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É preciso aprender a envelhecer

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Montagem de fotografias tiradas por Virgínia Liahuca nas suas viagens pelo mundo: Argentina, Cuba, Perú, Chile e Brasil são alguns dos países por onde já passou

DR

Virgínia tem 78 anos, caminha seis quilómetros por dia, viaja pelo mundo fora e ainda quer ir ao Canadá, Estados Unidos e Inglaterra. “A velhice programa-se”, diz. Em 2030, Portugal poderá ser o país mais envelhecido do mundo. Este é o segundo artigo da série “30 Retratos” que o Expresso vai publicar diariamente: são 30 temas, 30 números e 30 histórias que ilustram o que Portugal é hoje em vésperas de eleições

Tudo cabe em duas divisões, num rés-do-chão de uma moradia a poucos quilómetros do mar. A janela da sala dá para uma horta – e por ali entra luz suficiente para iluminar metade da casa. No encosto do sofá está estendido um cachecol do Benfica e na parede estão coladas fotografias dos netos, a cores e impressas em papel. Está também pendurada uma outra fotografia mais antiga, a preto e branco, com dois rapazes e uma menina sentados num muro baixinho, por baixo de uma árvore. Foi tirada na cidade de Ponta Negra, na República do Congo, em 1968.

Naquele espaço cabe uma parte de tudo o que Virgínia Liahuca hoje precisa para viver. Apenas uma parte, porque a outra está fora de casa. É que viver sozinha, quando se tem 78 anos, implica duas coisas igualmente importantes, explica: uma é saber estar em casa e ocupar o tempo, a outra é saber sair de casa e estar com gente. “É preciso integrar-se, não se isolar, procurar grupos. Faz 15 dias ligaram-me a perguntar se não me queria juntar a um grupo de pessoas para ir a Lisboa ver o La Feria ao Casino Estoril, que ainda tinham um lugar livre. Disse-lhes logo ‘é para já’.”

Virgínia caminha seis quilómetros por dia, “exceto ao sábado e ao domingo”. Vive na Lourinhã, perto de Torres Vedras, mas viaja pelo mundo fora – já foi à Tailândia, Costa Rica, ao Peru, à Argentina, a Cuba, ao Brasil, Vietname. E ainda quer ir ao Canadá, aos Estados Unidos e a Inglaterra. Parte em excursões com pessoas que não conhece – e isso permite perceber o quão simples é para si, afinal, apanhar uma camioneta da Lourinhã até Lisboa para ir ao cinema.

Fotografia tirada por Virgínia Liahuca durante a excursão que fez ao Peru, em 2005. Virgínia digitalizou todas as fotografias das suas viagens para as poder guardar no computador

Fotografia tirada por Virgínia Liahuca durante a excursão que fez ao Peru, em 2005. Virgínia digitalizou todas as fotografias das suas viagens para as poder guardar no computador

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Foi enfermeira a vida toda, primeiro em Kinshasa (então ainda Léopoldville), na República Democrática do Congo, depois no Huambo, em Angola, e finalmente em Portugal, onde trabalhou até aos 70 anos, no Centro de Saúde da Lourinhã. Já tinha 65 quando acabou um curso de enfermagem para idosos, para “os entender melhor”. “A velhice programa-se. Não posso pensar que estou velha e que não vou fazer nada. Sou feliz e é possível viver assim sem gastar muito dinheiro. Vivo um dia a cada dia. Programo-o e obrigo-me a fazer o que programo. Digo para mim mesma ‘Virgínia, tens de fazer’.”

Aprender a envelhecer torna-se uma útil lição quando o índice de envelhecimento voltou a aumentar em Portugal – por cada 100 jovens, há agora 141,3 idosos e as Nações Unidas estimam que em 2030 Portugal seja o 3º país mais envelhecido do mundo. Foi em 2000 que, pela primeira vez, a população com mais de 65 anos superou o número de jovens em Portugal, como escreve a demógrafa e diretora da Pordata Maria João Valente Rosa no ensaio “O Envelhecimento da Sociedade Portuguesa”, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Entre 2003 e 2013, todos os 28 países da União Europeia tiveram um aumento da proporção de idosos, um decréscimo da proporção de jovens (excluindo a Irlanda e Espanha) e de população em idade ativa (com exceção da Polónia, Eslováquia, Luxemburgo e Chipre), segundo dados do INE.

O último recenseamento também mostra que numa década, entre 2001 e 2011, o número de pessoas idosas a viver sozinhas (401 mil) ou a viver apenas com outros idosos (805 mil) aumentou cerca de 29% - de 943 mil pessoas para 1,2 milhões.

“Eu não sinto a solidão”

Uma das viagens que Virgínia Liahuca fez foi à Amazónia, em 2005, tinha 69 anos. Entre 2003 e 2006, visitou também Cuba, Peru, Argentina e Chile

Uma das viagens que Virgínia Liahuca fez foi à Amazónia, em 2005, tinha 69 anos. Entre 2003 e 2006, visitou também Cuba, Peru, Argentina e Chile

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A autoestima é um ponto fundamental quando se envelhece, defende Virgínia. “Toda a gente sabe que vai ficar sozinha um dia e tem de se preparar para isso. Eu não sinto a solidão. Não sei o que é isso, porque me ocupo. Tenho livros, televisão, crochê, pintura, ponto cruz. Não conduzo, mas pego em mim e vou daqui na camioneta para Lisboa. Agora ando a pensar em ir ver o ‘Pátio das Cantigas’. Para mim, o metro em Lisboa é uma maravilha. Compro um monte de bilhetes naquelas máquinas cada vez que lá vou e ponho-me em qualquer lado.”

