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“Vejo-me quase como uma arma”

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O rosto fecha-se quando Vhils fala da sua geração: “O país esqueceu-a”, lamenta

Rui Soares

É um dos artistas portugueses em maior ascensão internacional. Esculpe e explode paredes, faz vídeos para bandas como os U2, quer experimentar o cinema. Mas é como ativista que se realiza, dando rosto e voz a comunidades oprimidas e esquecidas

Esta conversa estava combinada desde janeiro, mas só aconteceu agora porque o homem não para quieto. Tanto está em Londres, a inaugurar uma exposição na galeria Lazarides, que representa alguns dos artistas mais conhecidos da arte urbana — Banksy acima de todos —, como em Kiev, a imortalizar numa parede o primeiro jovem ucraniano morto nos protestos da praça Maidan. Assume-se como artista e ativista, “uma arma” ao serviço das comunidades esquecidas. Dá rostos à exclusão social, das favelas do Rio de Janeiro à China. Agora, quer também dar voz a uma geração esquecida, a dele. A geração desprezada, das famílias fragmentadas, do talento desperdiçado, forçada a deixar o país por falta de oportunidades. Ele, que foi estudar para Londres, para a prestigiada Central Saint Martins, porque não conseguiu entrar em Belas-Artes, regressou a Portugal porque, entre várias razões, queria “dar espaço a outros artistas”. Tem um estúdio e uma galeria que empregam 14 pessoas, todas contratadas. Voltou para o Seixal, na periferia de Lisboa, onde nasceu há 28 anos e onde, aos 10, começou a interessar-se pelo graffiti. O seu trabalho saltou dos comboios e dos murais da Margem Sul para as galerias de arte e os museus. É um artista global e total, que já fez ilustrações para o Expresso, cravou rostos em paredes de todo o mundo e realizou um videoclipe dos U2. Seguir-se-á o documentário e o cinema, vontade que “anda a borbulhar há muito”. A revista “Forbes” considerou-o um dos 30 principais talentos no mundo das artes com menos de 30 anos. E, no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, o Presidente da República ordenou-o cavaleiro da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada. Começámos por aí a conversa, que decorreu em São Miguel, nos Açores, durante o festival de arte pública Walk & Talk, que terminou no início do mês. Alexandre Farto, conhecido no mundo da arte como Vhils, voltou a Rabo de Peixe, uma das zonas mais pobres da Europa, pegou num barco com mais de 40 anos, salvou-o do abate e fez dele uma obra de arte que é também uma homenagem a esta comunidade piscatória. Pelo menos por uns dias, conseguiu colocá-la de novo no mapa.

No 10 de junho, depois de ter sido condecorado pelo Presidente da República, escreveu uma nota no Facebook a explicar por que razão aceitou a distinção. Sentiu necessidade de se justificar?
Não sinto que tenha sido uma justificação. Foi mais usar aquele momento para conseguir transmitir o que pensava. Como é óbvio, questionei o porquê desta condecoração e o aproveitamento político que poderia existir. Depois de uma semana de grande debate interno, a pensar se devia aceitar ou não, concluí acima de tudo que era um reconhecimento do país. Conhecendo as dificuldades que os artistas têm, e ainda mais sendo de uma geração que muitas vezes não é valorizada, senti um grande peso em não aceitar a condecoração. Mas não deixo de dizer aquilo que penso, e isso foi claro no comunicado que fiz.

Houve quem o aconselhasse a não aceitar?
Alguns amigos sim. Eu próprio, no início, estava de pé atrás.

Isso deveu-se ao facto de o Presidente ser Cavaco Silva? Que opinião tem dele?
Não acho nada saudável que o país tenha uma pessoa na vida política há tantos anos. Desde que nasci que o vejo na televisão. A democracia saudável deve ter uma renovação mais regular. Além disso, não esqueço todas as políticas que ele teve no passado em relação à cultura, maltratando artistas e escritores, por exemplo.

A condecoração surpreendeu-o?
Surpreendeu-me pela passividade que [o Presidente] teve em relação a muitas políticas que acabaram por isolar ainda mais a minha geração, a geração “à rasca”, dos jovens entre os 20 e os 35/40 anos. Mas também me surpreendeu porque, pela primeira vez, foram reconhecidas pessoas mais jovens, quase em início de carreira, quando até então estas condecorações eram quase de consagração. É de louvar, mas também percebo que houve algum aproveitamento político. Mas negar a condecoração era nem sequer ser ouvido, e eu tinha a oportunidade de falar sobre todas estas questões, pela responsabilidade que o reconhecimento me dava.

