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“No Corvo não há estradas”, mas há um caminho onde os carros matam

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O tempo estava bom e não havia trânsito nos seis quilómetros que ligam Vila Nova do Corvo ao Caldeirão. Apesar disso, um acidente matou uma turista portuguesa e fez seis feridos. Conheça a rotina destes passeios e saiba o que pode ter sucedido ao condutor

O Corvo é um laboratório. Um rochedo espesso e nú que nos ensina a pensar na resistência do homem para sobreviver isolado e em comunidade durante séculos. Foi aqui, neste laboratório de 17 km2 e uma rodovia de seis quilómetros, que na última segunda-feira um trágico acidente de automóvel vitimou uma portuguesa de 33 anos que estava de férias nesta reserva da biosfera.

Sabemos que o acidente aconteceu por volta das 15h locais [uma hora menos do que no território continental] e que o grupo de turistas tinha chegado à ilha nessa manhã, depois de ter feito a travessia de barco a partir das Flores. O grupo ia de “Vila do Corvo para o Caldeirão”, como comunicou ao Expresso o presidente da Câmara do Corvo, José Manuel Silva. O autarca comunicou ainda que o “condutor da carrinha tinha 19 anos”, e que os visitantes “já tinham almoçado” num dos três ou quatro restaurantes que existem em Vila do Corvo.

Sabemos que o tempo estava bom e que o acidente só pode ser explicado por uma falha no veículo ou algo grave que se tenha passado com o condutor. Na ilha, correm rumores sobre a diabetes de que poderia padecer o jovem, e que lhe poderá ter provocado um desfalecimento momentâneo. Estes rumores só poderão ser esclarecidos quando as autoridades concluírem o inquérito.

Nos meses de verão, há muitos turistas que desembarcam em Vila Nova do Corvo em barcos como este

Nos meses de verão, há muitos turistas que desembarcam em Vila Nova do Corvo em barcos como este

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A rotina dos passeios turísticos

O seu a seu dono: a primeira frase do título deste texto é de Raul Brandão, nome maior da literatura portuguesa, que desembarcou no "Corvo espesso e nú", a bordo do São Miguel, a 22 de junho de 1924. Noventa anos depois, a mais pequena ilha do arquipélago dos Açores já tem uma estrada asfaltada que liga Vila do Corvo ao Caldeirão, e mais uns quilómetros de ruas dentro e à volta da terra. E tem também um aeródromo desde 1983.

Nos apressados tempos que vivemos, há poucos turistas que podem fazer lentas, saborosas e longas viagens como aquela que permitiu a Raul Brandão escrever um diário de viagem que foi publicado em 1926 com o título “As Ilhas Desconhecidas”.

Mas quem gosta de natureza, pássaros e vulcões continua a ir ao Corvo. E quem gosta de pessoas também, apesar de a ilha só ter 425 habitantes de acordo com o último Censo. Porque é preciso gostar de gente para entender aquela forma de vida que Gonçalo Tocha nos mostra no premiado documentário "É na Terra não é na Lua".

No verão, quando o mar permite, as lanchas que transportam oito a dez passageiros, desde Santa Cruz das Flores, atracam no Corvo ao fim da manhã, depois de uma travessia magnífica onde se avistam peixes, golfinhos... e, com mais sorte, baleias.

Outros, os que por medo do mar ou falta de tempo perdem esta experiência, aterram no pequeno aeródromo que (também) permite evacuar doentes e feridos com rapidez, como aconteceu esta segunda-feira.

O aeródromo quebrou parte do isolamento dos corvinos. Foi ianugurado em setembro de 1983

O aeródromo quebrou parte do isolamento dos corvinos. Foi ianugurado em setembro de 1983

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18 professores e todos de fora

No início do século XX o Corvo tinha 800 habitantes; o sonho americano fê-los sair e deixar para trás os longos invernos isolados, em que barco algum tinha condições para atracar no pequeno porto, tal era a bravura do mar. Não era fácil sobreviver nesta ilha que já teve muitos nomes.

