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No mundo de Le Corbusier, o arquiteto estrela

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Le Corbusier no ateliê de Paris, Rue de Sèvres, onde viveu parte da sua vida

Michel Sima/Getty

Le Corbusier inventou uma nova gramática para a arquitetura moderna, marcou gerações de arquitetos e foi considerado uma das figuras do século XX. Morreu afogado no Mediterrâneo, em Roquebrune-Cap-Martin, faz esta semana cinquenta anos. Quatro arquitetos portugueses prestam-lhe homenagem em testemunhos exclusivos que aqui publicamos

Na manhã do dia 27 de agosto de 1965 Charles-Édouard Jeanneret - o arquiteto que nasceu na Suíça, em 1887, viveu parte da sua vida em França e escolheu chamar-se Le Corbusier - desceu até à enseada em frente ao Cabanon, a cabana, onde passava os meses de verão, de Roquebrune-Cap-Martin, o seu refúgio de verão no Sul de França, e entrou na água. Tinha 77 anos, sofria de insuficiência cardíaca, fora proibido pelo seu médico de mergulhar, ele que adorava nadar. O apelo de Mediterrâneo, onde décadas antes numa viagem de juventude tinha absorvido fascinado a cultura clássica e por isso se fizera arquiteto , foi mais forte do que ele.

O corpo foi encontrado horas mais tarde por banhistas. Roquebrune-Cap-Martin, a vila dos Alpes Marítimos perto do Mónaco, onde se encontram os túmulos de Le Corbusier e de Yvonne Gallis, a mulher, rapidamente se tornou num lugar de peregrinação dos seus seguidores do mundo inteiro.

O polémico Le Corbusier - que afirmou que “uma casa é uma máquina de habitar”, glorificou o betão e decretou "morte à rua" - amado, odiado, venerado, polémico e global, tornou-se numa das figuras incontornáveis do século XX. Escreveu manifestos, publicou livros, criou doutrina, projetou, desenhou peças de mobiliário, construiu casas, fez planos de cidades e deixou uma obra imensa e milhares de seguidores.

Portugal, não escapou ao efeito Le Corbusier. Nos testemunhos que se seguem quatro arquitetos consagrados e de gerações diferentes - Álvaro Siza Vieira, Nuno Porta e João Luís Carrilho da Graça - refletem sobre a marca do mestre e explicam algumas das suas peças iconográficas.

Todos temos impresso o impacto Le Corbusier. Quando entrei para a Escola de Belas Arte do Porto, com 16 anos, em 1949, já se lutava por uma modernidade. Naquela altura, falar em arquitetura moderna era quase como dizer que se era comunista.

Onde o Le Corbusier me impressiona profundamente é quando eu começo a trabalhar, em 1954, praticamente na mesma altura em que aparece a capela de Ronchamp, em França. Naquela altura começa a haver um certo desgosto com o International Style e a forma de construir em França, com todas aquelas regras codificadas na Carta de Atenas, consideradas demasiado rígidas e ele é muito criticado.

Ronchamp é um pontapé em todos os princípios defendidos por ele ao longo de décadas. Quando é construída os ortodoxos corbusianos estremecem. Há nesta obra uma citação evidente às viagens de juventude a Itália, numa abóbora que ele desenha quando visita Vila Adriano e também uma citação às construções árabes, num esquisso de uma outra viagem ao Norte de África, onde aparece o mesmo desenho das chaminés de entrada de luz de Ronchamp, que na arquitetura tradicional árabe era o sistema de ventilação.

É aqui que a sua tremenda sensibilidade se revela. Ao longo da sua vida ele trabalha em lugares onde a tecnologia não chega, sabe que tem de contar com os artesão, e soube criar um corpo único entre aquilo que é pensado no projeto e as mãos que o constroem. Romchamp, tem talvez o betão mais mal acabado que eu já vi e também o mais maravilhoso. E é nisto que é espantoso: conjuga um aspeto de autenticidade e realismo absoluto com um conhecimento universal. Ao atravessar as cidades, se semicerrarmos os olhos, quem domina é a orientação de Le Corbusier.

