Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Pais de bebé prematura retidos em Lisboa conseguem que seguradora lhes pague avião privado

  • 333

A bebé prematura, Hayden, na incubadora que foi o seu suporte de vida durante vários meses

DR

Kim e Fred estiveram quatro meses ‘agarrados’ à incubadora da Alfredo da Costa, em Lisboa, onde assistiram à lenta recuperação de Hayden que nascera prematura junto do irmão, que acabara por falecer. Só depois desta história se tornar viral e mediática, é que o casal conseguiu convencer a seguradora a pagar um avião com equipamento médico para regressarem os três à América. Partem este domingo

Depois de quatro meses de lágrimas, angústia e desespero vividos na maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, o casal norte-americano Kim e Fred Spratt tem agora motivos para sorrir. A seguradora Highmark Blue Cross Blue Shield concordou, após sucessivas recusas, a finalmente pagar-lhes uma viagem num avião particular com equipamento médico para que Hayden, a filha prematura de saúde ainda débil, possa regressar em segurança, e com o devido acompanhamento, a casa. A estimativa inicial apontava para que este tipo de voo custasse cerca de 71.000 euros, de acordo com o jornal americano Times Leader.

A verdade é que é já no domingo que Kim e Fred irão despedir-se de Lisboa e regressar à sua cidade para apresentar a filha a toda a família.

O Expresso encontrou-os numa das suas últimas visitas à maternidade, pelas 21h de sexta feira, quando se preparavam para dar a refeição da noite à pequenina e frágil Hayden que ainda não deixou a incubadora. Visivelmente cansados, foram lacónicos nos comentários, e recusaram-se a responder a perguntas afirmando que as suas atenções estavam apenas ‘no regresso a casa’. Mas agradeceram a ajuda dos portugueses. ‘Estamos agradecidos pela ajuda que nos deram’. Despediram-se de imediato e entraram rapidamente nas instalações da maternidade para estarem com a filha mais um serão.

Este caso que se tornou viral nas redes sociais, é a história de dois futuros pais que escolheram Lisboa como destino final do que chamaram de viagem “babymoon”. Kim, de 31 anos, estava grávida de gémeos, e aos seis meses de gestação obtivera autorização médica para viajar, e com o marido passara por Barcelona, Granada, Sevilha até chegarem a Lisboa. “O médico deu-me 100% de certeza que podia viajar “, declarou Kim ao site americano App.

Imprensa internacional acompanhou o caso

E foi na capital, num cruzeiro ao por do sol, que a futura mãe se começou a sentir mal. "As minhas pernas começam a tremer descontroladamente", contou Kim, ao Daily News. "Mas nunca pensei que poderia ser de trabalho de parto." E, nesse mesmo dia, 2 de maio, deu à luz o pequeno Hudson e a pequena Hayden. Dois bebés precoces e extremamente débeis. O rapaz nasceu com 794 gramas e acabou por falecer a 24 de maio. A filha Hayden Grace que nascera ainda com menos peso que o irmão, 652 gramas, tem estado até agora a lutar pela vida numa incubadora. Dado que a filha não reunia condições de saúde para viajar num avião comercial, os pais foram obrigados a ficar à espera da sua recuperação. Desde logo a seguradora Highmark recusou-se a cobrir as despesas dizendo-lhes ‘não ser uma necessidade médica’ dado que a bebé poderia ficar em Portugal e obter tratamento no nosso país. Uma situação que se poderia prolongar por muitos mais meses até que Hayden recuperasse.

Longe dos trabalhos, e sem terem como fazerem face aos gastos, a família dos Spratt criou uma campanha de recolha de fundos no site “Go Fund Me” e numa página de facebook chamada “Twins in Portugal”. O apoio revelou-se massivo e, até agora, já recolheram mais de 50 mil euros, resultado de donativos dados por 1.071 pessoas. Vários deles de cidadãos portugueses, mas na sua grande maioria enviados de americanos. A imprensa internacional tem acompanhado passo a passo este caso. E foi toda essa atenção mediática e ajuda dos dois lados do Atlântico, através das redes sociais, que fez com que a seguradora acabasse por mudar de ideias para não ficar com uma má imagem perante a opinião pública. “A comunidade tem sido extraordinária”, afirmou Kim ao site americano App. “Nós nem sequer estamos lá [na nossa cidade], e sentimos tanto apoio. Desde maio, tem sido incrível perceber o alcance de todo a generosidade demonstrada logo após a nossa história ter sido noticiada. As pessoas clamam em público – ‘Tragam a bebé Hayden para casa’ – tem sido avassalador. Faz-nos sentir bem saber que tantas pessoas têm rezado por nós e sentido amor por nós”.

Regresso a casa

Na passada quinta feira foi publicado na página de recolha de donativos do “Go Fund Me” a seguinte mensagem: “Estamos felizes por informar que o seguroHighmark concordou em pagar a viagem de regresso a casa! Kim, Fred e Hayden estão a regressar para casa !!! Obrigado a todos vocês pelo vosso apoio. Esta tem sido uma longa jornada que ainda conta com um longo caminho a percorrer, mas o vosso apoio ajudou a pagar as contas médicas, hospedagem e alimentação enquanto estiveram deslocados em Portugal, últimas negociações com a Hudson e muito, muito mais. Por favor, continuem a manter a família deSpratt em vossas orações!”

O casal Spratt que se conheceu no site de encontros Match.com e se encontrou pela primeira vez há três anos no bar “Tavern de Moore”, em New Jersey, mal pode esperar por recuperar a vida que durante meses deixou para trás, os empregos que deixaram congelados. Fred trabalha numa empresa de sistemas de segurança, Kim é fisioterapeuta.

“Quando chegarmos a casa e nos instalarmos, uma noite vamos sentar-nos, olhar um para o outro e dizer ‘o que raio acabamos de passar? Nunca poderemos agradecer o suficiente a todos”, chegou a dizer Fred ao site App. E nesta jornada tão surreal quanto extremamente emocional Kim acrescenta: “Perder o nosso filho tornou tudo muito mais difícil. Há dias em que olhamos um para o outro e desatamos a chorar. Depois do Hudson não ter resistido, a nossa fé e esperança ficou em cima dos ombros de Hayden, uma bebé com pouco mais de meio quilo que estava muito, muito doente. É muita pressão. Basicamente as nossas vidas estavam depositadas nela – na sua saúde, na sua melhoria. Não era suposto ela estar viva, mas ela felizmente ultrapassou tudo.” Acrescente-se que a bebé Hayden terá agora cerca de dois quilos e duzentos gramas. Uma grande recuperação desde que nasceu. E é Fred quem remata: “Hayden teve tanta pressão sobre ela para melhorar – ela fez isso para nós. Agora é nossa tarefa levá-la para casa, e fazê-lo por ela.”