Disse que aceitava o prémio em nome da “geração mais qualificada de sempre que se vê forçada a emigrar por falta de oportunidades”. Chamou-lhe a geração desprezada.
Os decisores têm discriminado esta geração, que é, na sua maioria, precária. O mercado de trabalho não a absorveu, empurrando muitos jovens para fora do país. Isso faz com que não consigam subir na escada social nem encontrar espaço dentro dos poderes de decisão. É uma geração que tem sido penalizada, porque ninguém tem interesse em representá-la, porque não vota, porque se está a ir embora, porque cada vez é menos no país. Porque o Estado, que a devia proteger e valorizar, a esqueceu. Cria-se assim um ciclo vicioso em que ela não participa no país nem o país conta com ela.

Se olharmos, por exemplo, para os gregos, os jovens portugueses não estarão também um pouco anestesiados?
Não se pode chamar anestesiada a uma geração que está na situação em que está e que vai à luta, vai para fora, procura o seu espaço. Mas esta situação não é um exclusivo português, é algo que acontece em todo o Sul da Europa. Tem muito a ver com a imaturidade das democracias do Sul da Europa. Muitas não têm o mesmo tempo que as democracias nórdicas e da Europa Central. Depois, a Europa do Sul nunca conseguiu criar o seu caminho. O que fez foi copiar um modelo que funcionava no Norte da Europa, mas não vai funcionar aqui, porque são realidades diferentes. A tradição não é a mesma, a cultura não é a mesma, o clima não é o mesmo, o contexto em que vivemos é completamente diferente. Os países não têm espaço para se adaptarem à sua própria realidade. Esta padronização é o grande problema da Europa.

É comunista?
Não.

Mas é um homem de esquerda?
Sou. Estive nos protestos em frente ao Parlamento, não tenho quaisquer complexos em relação ao facto de ser de esquerda. Tenho uma grande influência do meu pai, que foi militante da UDP. Sou também um pouco o produto de uma geração frustrada, a do 25 de Abril, que nunca conseguiu aquilo que idealizou. Não vivi esse período, mas não deixou de me tocar, pela mágoa, pela desilusão... Hoje percebo que muitos desses dogmas e dessas bandeiras políticas funcionam contra o próprio país.

É verdade que em miúdo quis ser político?
Sim, mas com a idade já me arrependi [risos]. Sempre estive muito atento, se calhar por influência do meu pai e da minha família. Estive envolvido em vários projetos e associações e participei em protestos, manifestações e ações de guerrilha artística na rua. Mas cheguei a uma altura em que percebi que gritar não bastava, não havia quem me ouvisse. Então, a única forma era pôr as mãos à obra e fazer coisas. Se não nos dão espaço, temos de o criar. Foi por isso que criei o estúdio e depois a galeria, a Underdogs, para dar espaço a artistas portugueses que não foram agarrados pelo circuito de galerias. É isso que me dá força. Estou a preparar outros projetos, como a Solid Dogma, uma agência criativa que vou montar com o Pedro Pires.

Vai apostar mais no vídeo?
Quero investir mais em documentário e cinema, e é possível que isso aconteça mais tarde ou mais cedo. O cinema permite contar uma história de início ao fim e passar uma mensagem que não se consegue de outra maneira. Daí essa necessidade, que já anda a borbulhar há uns anos, mas achava que não tinha ainda a maturidade para o fazer, não só tecnicamente mas também como artista. Finalmente, acho que está a chegar a altura. Mas para isso preciso de desligar de tudo o resto durante algum tempo.

Em Rabo de Peixe, 
na oficina onde, com a sua equipa e habitantes locais, transformou um velho barco numa obra de arte

Em Rabo de Peixe, 
na oficina onde, com a sua equipa e habitantes locais, transformou um velho barco numa obra de arte

Rui Soares

Quantas pessoas trabalham consigo?
No ateliê são oito pessoas, todas contratadas. Na galeria são mais seis.

Como é que se gere o equilíbrio entre o seu trabalho de ativismo e, ao mesmo tempo, uma estrutura comercial que garanta o sustento de 15 pessoas?
Com pragmatismo. Organizei essa estrutura para poder sustentar o lado do ativismo, que para mim continua a ser o mais importante. É preciso ser autossustentável para ser independente. Estava farto de lutar para fazer coisas com apoios, sejam estatais ou privados, e de perceber que muitas vezes acabava por ser utilizado. Se criasse o meu próprio caminho, podia fazer as intervenções que quisesse sem qualquer pressão. Muitos desses trabalhos nem sequer têm financiamento. O dinheiro vem sobretudo das exposições, das vendas de obras de arte ou das edições.

