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“Não vamos à procura de uma vida melhor. Vamos à procura de vida. Atrás de nós só há morte”

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Esperança. Ahmed arriscou a vida para sobreviver. Nos momentos difíceis, agarrou-se à ideia que tinha da Europa

Na cabeça dele havia duas palavras que significavam o mesmo: Europa e segurança. No país dele, a Somália, havia uma palavra que significava “vai-te embora”: guerra. Atravessou África, chegou à Líbia, meteu-se num barco para atravessar o Mediterrâneo. Se ele teve medo de atravessar o mar que se tornou cemitério? Ele tinha medo era de ficar. Ele, Ahmed Abdalla, conta-nos na primeira pessoa o impossível

Carolina Reis

Carolina Reis

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Jornalista

António Pedro Ferreira

António Pedro Ferreira

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Fotojornalista

No meio da confusão, choro de crianças e gritos, não consegui perceber imediatamente se a minha família tinha sobrevivido à bomba que nos destruíra a casa. Pela maneira como a minha mulher segurava os nossos três filhos não dava para distinguir se o mais novo, o único rapaz, na altura com seis meses, tinha sobrevivido. A princípio pareceu-me que não, mas afinal tinha. Foi sorte, tinham-se atrasado no mercado.

Não sei quem enviou a bomba, nem isso é importante. Isso é normal desde que a guerra civil começou no meu país. Não fomos a primeira família nem a última fugir. Aquele cenário só nos deu uma hipótese: ir embora o mais rápido possível.

Entreguei a chave da loja que o meu pai me deixou, o nosso único sustento, na mesquita e pedi-lhes que vendessem tudo. Partimos a pé para a Etiópia. A cada passo estou mais longe de Mogadíscio e mais perto da Etiópia. Não estou mais longe de casa, porque a casa já não existe. Queremos paz, só quem não a tem, quem não vê os amigos e família a caírem com a violência da guerra, pode querer mais. A Etiópia é o primeiro pouso para chegarmos à Europa, terra segura. É por essa ideia que arriscamos a vida. Acho que, afinal, até não pedimos muito.

Enquanto caminho, despeço-me do meu país, sem sentir saudades. Na minha cabeça duas palavras: Europa e segurança. Está a ser duro, mas também esperançoso. A única solução era sair dali, não importava como. É por isso que quando me perguntam se tenho medo de atravessar o Mediterrâneo, eu não percebo a pergunta. Medo? Eu tenho medo é de ficar. Não vamos à procura de uma vida melhor. Vamos à procura de vida. Atrás de nós só há morte.

Sempre foi isso que pedimos

Estamos há três meses na Etiópia, talvez o tempo mais seguro da viagem. Alugámos colchões numa casa pequenina, o equivalente a um lar. Somos ilegais. Ilegais. Não me digam que não há cidadãos ilegais porque há, é assim que fomos tratados nesta viagem. Mas nós não somos ilegais, somos gente com direitos. Com direito a viver. Sempre foi isso que pedimos.

Sem plano definido, dei por mim no meio de outra terra em guerra, com mulher e três crianças pela mão. Mesmo que queira procurar alternativas à Europa não há hipótese. Por onde quer que vá, só tenho guerra e miséria à volta. Conseguimos seguir viagem com o dinheiro que a mesquita me mandou, daquilo que conseguiram vender.

Um mês para arranjar um traficante

Agora estou em cima de um burro, prevê-se que a viagem seja longa. Dois meses, sem morada fixa, a parar apenas para dormir e para comer, quando era possível, até chegar ao Sudão do Sul. Novo país, nova guerra, novos perigos. E eu continuo sem nada, sem certezas, a arriscar a minha vida e a da minha família em nome da segurança.

Foi preciso um mês para arranjar um traficante que nos levasse para a Líbia. Não foi difícil, o mais difícil é ficar. Por 250 dólares a cabeça, encontro quem nos leve. São 25 dias, pelo deserto.

Foi preciso um mês para arranjar um traficante que nos tirasse do país, em direção à Líbia. Não foi difícil. Não é difícil sair, o mais difícil é ficar. Por 250 dólares a cabeça, encontro quem nos leve. 25 dias, pelo deserto do Sudão, numa Land Cruiser de caixa aberta. Conhecem o carro? Estão a ver o tamanho? Somos 32 naquele espaço. Sim, é possível. Trinta e dois à mercê de um traficante.

