenas para os que trabalham na exploração agrícola (83,9% do total). E, mesmo assim, 13,8% trabalham a tempo completo.

Algumas das oliveiras junto ao lagar no Verdelho, em Santarém, já têm mais de 200 anos

Algumas das oliveiras junto ao lagar no Verdelho, em Santarém, já têm mais de 200 anos

O que os números dizem

João Machado, presidente da Confederação de Agricultores de Portugal (CAP), sublinha precisamente essa diferença nos números. “Há uma grande parte que é agricultura de subsistência, são pessoas que têm uma horta, para complementar a reforma”, afirma. Para avaliar de forma “mais correta” o que é a produção agrícola há que olhar para os que trabalham a tempo inteiro nas explorações. “É um número completamente diferente. Nele vê-se o crescimento da população superior e o decréscimo do ensino básico.”

Os números do INE mostram que os produtores agrícolas singulares em Portugal são sobretudo homens (68,3%), com 64 anos, em média, sendo que mais de 52% têm pelo menos 65 anos. Sete em cada dez só têm o ensino básico e apenas 5,5% têm habilitações ao nível do ensino superior.

Na opinião de João Machado, os dados de 2015 estarão “melhores ainda”, sobretudo devido ao aumento de jovens agricultores. “Há transferência de outros setores: arquitetos, advogados ou engenheiros que não encontram emprego e que tinham um terreno.” E mesmo sem formação na agricultura, “têm um impacto positivo” na agricultura porque trazem conhecimentos de outras áreas – como o design ou a nutrição. “É uma ajuda para desenvolver a agricultura.”

Só que há vários cuidados a ter quando um dia alguém decide dedicar-se à agricultura e um deles é não começar a produzir sem saber a quem vão vender. “Em primeiro lugar, é preciso identificar as potencialidades no terreno com apoio técnico. Em segundo lugar, é preciso fazer um estudo de mercado e saber quais têm maior probabilidade de vender. Em último lugar, toma-se a decisão sobre o investimento.”

Mas além da estrutura envelhecida da população agrícola, há outro problema, na visão de João Machado: os terrenos agrícolas são geralmente pequenos e pulverizados. “A dimensão média tem menos de cinco hectares, pulverizada em 10 ou 15 blocos. Do ponto de vista económico, não são viáveis e é autoconsumo”, afirma, defendendo a necessidade de um emparcelamento das terras, o que significa uma reestruturação. “Vai acontecer mas é lenta. É de idades, de mentalidades, de educação e de dimensão das propriedades. Leva gerações.”

A saída e o regresso

O pai de António manteve o lagar ativo até 1991, quando abandonou a atividade agrícola e, pela primeira vez, o lagar parou. António tinha ido estudar Engenharia Eletrotécnica para o Instituto Superior Técnico, em Lisboa, e quando acabou o curso começou a dar aulas. Por vezes, tentou ir ajudar ao fim de semana, mas desistiu. “Pensei para mim ‘agora tens uma carreira profissional, as duas coisas são incompatíveis’.”.

Até aos 50 anos, António trabalhou em Lisboa como analista, programador, passou pelos TLP (Telefones de Lisboa e Porto) e pela Petrogal, entre outros sítios. Em 2001, o pai morre e no ano seguinte são feitas as partilhas com os seus dois irmãos – já tinha passado algum tempo desde a sua juventude e do corte com a vida agrícola do pai e dos irmãos. António quis recuperar o lagar, comprou-o aos irmãos e conseguiu pô-lo a trabalhar novamente.

“A minha vida recomeça de uma forma diferente”, lembra António, que deixou o trabalho que tinha e que regressou ao sítio e ao dia a dia do qual tinha fugido em jovem. Hoje tem 25 hectares de olival – terrenos separados que herdou do pai; e tem o lagar, que funciona 24 horas por dia nos três meses de campanha, entre setembro e novembro. Ali António recebe as azeitonas de pequenos produtos – são entre 250 a 300 – e transforma-as em azeite, cobrando uma fee por cada quilo. O seu objetivo é avançar para uma fase em que consiga ajudar os pequenos produtores a comercializarem o seu azeite.

António manteve em funcionamento o moinho antigo e gostava de conseguir organizar visitas de estudo para as escolas, de maneira a mostrar como é que tradicionalmente se fazia o azeite. “Quando comecei este projeto, sabia que havia muitas dificuldades. O lagar estava parado há mais de 10 anos. Tive de fazer um pedido de localização, um licenciamento da obra, um licenciamento industrial, tratar das águas residuais, etc. Levou dois anos até ter esse processo completo.”.

“Gostava de vir a ter aqui um espaço para apresentações, fotografias antigas e mostrar como isto funciona. Mas são pequenos passinhos. É tudo muito bonito mas é muito complicado e hoje sinto que posso ter de fechar.”

Apesar das dificuldades que sente e dos muitos obstáculos com os quais se tem cruzado, António diz nunca ter estado arrependido. “Muitas vezes, a paixão é cega face aos números e eu sabia que ia para um projeto com uma rentabilidade reduzida. Mas quando se está com paixão, é preciso levar muita pancada até se sentir arrependido.”

Só há uma coisa que continua a emocioná-lo. “Isto era a vida do meu pai. Ele não imaginava que eu faria um esforço para ficar aqui. E eu nunca lhe disse que queria ficar com isto.”

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