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O dia em que Sócrates acusou o Ministério Público de querer “impedir a vitória do PS”

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Alberto Frias

Foi a última das célebres cartas a partir da prisão. A 19 de agosto, José Sócrates escrevia à SIC e ao “Jornal de Notícias” para reafirmar a sua inocência e acusava o Ministério Público de querer "condicionar as próximas eleições legislativas e impedir a vitória do PS”. O antigo primeiro-ministro saiu da prisão de Évora esta sexta-feira, nove meses depois de ter entrado

O antigo primeiro-ministro não tem dúvidas de que foi preso sem razões e que o objetivo do Ministério Público é impedir a vitória do Partido Socialista nas próximas eleições legislativas. Escreveu-o a 19 de agosto, cerca de duas semanas antes de sair da prisão de Évora, esta sexta-feira.

“Ao fim destes longos nove meses, creio que é tempo de todos tirarem uma conclusão: fui preso sem que existissem quaisquer provas contra mim. A interpretação mais benigna, embora ainda assim intolerável, é a de que me prenderam para investigar. Mas há outra. À medida que o tempo passa, cresce a legítima suspeita de que este processo tem como verdadeira motivação condicionar as próximas eleições e impedir a vitória do PS”, lia-se na carta divulgada pela SIC e “Jornal de Notícias”.

Num documento de cinco páginas A4, Sócrates insistia que a sua acusação “é totalmente absurda, totalmente infundada e totalmente injusta” e a justiça cometeu “um erro monstruoso”. O ex-chefe de governo sublinhava que não tinham sido encontradas provas para o incriminar porque estas não existem.

“A investigação não foi capaz de, em todo este tempo, de apresentar uma única prova, e muito menos uma prova consciente, de qualquer crime que me possa ser imputado! Não é nada que me surpreenda.”

Para José Sócrates, a investigação de que está a ser alvo “goza de um beneficio de dúvida”, ao contrário do que acontece com o réu. A opinião pública “mais crédula” admite que o processo “possa conter alguma prova ainda não divulgada e que tenha conseguido escapar às constantes 'fugas' ao segredo de justiça”, enquanto os magistrados das instâncias superiores validaram a prisão “porque, face ao que está em jogo, tendem a conceder à investigação uma tolerância inadmissível num processo justo”.

Comprador da casa que também está sob investigação

José Sócrates revelava ainda nessa carta que o antigo procurador-geral da República do Paquistão, Makhdoom Ali Khan, está a ser investigado pelo Ministério Público por ter comprado o imóvel no edifico Castilho-Heron, em Lisboa, que pertencia ao ex-primeiro-ministro.

“O Ministério Público ordenou uma investigação a um cidadão paquistanês pelo facto deste ter decidido comprar um apartamento. A única razão parece residir no facto desse apartamento ter sido meu. Já não se trata, apenas, do respeito que deve às pessoas e aos seus direitos, mas de perder o respeito que o Ministério Público deve a si próprio.”

O Expresso já tinha noticiado que o paquistanês sentia-se enganado com o negócio, uma vez que tinha sido acordado “que o recheio era para ficar, mas quando os meus advogados obtiveram a chave e foram lá ver em que condições estava a casa, os móveis, incluindo sofás e mesas, tinham sido levados”. Makhdoom Ali Khan desembolsou 675 mil euros para adquirir o T3 na zona do Marquês de Pombal.

José Sócrates foi detido no âmbito da Operação Marquês sob suspeita de crimes de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção. Foi libertado esta sexta-feira, mas fica em prisão domiciliária - sem pulseira eletrónica.

  • A vida de Sócrates na prisão: “Os Sopranos”, “A Guerra dos Tronos”, Philip Roth e Vassili Grossman

    No dia em que sabe que o Ministério Público propôs alteração da medida de coação de Sócrates de prisão preventiva para prisão domiciliária, o Expresso recupera uma reportagem publicada na revista E a 30 de maio de 2015. Sócrates está há seis meses em Évora e já se adaptou às rotinas da cadeia. Já viu “Os Sopranos” e “A Guerra dos Tronos”. Leu Philip Roth e Vassili Grossman. E tem escrito. Muito. Os amigos garantem que se mantém “determinado em provar a sua inocência.” Seis meses depois, é o retrato da vida do recluso 44