Mas poderá haver quem pense que usa os projetos sociais para ter mais notoriedade e assim vender mais.
O meu sentido sempre foi o contrário. O mercantilismo não é coisa que me interesse. O que me interessa é poder fazer os meus projetos de maneira autónoma e tocar as pessoas. A economia, a forma como os Estados estão organizados, tudo isso só faz sentido quando é em prol das pessoas. Como é óbvio, o fator monetário é importante para ter sustentabilidade, mas o que realmente dá força à equipa é o facto de estarmos envolvidos nestes projetos.

Esta entrevista não teria sido possível há cinco ou seis anos, quando se mantinha mais afastado da imprensa. O que mudou?
Raramente dou a cara, prefiro que o foco fique no meu trabalho. O trabalho artístico nunca foi uma ferramenta para ter atenção. Mas, se essa atenção acontece, tento dirigi-la para o trabalho. Ele fala mais do que eu. O que faz sentido para mim é utilizar a arte para pôr foco em alguns assuntos, ou para ter projetos em que integro a comunidade onde essa arte é feita. Mas também estou mais aberto a dar entrevistas como esta porque me farto um pouco de ver uma série de coisas a acontecer no país que me fazem ter vontade de expressar o que penso, o que muitas vezes é complicado de fazer através da arte.

A arte é a sua forma de fazer política?
Não sei se é a minha forma de fazer política, mas é a maneira de exprimir as minhas preocupações, as minhas frustrações, lágrimas, suor... É onde eu ponho tudo. E isso vai refletir as minhas preocupações políticas. Mas não vejo o que faço como uma arte política ou politizada. Vejo-me mais quase como uma arma, uma ferramenta, que dou à comunidade. É um trabalho de ativismo, de pôr o dedo na ferida, de mostrar realidades negligenciadas. O que me move, a minha gratificação vem do impacto que isso tem nas pessoas. É isso que me dá alento para continuar.

Encararia a hipótese de exercer a política ativamente, num cargo público?
Não, essa forma de estar na política não me seduz. O que me seduz é fazer algo por esta geração, mesmo sendo eu uma gota num oceano.

É possível não se deixar corromper um pouco por todo este reconhecimento?
É. Nada mudou, continuo a fazer o mesmo que faço há quase 10 anos. Mas é complicado começarmos completamente ilegais, sermos anti status quo e, mais tarde, sermos aceites, mesmo quando somos abrasivos, quando criamos arte que destrói ou que trabalha muito sobre o vandalismo, como o graffiti e a arte de rua, ou quando ajudamos pessoas que estão invisíveis. É uma luta interna.

Essa abertura a manifestações artísticas que antes eram mais marginalizadas não pode ter um efeito inverso? Ao tornarem-se mais aceites, não podem perder força?
Não é por sermos mais aceites que deixamos de ser antissistema. O graffiti, por exemplo, continua a ser ilegal, mas é feito em todo o lado e está de boa saúde, o que torna as nossas cidades um bocadinho mais interessantes. O espaço público ainda é o único espaço que não está controlado, que é verdadeiramente democrático e onde, com alguns riscos, se pode passar uma mensagem.

Os seus pais também influenciaram a sua consciência artística?
Não diretamente. A minha família não tinha nada a ver com as artes. O meu pai é contabilista e a minha mãe é professora de matemática. Cresci com os cartazes nos murais da Margem Sul, muitos deles queimados pelo sol e já a cair de podres, e interessei-me por eles. Mas também teve um pouco a ver com o facto de o meu pai ter feito jornais de parede. Isso sempre me estimulou visualmente.

O graffiti surgiu por rebeldia ou para combater o tédio?
Era uma mistura dos dois. Começou muito por rebeldia, ligado ao contexto em que cresci. Mas foi muito importante para mim, para a minha autoestima. Deu-me confiança, um caminho, algo que dificilmente a escola pública me poderia dar. Foi quase como uma escola ilegal. Aprendi muito sobre pintar, sobre metodologia de trabalho, sobre organização... Por exemplo, era preciso saber a que horas os comboios paravam ali. Depois fui aprofundando o meu olhar sobre o espaço público e experimentando coisas novas. Percebi que, mais do que simplesmente estar a afirmar-me pessoalmente, permitia-me dizer mais coisas, ter uma mensagem, uma intervenção.