Aquela viagem soa a prenúncio do que está para vir. Sem dar por isso, é verão. À medida que o calor aperta, a misericórdia do traficante diminui. Não há água e ele só a dá quando entende. E entende poucas vezes. Os 250 dólares só dão direito à Land Cruiser. A nada mais. Quando quer paramos pelo caminho para comer, para dormir. Se houver sombra melhor, senão também não importa.

O novo traficante

Tenho Tripoli, a capital da Líbia, na mente. Agarro os meus filhos e penso na cidade. Acredito que é o começo para uma vida nova. No meio do desespero vence a esperança. Estou muito perto de morrer. Tudo o que passei até aqui parece nada. Cada dia em que sobrevivo é um dia de vitória.

Familiares que já tinham passado para o lado de lá, que já estavam na Europa, enviam o que faltava para fazer os 800 dólares que o novo traficante nos pede para a travessia do mar. Quanto mais perto estamos da Europa, mais aumenta o valor da vida. Uns estrangeiros, a mando do coyote, explicam-nos como funciona. Alguém nos vem buscar, para nos levar a um campo perto da costa. De lá esperamos pela oportunidade. Pode demorar meses. Somos ilegais, escondidos, para ninguém perceber que aqui estamos. Mesmo que toda a gente saiba o que se passa, convém disfarçar.

Da ansiedade à expectativa vai uma pequena distância. Sei que o trajeto será feito de noite. Por isso, assim que o sol se põe cresce na minha mente a probabilidade de sair dali. Ao fim de 15 dias, é hora. Fico nervoso. Lembro-me das histórias dos que não sobreviveram, é como se estivessem à minha frente.

Está quase. Perdi a casa, o emprego, só quero salvar os meus filhos. É noite escura. Subo para o barco, dou o dinheiro ao traficante, é a primeira vez que o vejo. Ele conta as cabeças. Cinco pessoas: eu, a minha mulher, as minhas duas filhas e o meu filho bebé. Não há desconto nem piedade.

São 25 pessoas num barco de oito metros. Já não posso voltar atrás. Tenho medo. Mas, novamente, vence a esperança. Em cada momento, em cada hora, penso que vou morrer. O barco é pequenino, abana, não há espaço para nos mexermos. A única água que entrava é a salgada, a do mar que nunca parou de se impor naquelas 48 horas. Vejo a morte de frente.

Estou quase a chegar. Já avisto a segurança e a igualdade, mas o barco para. O traficante tenta pô-lo a trabalhar, parece que ficou sem combustível. Eu e a minha mulher, agarrados aos nossos filhos. E o barco a oscilar.

De repente, surge uma luz de vigilância, vinda de um navio da marinha. Chegámos à Europa ou voltaremos para trás? Um barco da marinha italiana salva-nos. Não caímos ao mar, mas penso, principalmente agora: se tivesse levado mais tempo teríamos sobrevivido? Tenho de repetir que estivemos muito perto de morrer.

Quando os marinheiros nos tiram da água, envolvem as nossas mulheres e filhos com mantas e levam-nos para terra segura. Paro um segundo, olho para cima e digo ao meu Deus: obrigado!

Português

Hoje, sou cidadão português. Deixei de ser refugiado em novembro, quando recebi a cidadania. Estou muito longe de Mogadíscio. Mas a Europa não é, afinal, a terra das oportunidades. Gosto de Portugal, mas não tenho oportunidades. Todos os meses escolho entre comer ou pagar a renda. As minhas filhas usam o véu islâmico, vão à escola e falam português melhor do que eu. Lembram-se vagamente da viagem. O meu rapaz, o único que fiz, não tem memória. Sabe que em Malta, no campo de refugiados onde morámos antes de vir para Portugal, havia dinheiro para chocolates. Cá não há.

Da janela da minha casa, na Bobabela, onde hoje vivo, vejo, ao longe, o parque onde o meu filho costuma brincar. Estamos em paz.


Ahmed Abdalla, de 47 anos, está em Portugal desde 2009. Chegou através de um protocolo assinado entre as Nações Unidas e os Estados europeus para reinstalar refugiados de longa duração. Foi para o Centro de Acolhimento de Refugiados, na Bobadela, diretamente do campo de Hal Far, em Malta. Está desempregado e, à semelhança de outros refugiados, sofreu um corte de 70% nos subsídios. Desde o ano passado que é o porta-voz da comunidade de refugiados, que envia cartas, em cinco línguas, ao Governo, ao ACNUR, a António Guterres, ao Presidente da República, ao Papa, ao Provedor de Justiça, a pedir que os deixem ir procurar trabalho noutro país. Ahmed já o podia fazer, por ser agora português, mas falta-lhe o dinheiro.

Texto publicado originalmente no site do Expresso a 23 de abril de 2015