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Americanos rendidos ao copo de verde

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Consumido quase em exclusivo pelo mercado da saudade até aos anos 70, em 2015 o vinho verde representa 50% das exportações de vinho português de mesa para os EUA. A vindima acontece esta sexta-feira com os primeiros cachos a serem colhidos pelo embaixador Robert Sherman, amigo de Obama

Isabel Paulo

Isabel Paulo

Jornalista

O Vinho Verde, consumido além-fronteiras quase em exclusivo pela comunidade emigrante portuguesa até à década de 70, voltou a galgar mundo, ultrapassando este ano a fasquia dos 40% das exportações do total da produção. Depois de mais de uma década de alargamento consecutivo de mercado, os EUA reafirmam-se como o primeiro destino dos brancos da região dos vinhos verdes, com um volume de negócio superior a 10 milhões de euros em 2015, quase o quadruplo do valor das exportações do dealbar do milénio (2,8 milhões de euros).

Escudado no conhecimento no terreno e nos números do INE, Manuel Pinheiro, presidente da Comissão de Viticultura dos Vinhos Verdes (CVRVV), não tem dúvidas que o vinho verde é cada vez mais apetecível fora das fronteiras da diáspora lusófona, presente nos copos dos americanos em estados sem fortes comunidades portuguesas, como o Arizona ou Califórnia.

“Desde o ano 2000, o Vinho Verde é procurado muito além do mercado da saudade, figurando, por exemplo, entre os vinhos tranquilos mais consumidos nos casinos do Nevada”, refere Manuel Pinheiro, adiantando que os brancos da maior Região Demarcada Portuguesa, em termos de área geográfica, representa “mais de 50% das exportações totais de vinho português de mesa para os EUA”.

Amigo de Obama convidado a vindimar

O arranque oficial da vindima 2015 na rota dos vinhos que se estende na zona entre Douro e Minho teve lugar hoje de manhã, com a colheita simbólica dos primeiros cachos pela mão do embaixador dos EUA, Robert Sherman, na Quinta de Campos de Lima, em Arcos de Valdevez. “O embaixador é um apreciador de verde e como os EUA são o nosso destino campeão de vendas faz todo o sentido ser nosso convidado de honra, tanto mais que é amigo de Barack Obama”, comenta o líder da CVRVV, que adianta ter a região investido cerca de 1 milhão de euros em diversas ações de promoção no seu mercado alvo número 1.

A somar ao investimento em marketing, Manuel Pinheiro aponta a inclinação dos norte-americanos pelos verdes em detrimento dos maduros, predileção que não afeta o generoso Vinho do Porto, pelo facto de ser um vinho jovem, leve, de menor teor alcoólico e baixo em calorias. “Acho que o gosto pelos nossos verdes vem de encontro às preocupações atuais de adoção de um estilo de vida e alimentação mais saudável e equilibrado”, sublinha o responsável pela região vinícola que regista mais de 20 mil produtores de uva e exporta para 90 mercados, entre o alemão, o segundo maior importador (9,8 milhões em 2014).

No top 5 das exportações de Vinho Verde, segue-se a França (5,5 milhões), Canadá (3,3 milhões) e Brasil (3,1 milhões).

À espera do efeito multiplicador do Alvarinho

Na vindima em curso, prevê-se uma produção de 76 milhões de litros de verde, mais 10% do que no ano passado. Apesar do crescente aumento de produção, Manuel Pinheiro avança que o stock de vinho armazenado é bastante baixo, razão porque a CVRVV procura investidores que queiram plantar vinhas para satisfazer no futuro a procura internacional. A meta é passar dos 700 para os 1000 hectares de área de vinha, comprometendo-se a CVRVV a preparar os projetos de negócios, financiados a 75% por fundos agrícolas comunitários “pelo menos até 2018”.

Um mês após ter entrado em vigor o alargamento da utilização da rotulagem da casta Alvarinho, considerada a rainha dos verdes mais puros, às regiões do Tâmega e Sousa, Manuel Pinheiro mostra-se convicto que a decisão irá pesar positivamente na valorização do território dos vinhos verdes e, por contágio, potenciar as vendas.

O investimento feito na Estação Vitivinícola Amândio Galhano (EVAG), centro de experimentação e investigação no coração do Vale do Lima de apuramento e recuperação de castas centenárias abandonadas, como a típica Doçar, é outro dos motivos que justificam a fé do setor na reviravolta da atração pelo verde.