Reformou-se aos 70 anos e ficou a dar um apoio no lar de terceira idade da Atalaia, perto da Lourinhã. E depois? “Comecei a cuidar de mim.” Já fez um curso de pintura, “um curso de computadores” e faz hidroginástica. “Descobri agora um programa muito bom. Põe-se no telemóvel e conta todos os passos que dou nas minhas caminhadas. Aconselho a todas as pessoas.”

É fã do Viber e do Whatsapp. E os computadores não lhe são estranhos: tem dois, um deles portátil, e usa-os para jogar às cartas, além de ter todas as fotografias das viagens organizadas por pastas. Numa delas, em especial, está o registo da visita que fez ao estádio do Benfica com um grupo de Peniche e da Lourinhã. “Sempre fui do Benfica. Os meus pais não queriam, porque eram sportinguistas. Mas o sangue corre vermelho. Já fui ao campo e depois de sairmos do relvado fomos à sala de imprensa. Vi ali a cadeira onde se senta o treinador e pensei ‘é agora que me sento lá ou nunca irei’. E sentei-me.”

Na fuga dos estudantes africanos em 1961

Muito fica para trás na história de vida de Virgínia Liahuca, cruzando-se com o passado das ex-colónias portuguesas e, em particular, de Angola. É preciso recuar até 14 de dezembro de 1936, dia em que nasceu, em São Tomé e Príncipe. Nunca mais lá voltou desde que veio estudar enfermagem para o Hospital de Santa Maria em Lisboa, em 1949. Veio com a irmã gémea, de quem só se separou há três anos, quando ela morreu. Virgínia ficou a viver na Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa, criada para acolher os estudantes das então colónias portuguesas. Por ali passaram ou estiveram associados nomes incontornáveis como Agostinho Neto, Amílcar Cabral ou Joaquim Chissano.

Dez anos depois de ter chegado a Lisboa, Virgínia casa-se com um jovem angolano que foi estudar Medicina para Portugal. A 28 de junho de 1961, fogem os dois para Paris, juntamente com outros estudantes – naquela que ficou conhecida como a grande fuga dos estudantes africanos para França. A caminho de Paris, o grupo esteve preso durante três dias na cadeia de San Sebastián, em Espanha, e depois seguiriam finalmente para a capital francesa.

Virgínia ia grávida e foi em Versalhes que teve o primeiro filho. Três meses depois, partiram os três para Léopoldville, onde o marido – “um grande nacionalista angolano”, como ela o lembra – se juntou à Frente de Libertação Nacional de Angola (FNLA). Ali em Léopoldville trabalharam no apoio médico a refugiados, junto do Serviço de Assistência aos Refugiados Angolanos (SARA), tendo Virgínia, especializada em obstetrícia, desempenhado um papel importante no apoio a mulheres grávidas. Ficam na cidade até 1964, quando partiram para Brazzaville, onde viveriam até 1975.

Virgínia fica viúva aos 37 anos com os três filhos – os dois rapazes e a menina da fotografia a preto e branco, pendurada na parede – e vai para Angola. Até 1992 trabalha no Hospital Central do Huambo. “Tive uma grande luta para criar três filhos. Sabia que tinha de ser mulher, amiga, mãe e criança como eles.” Uma das suas vitórias seria tirá-los de Angola e pô-los a estudar em Portugal. Hoje, são os três licenciados e trabalham por cá.

Quando chegou a Lisboa em 1992, Virgínia tinha 56 anos e não quis ficar parada. Entre trabalhar no Hospital de Santa Maria em Lisboa e na Lourinhã, é a última que escolhe. “Queria trabalhar com a comunidade.”

Para Virgínia, o essencial é aprender e preparar-se para envelhecer. E se nessa altura não houver família, ou se a família não estiver por perto, é essencial procurar um apoio e encontrar grupos e amigos. “Bastam dois ou três bons amigos, com quem possam sair quando quiserem.”

No fundo, é preciso perder o medo de envelhecer, defende. “A saúde e a doença estão juntas, correm paralelamente, temos de saber isso. E há um ditado que diz ‘viver não custa, saber viver é que sim.’ Tenho sempre este lema e levo o envelhecimento assim.”

  • “Porque hei de ir embora mais cedo para depois estar sozinho?”

    Há cerca de 70 pessoas, na sua maioria sem-abrigo, que todos os dias comem no único sítio em Lisboa que lhes dá mesas, cadeiras, talheres e copos para que pelo menos à hora das refeições tenham um sítio onde comer que não seja a rua. Os pedidos de apoio têm aumentado e é preciso um espaço maior. Atualmente, 19,5% dos portugueses estão em risco de pobreza e é preciso recuar a 2003 para encontrar uma taxa maior. Este é o primeiro artigo da série “30 Retratos” que o Expresso vai publicar diariamente. São 30 temas, 30 números e 30 histórias que ilustram o que Portugal é hoje em vésperas de eleições