Porquê os comboios?
Têm muito a ver com o início do graffiti. As primeiras imagens que vi de graffiti em fanzines eram em comboios de Paris e de Nova Iorque, por exemplo. Houve sempre esse fascínio. Depois têm muito a ver com o próprio crescimento da urbe. Não tens graffiti sem cidade e não tens cidades sem graffiti. Na minha zona, a chegada do comboio foi quase como se tivesse caído uma bomba no meio de Lisboa e essa onda de choque chegasse ao subúrbio e estivesse a mudar todo aquele espaço onde eu tinha crescido. Além disso, podes pintar o comboio numa parte da cidade e depois ele passa por uma cidade inteira e vai até à outra margem. Não é bem o mesmo do que uma parede.

Nunca foi apanhado?
Uma vez. Era um muro abandonado, os polícias saíram com os cassetetes, deram-nos umas panadas... Depois fomos só identificados.

Os seus pais sabiam?
Sim, descobriram cedo. No início não eram muito a favor, o graffiti não era uma coisa bem vista. Hoje em dia apoiam-me. O meu trabalho não tem a ver com graffiti, mas nunca deixei de pintar e de estar junto das pessoas com quem comecei. É uma necessidade, acalma-me.

Com 17 anos, ainda antes de acabar o secundário, já trabalhava com a galerista Vera Cortês. Mas não conseguiu entrar em Belas-Artes. Acabou por ir para Londres.
Antes tentei fazer design na Ar.Co e, mais tarde, animação de vídeo na Restart, mas deixei os dois a meio e fui para Londres. Fiz os primeiros dois anos na Saint Martins, que foi muito importante nos recursos, nos materiais, mas não acabei o terceiro ano, porque surgiu aquele projeto com o Banksy...

Apareceu em destaque na primeira página do “Times” a esculpir um rosto ao lado de uma obra dele. Mudou-lhe a vida.
Foi, sem dúvida, um momento muito importante. Nos dias seguintes recebi logo uma série de convites e de contactos de galerias. Comecei a fazer imensos projetos.

Vhils regressou ao país quando muitos emigravam. Quis criar algo
que pudesse ajudar outros artistas

Vhils regressou ao país quando muitos emigravam. Quis criar algo
que pudesse ajudar outros artistas

Rui Soares

Pouco depois, voltou para Portugal. Porquê?
Primeiro, porque não estava muito tempo em Londres. Andava a viajar bastante e percebi que, no mundo global em que vivemos, podia ter a minha base em qualquer sítio. Depois, muitos elementos da minha equipa em Londres eram portugueses e estavam com vontade de regressar. Nessa altura, há cinco anos, a convulsão social em Portugal era grande. Ver que muitos dos amigos que começaram a pintar comigo não tinham oportunidades, nenhuma galeria de arte contemporânea pegava neles, deu-me vontade de voltar, criar o estúdio e fazer projetos em Lisboa, como a galeria ou as edições, que abrissem espaço para essa comunidade. E também trazer artistas de fora para darem à cidade o programa de arte pública que temos estado a fazer.

Hoje é mais fácil intervir no espaço público?
Há uma abertura que não havia há uns anos. Lisboa é um caso interessante. Quando há artistas que querem fazer algo pela cidade, não se pode desperdiçá-los. Pode-se não os entender, mas não se pode vê-los como parte do problema. Devem ser parte da solução, ter espaço na cidade para trabalhar. Em Lisboa, houve abertura para esses artistas, e isso tornou a cidade mais interessante. Mas o lado ilegal nunca vai desaparecer. E ainda bem. O inesperado, o fator surpresa, a disrupção são muito importantes neste tipo de arte.

Por que é que decidiu esculpir rostos nas paredes?
Tem muito a ver com a ideia de humanizar o espaço público e criar essa relação com o cidadão. Desumanizámos o meio em que vivemos, e a ideia é tornar visível o invisível, pegando em tudo o que está escondido por trás das camadas que se vão acumulando nas paredes. Primeiro foram os murais na época do 25 de Abril, depois o boom da publicidade nos anos 90, a seguir o graffiti... e depois as Câmaras Municipais começaram a pintar tudo de branco. Estas camadas vão-se sobrepondo, e apeteceu-me esgravatar, revelando o que estava escondido. Esse conceito conduziu à picotagem, que está presente no meu trabalho “Scratching the Surface”.

E os explosivos, como surgem?
O salto para as explosões surgiu por volta de 2010, numa altura em que se estavam a sentir as primeira fricções na Europa. Quis criar uma metáfora para tudo aquilo que nos parecia tão distante como o protecionismo, como a visão da Europa, como uma série de coisas que surgiram com a crise. Bastava uma pequena fricção, uma pequena faísca, para de repente fazer rebentar todas essas camadas que se foram acumulando e revelar as que estavam escondidas desde os anos 70. Todos esses pensamentos que pareciam esquecidos, de repente estavam ali a três ou quatro centímetros de distância. Foi aí que surgiu a ideia de usar explosivos.