Hemis / Alamy

Outra visita emocionante, que fiz à sua obra, foi ao Cabanon, o refúgio de Cap-Martin. O que é extraordinário, é que ele pega numa cabana, que era do dono do restaurante, onde ele almoçava todos os dias, começa por alugar e depois convence-o a vender. É um espaço pequeníssimo. As poucas coisas que há - uma cama, uma mesa, uma cadeira - foram feitas por ele com um carpinteiro local. Quase que juro que ele martelou. Tudo ali é de uma essencialidade total e para nós, quando o visitamos, essa autenticidade ainda é mais exaltada, por ser o quarto onde ele dormiu.

Conseguimos sentir o que representou o Cabanon para aquele homem e é impressionante pensar que foi aquele sítio que escolheu para morrer.

Nasci em 1929 e quando fui para arquitetura, não sabia nada de artes e ainda não pensava o que é habitar. Entrei na Escola de Belas Artes de Lisboa em 1947 e lembro-me bem da primeira vez que ouvi falar de Le Corbusier. Foi um colega, o Zé Pedro Martins Barata, pôs-me na mão um livro do Le Corbusier, não me lembro que livro era, mas o impacto foi enorme. O que desenvolveu a minha paixão pela arquitetura foi o contacto com a linguagem moderna, de uma arquitetura em que entrasse a luz e o sol e aquela mensagem de vida nova.

Só muito mais tarde li os livros vários livros dele, onde desenvolveu aquelas teses dos prédios sobre pilotis, da poluição e da separação de trafego dos lugares de habitar, onde falava da desvinculação da separação de funções entre as zona de habitar, trabalhar, recriar, coisas que tradicionalmente sempre existiram. Em tudo isto foi pioneiro e também provocou muitos maus exemplos.

Em Portugal, o Bloco das Águas Livres (1953-1955), a obra que colaborei com Nuno Teotónio Pereira quando ainda andava na Escola e me deu o gosto da habitação social, tem muita influência do Le Corbusier, sobretudo nas zonas programáticas. Não tem escadas interiores, só tem escadas de serviços e que comunicam por galerias abertas, pretendia ser um complexo habitacional com serviços comuns, escritórios, terraço para festas, também aquecimento era comum e previa-se um serviço de portaria 24 horas, como se fosse um aparthotel. O sentido era dar um conforto e realmente resultou. As pessoas que ali viveram, e as que ainda vivem, sentem que não habitam uma casa normal mas que parte de um conjunto.

A primeira vez que visitei a Unidade de Habitação de Marselha foi em 1962. Antes disso já tinha ido a Paris para ver todas as obras do Le Corbusier. Foi nessa viagem que percebi que era um artista muito completo. Além de arquiteto era pintor, teórico do urbanismo e designer. As coisas dele são muito bonitas porque estão imbuídas daquele espírito de clareza dos anos 20 e dos anos 30, que têm todos os pioneiros do movimento moderno.

Todas aquelas coisas polémicas que afirmou, como a "casa ser uma máquina de habitar", etc., etc, não me causaram impressão. Ainda tenho a ambição de ir ver Chandigarth, a cidade que construiu para ser a capital do no Punjab, depois da independência na Índia. Acho o plano de Chandigarth lindo, com aqueles verdes que caminham dentro de uma quadrícula.

Vova Pomortzeff / Demotix

Mas obra de arquitetura moderna mais extraordinária que eu já vi, foi a Igreja de Ronchomp. Estava para a visitar há muitos anos, mas só consegui em 2000, numa viagem de estudo onde levei os meus alunos. Foi inesquecível. Saímos de Lisboa de camioneta até à Suíça e passámos em França. A igreja fica num alto, num morrozinho, e não tem não tem nada à volta. Éramos cinquenta e tal alunos e oito professores, tínhamos ido ao supermercado comprar comida para fazer um piquenique, a camioneta chegou lá pelas onze da manhã, estava um dia de primavera maravilhoso e entramos para visitar a capela. Uns deitavam-se no chão, outros desenhavam, outros olhavam em silêncio. Houve uma aluna que me disse que depois de ver aquilo já não era a mesma pessoa. Toda a gente que entra ali, cala-se. Fica siderada com aquele silêncio, com a luz que entra e se projeta nas cores dos vitrais. Nunca esperei aquilo. Estava a espera de encontrar uma capelinha, fui encontrar uma catedral.

Nessa noite, quando telefonei à minha mulher, que tinha ficado em Lisboa, a contar o que tinha visto, a minha voz embargou-se a voz. Nunca conseguia falar daquilo de uma maneira não comovida. Isto é o Le Corbusier.

