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O “fator 30” traz mais bebés?

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Nos primeiros sete meses deste ano já nasceram mais 1.500 bebés do que no mesmo período do ano passado, mas é preciso chegar ao final do ano para saber ser será em 2015 que a natalidade vai aumentar

Rui Ochôa

Nos primeiros meses deste ano já nasceram mais bebés do que no mesmo período do ano anterior, embora ainda seja cedo para concluir que a natalidade vá aumentar em 2015, contrariando a tendência dos últimos anos. Até maio, nasceram 33.637 bebés em Portugal e Miguel Cruz é um deles. Este é o quarto artigo da série “30 Retratos” que o Expresso vai publicar diariamente: são 30 temas, 30 números e 30 histórias que ilustram o que Portugal é hoje em vésperas de eleições

Miguel faz 145 dias este domingo. Foi um dos 6.663 bebés que nasceram em abril de 2015 e é o primeiro filho de Rita e João. Nascidos em 1986, os pais, hoje com 29 anos, estão ainda nos primeiros meses de descoberta sobre o que é, de repente, ter um filho. Sempre fez parte dos planos dos dois, mas só no último ano é que acharam que tinha chegado a altura certa para que isso acontecesse.

Casaram-se em abril de 2013, seis anos depois de terem começado a namorar. Um ano e uns meses depois de se casarem, já por volta do verão do ano passado, Rita deixou de tomar a pílula e engravidou alguns meses depois. “Pensámos em estar mais ou menos um ano sem filhos, para estarmos só nós os dois.” Às 38 semanas, a 14 de abril de 2015, o Miguel nasceu.

“Acabou por calhar bem nascer em abril”, aponta Rita Simões, sublinhando que assim, passados os seis meses de licença de maternidade, entrará na creche no início do ano letivo. E ainda que desta vez o nascimento em abril tenha sido por acaso, quanto a um próximo filho, a ideia dos pais é que o consigam planear para nascer nessa mesma altura, entre abril e maio.

Tanto um como o outro têm trabalho – Rita é técnica de seguros na Interpartner Axa Assistance, João é investigador e ‘lab manager’ na Fundação Champalimaud. “Se estamos à espera de estar completamente fixos no trabalho para termos filhos, então nunca os iríamos ter.” E no percurso de vida dos dois, em nenhum momento tiveram de adiar um primeiro filho por falta de condições – naquele que lhes pareceu ser o momento certo, depois de terem “viajado e aproveitado o tempo juntos”, tinham condições para concretizar esse desejo.

Desde o início do ano, e até ao final do mês de maio, nasceram 33.637 bebés em Portugal, segundo os números mais atualizados do Instituto Nacional de Estatística (INE). Já é um número superior aos dos primeiros cinco meses do ano passado (32.442), ainda que ligeiramente mais baixo do que o que se registou em 2013 (33.773).

Os números recentes do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, em relação aos “testes do pezinho” feitos em Portugal até ao final do mês de julho, mostram que já nasceram mais 1500 bebés do que em igual período do ano passado, concluindo que foi no distrito do Porto que se verificou o maior aumento, embora Lisboa continue a ser o distrito com mais nascimentos.

A escolha de ter um filho mais tarde

Rita Simões conta que, entre as pessoas que a rodeiam, com idades próximas da sua, a sensação que fica é que o facto de ainda não terem tido filhos resulta antes de uma escolha e não tanto da falta de condições. Por um lado, explica, os jovens saem mais tarde da faculdade, “para quem fica a fazer mestrados, por exemplo”. “Há uma maior dedicação à vida académica, que eu até acho bem. E acho que as pessoas procuram um momento ideal na relação para terem filhos. Até podem estar num bom momento profissional, mas podem não estar nesse bom momento da relação.”

Quanto a idades, na visão de Rita e olhando para as grávidas com quem se cruzou no curso de preparação para o parto, “a média está nos 30 anos”. “Vejo mães mais velhas – sempre a partir dos 29 ou 30. No meu curso pré-parto, havia uma grávida com 35 anos e outra com 22.” O que defende é que, tendo as condições necessárias para ter filhos, chega um momento em que se faz uma pergunta: “Devemos esperar ou não?”. Em causa, diz, está o “fator 30”.

“A certa altura, acho que percebemos que já chegámos aos 30 anos”. E essa sensação coincide com o que o INE aponta como a idade média das mulheres em Portugal quando têm o primeiro filho: 30 anos em 2014 – a idade mais avançada desde que existem dados para este indicador (1960). A idade média mais baixa foram os 23,6 anos no final da década de 1970.

A importância do apoio no local de trabalho

Rita destaca a importância do apoio que ambos receberam dos locais de trabalho em relação ao nascimento do Miguel. E nessa sensação de apoio está, sobretudo, o facto de não ter havido qualquer imposição ou limitação no tempo que lhes foi dado. “Deram-me os meses de licença de maternidade e autorizaram que eu juntasse mais uns dias de férias. Conseguir esse tempo dá uma sensação de descanso e segurança, enquanto mãe ou pai. Acho que também é psicológico, mas dá a ideia de que não há qualquer entrave a ficar com um filho depois de nascer.”

Rita está agora de licença de maternidade e ficará com o Miguel até ao final de setembro. O pai dividirá um mês de licença em dois momentos diferentes. Logo a 1 de outubro, ainda antes de fazer seis meses, o Miguel irá para a creche. “Tem de ir porque todos os avós ainda trabalham.”

Quanto à experiência da gravidez, Rita diz que o acompanhamento que teve no Serviço Nacional de Saúde “funcionou muito bem”. “Num próximo filho também escolho um hospital público. Fui acompanhada no centro de saúde e no hospital.” E quando hoje fala com outras mães de bebés nascidos nos primeiros meses deste ano, Rita diz que há uma sensação em comum. “Acho que se conclui que não vale a pena estar a adiar ter um filho porque para o ano pode estar igual. Se calhar, 2016 é igual a 2015.”

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