Como é que chegou ao processo?
Comecei a experimentar na Fábrica de Braço de Prata. Foi muito difícil conseguir explicar às pessoas, tanto pirotécnicos como pessoal de vídeo, que queríamos rebentar a parede para criar algo. Os pirotécnicos ajudaram-me a fazer os primeiros testes. Usámos pólvora comprimida. A parede teve de ser toda despida, tirou-se o estuque, reforçou-se com mistura de cimento, muito mais forte. A imagem era cravada, depois aplicávamos os explosivos e tapávamos com estuque por cima. Quando rebentava, saía o estuque, mas o cimento ficava.

A primeira peça com esse método deu origem a um videoclipe dos Orelha Negra, ‘M.I.R.I.A.M.’, que realizou.
O vídeo não era sobre o trabalho, era o trabalho. Para mim, a peça não era o resultado final, era sobre captar o momento em que a parede explodia e a peça aparecia. Isso só era possível com o slow motion.

Quando é que começou a interessar-se pelo vídeo?
Comecei muito cedo, sempre gostei imenso de cinema. Fiz um curso de animação, fiz muita coisa em motion graphics, depois comecei a filmar também. O vídeo dos Orelha abriu caminho para uma série de coisas.

Como o videoclipe de ‘Raised by Wolves’ que realizou para os U2. Ouvia a música deles?
Acho que toda a gente ouviu U2, querendo ou não [risos]. Sempre ouvi de tudo um pouco, não apenas hip-hop. Desde soul dos anos 60, 70, a funk, Carlos Paredes, Kusturica, música dos Balcãs... Nunca fui muito fechado. Mas, sim, tenho presentes todos aqueles hits que os U2 fizeram nos anos 90, mas também a preocupação que eles têm tido em usar a música como algo que pode ajudar muitas pessoas. Essa postura não era a norma, e isso é de louvar. Mas nem sempre foram bem interpretados.

Hesitou quando recebeu o convite?
Questionei se era uma associação que fazia sentido, e concluí que sim. O trabalho é válido, o facto de chegar a tantas pessoas significa também que toca muita gente. Isso não tem de ser mau.

Falou diretamente com a banda?
Sim, a relação com eles foi impecável, não foi uma coisa distante.

Por que é que um jovem que vem de Londres decide instalar-se de novo no Seixal?
Porque estou próximo da família e porque tinha vontade de fazer alguma coisa por aquela zona, o que não tem sido fácil. É um sítio que contrasta um pouco com toda essa globalidade, esse andar a fazer projetos de um lado para o outro. E tem um potencial do caraças.

Os seus planos passam por continuar a viver lá?
Por enquanto sim, mas há a hipótese de ir para Lisboa, porque o trânsito nem sempre é fácil. Mas quero estar sempre ligado ao Seixal.

Lisboa é uma cidade muito diferente da que encontrou há cinco anos?
Completamente. Tem muito mais gente, houve um boom gigante com o turismo, com tudo o que isso traz de bom e de mau. É, por exemplo, mais um fator de discriminação em relação à minha geração, porque faz aumentar os preços dos bens, das rendas. Agora é muito mais difícil viver no centro de Lisboa.

A cidade tem turistas a mais?
Ainda não chegámos ao extremo a que se chegou noutras cidades, mas o desequilíbrio pode começar a ser visível. Isso pode levar a que as pessoas fiquem antagonizadas em relação aos turistas, como aconteceu em Roma ou em Paris. O turismo só existe porque existem coisas únicas em Lisboa, e isso tem de se conservar. Mas é incrível a projeção que Lisboa tem hoje. Não é comparável com a que havia há cinco anos.

Em que é que está a trabalhar agora?
Em muita coisa. Tenho estado, por exemplo, a desenvolver trabalho novo no estúdio e a preparar quatro exposições internacionais, em fundações e em museus. É nisso que me quero concentrar nos próximos dois anos e meio. Duas vão ser em Pequim e Xangai, as outras não estão ainda fechadas, mas será uma na Europa e outra nos EUA. É uma continuação do trabalho e da reflexão que fiz na exposição no Museu da Eletricidade [a mais vista de sempre naquele espaço], mas quase todo o corpo de trabalho é novo. A ideia é trabalhar cada local, o seu contexto e a sua identidade, mas com uma reflexão global, sobre a urbe e a forma como essas diferenças se estão a diluir. Depois, quero continuar a ter tempo para estar no terreno e utilizar a arte como foco para situações que, para mim, são relevantes.

Entrevista publicada na edição de 15 de agosto da revista E