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Guerra à Uber: quatro casos de agressões físicas em duas semanas

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CONCORRÊNCIA. A Uber começou a operar em Portugal em julho de 2014, passando a concorrer diretamente com os táxis

TIAGO MIRANDA

Motoristas ligados à plataforma online apresentam queixas-crime contra taxistas. Diretor-geral da Uber reconhece direito de protesto mas apela ao “bom senso” e ao “respeito pela ordem pública”

Nas últimas duas semanas, a Uber teve conhecimento de quatro casos de agressões físicas a motoristas que trabalham com esta plataforma online alternativa ao serviço tradicional de táxi. Rui Bento, diretor-geral da Uber em Portugal, revela que três desses incidentes aconteceram em Lisboa e houve ainda uma situação reportada no Porto, sendo que todas elas deram origem a queixas-crime.

Os ânimos têm estado agitados desde agosto, com um número crescente de episódios em que os motoristas da Uber são abordados por condutores de táxi. Além dos episódios da violência física, tem havido dezenas de casos de intimidações e ameaças. Num vídeo enviado para a redação do Expresso, um passageiro filmou a abordagem de um taxista a um condutor de Uber, em plena rodagem nas ruas do Porto, ameaçando-o com um “sai cá para fora”:

“Temos verificado um aumento de ocorrências que nos deixa preocupados”, confessa Rui Bento. “Toda a gente tem o direito de se manifestar e protestar, mas desde que o faça respeitando a ordem pública”, diz o diretor-geral da Uber. “Espero que haja algum bom senso.”

O cenário tem sido particularmente tenso no aeroporto de Lisboa, onde todos os dias taxistas presentes na fila das chegadas chamam a polícia para identificação dos motoristas de Uber sempre que detetam a sua presença.

Mas já aconteceu tentarem, pelo meio, fazerem justiça pelas próprias mãos. Na quinta-feira da semana passada, dia 27 de agosto, Ruben Silva, um motorista de 23 anos, estava a receber três clientes que tinham pedido um carro na zona das partidas do aeroporto da Portela quando acabou por ser agredido.

“Fui agredido com murros e pontapés”

Ruben Silva conduzia uma carrinha Renault Mégane descaracterizada mas foi detetado assim que foi colocar as malas dos passageiros na bagageira. “Seis taxistas aproximaram-se e começaram a falar entre eles... ‘este é da Uber’... mandaram-me tirar as malas para fora. Como me recusei, fui agredido com murros e pontapés. Foi inesperado. Só tive tempo de proteger a cabeça.” A polícia apareceu e dois dos taxistas foram identificados na queixa-crime apresentada por Ruben.

Na manhã de sábado, dia 29, o bloqueio de um carro da Uber Black, uma versão mais cara do serviço, por vários taxistas na zona de chegadas do aeroporto foi filmado por um passageiro e o vídeo tornou-se viral no Youtube.

Ailton Patrício, que conduz carros para a Uber desde que a empresa está em Portugal, há pouco mais de um ano, recorda-se que não teve tempo para evitar o bloqueio dos taxistas. “Era uma passageira americana que vinha de Nova Iorque e tinha feito o pedido pouco antes através da plataforma. Quando a vi, já vinha a correr mas nem conseguiu fechar a porta de trás do carro. Tinha uma mala muito pesada e quando eu estava para ir ajudá-la um dos taxistas agarrou a porta, enquanto um colega dele pôs-se à frente do carro.”

Os taxistas dispersaram quando um agente da polícia surgiu no local e Ailton Patrício não chegou a apresentar uma queixa-crime. “Mas se voltar a acontecer, vou apresentar.” O condutor admite que o ambiente tornou-se apreensivo na empresa onde trabalha. A Uber não tem carros próprios, funcionando com um esquema de parcerias e fornecendo apenas a plataforma de gestão e interação com o cliente, incluindo o sistema de pagamento. Na empresa onde é condutor, uma sociedade de “animação turística” com o mesmo enquadramento legal dos tuk tuks, Ailton Patrício tem cerca de 20 colegas. “O pessoal que trabalha com os carros Uber X são os que ficaram mais ansiosos. São carros de gama mais baixa, que fazem mais concorrência direta aos táxis.”

Uma viagem entre o aeroporto da Portela e o Rossio, no centro histórico de Lisboa, pode custar apenas cinco euros com o Uber X e por volta de 20 euros na versão Uber Black, que recorre a sedans de maior conforto e cilindrada.

À espera de um recurso no tribunal

Em abril, um tribunal decretou uma providência cautelar para proibir a atividade dos carros da Uber em Portugal, mas a empresa recorreu para a Relação de Lisboa e enquanto aguarda pela decisão do recurso tem mantido a rede de transportes a funcionar, com dezenas de carros a irem diariamente buscar e entregar clientes ao aeroporto. A providência cautelar visa especificamente a Uber Tecnologies Inc., sediada nos Estados Unidos, e a empresa alega no recurso apresentado na Relação que é a Uber BV, uma outra identidade jurídica, que explora o negócio em Portugal.

ALTERNATIVA. A Uber não releva, “por razões concorrenciais”, quantos carros e motoristas têm a operar na rede em Portugal. Mas garante que todos os serviços são faturados pela plataforma e pagam impostos no país

ALTERNATIVA. A Uber não releva, “por razões concorrenciais”, quantos carros e motoristas têm a operar na rede em Portugal. Mas garante que todos os serviços são faturados pela plataforma e pagam impostos no país

TIAGO MIRANDA

Muitos taxistas acreditam, de qualquer forma, que a concorrência é ilegal e que os motoristas da Uber estão a transgredir uma ordem dada pelo tribunal, sendo que a ANTRAL (Associação Nacional dos Transportadores Rodoviários em Automóveis Ligeiros) agendou uma manifestação para a próxima terça-feira, de forma a pressionar as autoridades a agir. Em agosto, o presidente da associação, Florêncio de Almeida, tinha anunciado protestos “com toda a força”, advertindo para o que poderia vir a acontecer: “Depois, se as coisas descambarem, só temos de condenar o governo”.

Para já, e apesar de agredido, Rúben Silva não vai desistir de ser condutor da Uber. “Desde que fui alvo de agressão, já voltei ao aeroporto cinco vezes para ir buscar passageiros. Claro que vou sempre com algum receio. Mas vou.”

O diretor-geral da Uber, Rui Bento, acrescenta que não é sua intenção “apontar o dedo a ninguém”, mas apenas garantir um ambiente pacífico. “Este assunto está nas mãos do tribunal. Estamos empenhados em respeitar as leis portuguesas. Queremos um diálogo construtivo com todos os operadores para termos em Portugal um quadro legal moderno que satisfaça os interesses dos consumidores.”

  • Uma turista tentou viajar num carro da Uber, mas um grupo de taxista não deixou. Impediu que a passageira fechasse a porta e que o carro seguisse viagem. O vídeo do momento está na net. A Uber não comenta. Já a associação dos taxistas diz que a “turista até devia de agradecer”