Foi um tipo fortíssimo. Mas morreu em 1965 e depois acabou. Quando comecei a trabalhar, a minha geração, dos anos 60, já contestava muitíssimo o Le Corbusier. As doutrinas da Carta de Atenas, aquela forma de fazer cidades em todo o mundo como se fosse tudo igual....

Ele marcou muito a habitação do século XX com os grande blocos que se construíram depois da II Guerra. Quando fui visitar Marselha, a célebre Unidade de Habitação do Le Corbusier, achei uma coisa duríssima. Anos mais tarde, quando voltei, como júri de um concurso, já só lá viviam arquitetos e professores. Os tais inquilinos da habitação social, para quem tinha sido pensado o projeto, tinham todos fugido. Os franceses o que queriam era casas com quintal, e não um terraço com jardins, no décimo quinto andar. Toda essa politica de habitação, dos edifícios-cidade, pensados por Le Corbusier, e depois seguida pelos seus discípulos, um pouco por toda a parte, foi muito contestada sobretudo pelos sociólogos.

Jean-Paul Pelissier / Reuters

O projeto em que ele foi muito importante foi o da India, de Chandigarth, o último projeto antes de morrer e no qual alterou tudo aquilo que defendia antes. As pessoas que o seguiam com devoção, não entenderam bem esta obra, mas eu entendi. Aí fez um projeto de espaço público, com vias, ruas e espaços verdes. Na verdade tudo aquilo a que se tinha dedicado - os grandes edifícios oficiais, as obras enormes, pesadíssimas - ali foi posto de lado, criando um projeto para a cidade muito simples, muito coerente, fazendo uma malha já como se fazia no século XIX, e que ele toda a vida tinha negado.

Não sou propriamente um corbusiano. Uma vez, em Paris num jantar onde se falava de tudo, quando apareceu o tema Le Corbusier ficou tudo gelado. Isto foi nos anos oitenta, onde o Corbusier era uma espécie de bíblia, mas também havia uma movimento muito crítico em relação ao modernismo. Embora já não tenha recebido a influência dele quando comecei a trabalhar no principio dos anos 80, dei sempre uma grande atenção ao movimento moderno, ignorando a corrente mais forte daquela época a corrente do pós-modernismo.

O Le Corbusier tem uma coisa muito interessante. Faz experiências em quase todo o movimento moderno e, nesse sentido, é uma espécie de enciclopédia do movimento moderno. Constrói a possibilidade da arquitetura nova, utilizando tecnologias bastante avançadas, poderá até ter contribuído para o desenvolvimento de algumas, como betão armado, a utilização do aço e do vidro. Isso funda uma possibilidade. O movimento moderno tem um sentido mais ou menos heroico, uma espécie de conjugação de boas vontades para reconstruir o mundo de uma forma mais justa e mais equilibrada para toda a gente.

Se falássemos de artistas, o Le Corbusier, é como se fosse o Picasso dos arquitetos. É um arquiteto tão universal e decisivo como o Picasso, ele é um personagem exuberante, com histórias, teorias e tomadas de posição sempre extraordinárias.

Architectural Photography / Alamy

Uma das obras da arquitetura que mais me impressionou foi Villa Savoye. É completamente universal. Visitei-a há cerca de dez anos. Era é como se estivéssemos a visitar uma instalação artística, nunca senti isto muitas vezes numa obra de arquitetura, uma espécie de experiência global, em que somos agarrados desde o momento em que vemos ao longe o edifício e depois somos conduzidos a ele como uma espécie de atração. Quando subimos e entramos, o espaço provoca emoções fortíssimas e únicas na arquitetura. Isto acontece por causa das rampas, das aberturas, das possibilidades que são dadas a ver e de coisas tapadas, de espaços pequenos e vistas alargadas, pátios, e divisões de tridimensionalidade dadas pelos vários volumes e diferentes alturas dos tetos e depois chegamos ao o terraço. Tudo aquilo é organizado de uma forma muito intensa e muito cuidadosa.

O mais extraordinário em Le Corbusier, talvez seja essa capacidade que ele tinha de ir das escalas mais alargadas, quando propõe coisas para toda a gente, até às coisas mais pequenas, mais íntimas, com materiais muito bem escolhidos, onde as mãos tocam. Todos esses espaços tem um sentido tátil e uma ressonância extraordinária.