Os corvinos são gente brava. Solidários, conhecem a importância da comunidade para sobreviver. Nas décadas recentes, os avultados investimentos que foram feitos pelo Governo da Região Autónoma dos Açores permitiram criar infraestruturas que atraíram novos habitantes para o Corvo.

O médico, a enfermeira, o padre e os 18 professores que asseguram o funcionamento do ensino até ao 12.º ano são todos de fora, do continente ou de alguma das outras oito ilhas dos Açores. Alguns vieram para ficar; não devo ter sido a única viajante que quis saber a quem pertencia a imponente vivenda com cais quase privativo e um muro alto que a rodeia a toda à volta, e que se destaca do conjunto urbanístico que forma o aglomerado de Vila do Corvo. A resposta indicou-me que pertence a um destes ‘imigrantes’ que fizeram vida na ilha.

Cenas do quotidiano de Vila Nova do Corvo

Cenas do quotidiano de Vila Nova do Corvo

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A ilha dos escravos

Não se sabe ao certo quando foi encontrado o Corvo; mas sabe-se que na era henriquina era conhecida por ilha de Santa Iria. Nos anos que se seguiram foi também conhecida por Ilhéu das Flores, ilha do Farol, ilha de São Tomás e Ilha do Marco; conta-se que este nome resistiu porque havia um promontório batizado como a Ponta do Marco; admite-se que tenha sido aí colocado um padrão como era uso fazer-se nas terras descobertas.

Os registos informam que a ilha foi doada pelo rei Afonso V ao duque de Bragança, seu tio; a doação do Corvo e das Flores, as duas ilhas do grupo ocidental, remonta a 20 de janeiro de 1453.

Povoar revelou-se uma tarefa difícil. As duas ilhas eram longe e o mar bravo; os invernos longos e penosos. A primeira tentativa falhou; foi feita no início do século XVI, por um grupo de 30 pessoas, capitaneadas por Antão Vaz de Azevedo, oriundo da Terceira.

A segunda tentativa teve igual sorte. Foi preciso recorrer ao tráfico de escravos africanos para garantir o povoamento permanente do Corvo; em 1548, Gonçalo de Sousa, que era capitão do donatário das Flores e do Corvo, enviou para a ilha um grupo de escravos africanos que sobreviveram com grande dificuldade, devido à escassez de sementes para cultivo.

Os cuidados de saúde tardaram em chegar. Só em 1938 é que o Corvo teve um médico residente.

O ponto mais alto da ilha do Corvo fica no rebordo sul do Cadleirão, a 718 metros de altura

O ponto mais alto da ilha do Corvo fica no rebordo sul do Cadleirão, a 718 metros de altura

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Morrer para ver o Caldeirão

O passeio ao Monte Gordo é obrigatório para todos os visitantes da ilha; é ali que povoada por ilhotas e tufos de plantas se avista a cratera do vulcão, que todos conhecem por Caldeirão. Diz-se que estas ilhotas representam as outras ilhas dos Açores...

Noventa e um anos nos separam da memorável viagem as ilhas dos Açores que Raul Brandão iniciou a 8 de junho de 1924: “No Corvo, quando me sento à mesa, todos à mesma hora se sentam para jantar, e à noite não há desgraçado sem abrigo. Na verdade, não vi andrajos nem miséria. Ninguém pede esmola. Se um adoece, os outros lavram -lhe as terras”, escreveu.

Era assim a vida na ilha onde agora existem cerca de “20 quilómetros” de vias alcatroadas [informação retificada e precisada pelo autarca], mais de cem veículos, e acidentes que matam locais e visitantes. Mas a beleza mágica, rústica e agreste continua lá para quem a quiser descobrir.

Texto corrigido às 16h40 de 27 de agosto, depois retificação pedidas pelo presidente da Câmara do Corvo