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O homem que confundiu o cérebro com um mundo

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Getty

E não se enganou. Oliver Sacks, agora falecido, mostrou-nos o poder das histórias para fazer entrever algo dessa terra interior ainda largamente incógnita

Luís M. Faria

Jornalista

Oliver Sacks, agora desaparecido aos 82 anos, era um daqueles raros homens com o poder de tornar a ciência não apenas interessante, mas absolutamente irresistível para os leigos. Talvez em parte isso tivesse a ver com o seu tema. Ele era neurologista, e o cérebro permanece um grande território inexplorado, tão prenhe de mistério e promessa como as galáxias. Quando Sacks contava a história daquela mulher que relembrava continuamente um único dia da sua vida, fazia-nos pensar que talvez a memória guardasse tudo o que vivíamos. Quando nos mostrava como uma peça de Bach restaurava a memória (parte motora incluída) de alguém a quem um acidente deixara incapacitado, restaurava a ideia do valor mágico da música – embora a verdadeira explicação fosse claramente científica, até no modo como deixava questões por responder.

Parece adequado que o fascínio original de Sacks, no tempo em que crescia em Londres como o quarto e último filho numa família de judeus, tenha sido a química. A história foi contada numa autobiografia parcial publicada há anos. Os pais eram médicos, mas o título do livro – “O Tio Tungsténio” – refere-se ao seu tio Dave, dono de uma empresa que fabricava lâmpadas feitas com aquele material. O livro é ao mesmo tempo uma introdução à química e uma memória de infância. Historicamente ligada à alquimia, a química é associada por muitos jovens fãs à produção de resultados quase mágicos quando certos elementos se combinam. Também os casos neurológicos, tal como os relata Sacks, têm muitas vezes algo de mágico, e é por isso que os seus livros atraem uma grande variedade de leitores. “Despertares”, que foi o segundo, teve a honra de inspirar tanto uma peça de teatro, em 1982, como um filme, em 1990, protagonizado por Robin Williams e Robert de Niro.

35 anos de vida celibatária

A vida pessoal de Sacks foi tão simples e problemática como qualquer vida. Curso de Medicina em Londres, emigração para os Estados Unidos. Médico em vários hospitais da Califórnia e depois de Nova Iorque. Integração em comunidades variadas, homossexuais e outras (a parte gay ele só recentemente admitiu, na autobiografia “On The Move”). Prática desportiva diária, na forma de natação. E, no meio disso tudo, décadas a viver sozinho, uma existência que o próprio descreveu como celibatária mas altamente satisfatória, pelo menos até certa altura.

Os seus livros encontram-se traduzidos em Portugal. O mais conhecido leva por título “O Homem Que Confundiu a Sua Mulher com Um Chapéu”, e contém 24 ensaios. Antes e depois, Sacks escreveu sobre condições diversas, incluindo o autismo, a incapacidade de reconhecer objetos visuais, a perda do sentido de equilíbrio, a surdez, o síndrome de Tourette, o estranhamento em relação a membros do próprio corpo, alucinações, incapacidade para ver cores… Não raro, Sacks utiliza a sua própria experiência como paciente, por exemplo numa história sobre um estudante de medicina que desenvolve um sentido de olfato extremamente intenso sob o efeito de anfetaminas e cocaína. O estudante, Stephen D., afinal era ele.

Enquanto autor, o seu modelo assumido era Alexander Luria, o neuropsicólogo soviético que foi pioneiro nos relatos desenvolvidos de casos particulares. Sacks tornou-se um personagem da cultura popular, o que também lhe valeu críticas públicas – nomeadamente, a de que explorava os seus doentes. Mas os seus relatos são sempre escritos com humanidade e simpatia. Morreu ontem, de um cancro que, tendo começado num olho há dez anos, se espalhou inesperadamente para o fígado e o cérebro. O próprio Sacks contou a história, e memórias de outro tipo, em três textos elegíacos que publicou este ano na imprensa.