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Viagra feminino. Mulheres e homens têm cérebros diferentes, amor e mimo contam muito

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As mulheres gostam de surpresas e de sentirem apreciadas pelos parceiros

ANTHONY HARVIE / GETTY IMAGES

Será que tudo na vida se resolve com pílulas mágicas? O Expresso ouviu a opinião dos especialistas sobre os prós e contras do Flibanserin. Saiba o que dizem e viaje até ao século XVI e ao relato de Garcia de Orta, que foi médico do rei, sobre a influência do ópio e da pimenta na atividade sexual

Imagine que vai na rua e lhe perguntam se acredita que a ideia de desejo é comum a todos os seres e culturas? Provavelmente responderá não. Talvez seja por isso que há especialistas e consumidores animados com a aprovação da autorização para comercializar o antidepressivo Flibanserin, agora conhecido por Viagra das mulheres, e outros, como o psicólogo clínico Américo Batista, para quem o novo medicamento só “vem criar uma necessidade” de consumo.

Santinho Martins, endocrinologista especializado na área da sexologia, é menos cético sobre os benefícios do comprimido cor-de-rosa: “Faz todo o sentido ter um medicamento como este, que atua ao nível do sistema nervoso central. Há uma grande percentagem de mulheres que não sente desejo”, e a testosterona era a única substância que “até aqui se utilizava para resolver este problema. Acontece que a testosterona tem problemas” colaterais que não são de somenos importância: potencia o nascimento de pelos e alterações na voz, por exemplo, que são “visíveis e desagradáveis quando ministrado em mulheres”.

Cérebros diferentes

“Os cérebros das mulheres e dos homens não são assim tão diferentes, mas o cérebro feminino tem as suas particularidades” que, entre outras coisas, determinam a emergência de uma maior “sensibilidade e uma capacidade para registar memórias que são importantes” para as mulheres, explica Santinho Martins. “É o caso de datas especiais”, cujo esquecimento por vezes gera conflitos, porque os homens não têm esse registo. “A capacidade de retenção de memórias é diferente nos dois géneros”, acrescenta.

“O que é que uma mulher costuma fazer quando está irritada” com o parceiro? Regra geral chora ou “grita”, enquanto os homens “utilizam mais o corpo. Há estudos sobre isto… ressonâncias magnéticas” entre outros, diz Santinho Martins, lembrando que “António Damásio menciona a questão dos impulsos sexuais serem diferentes nos dois géneros”.

As mulheres zangam-se quando os homens se esquecem das datas especiais

As mulheres zangam-se quando os homens se esquecem das datas especiais

DR

Na perspetiva de Sandra Vilarinho, psicóloga e presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica, os efeitos do uso da testosterona na estimulação do desejo sexual são discutíveis: “Dos estudos que têm sido feitos, não há evidência que contribuam de facto para aumentar o desejo, mesmo no homem.”

O que é o desejo?

O Kama Sutra, o mais conhecido e talvez mais antigo livro sobre erotismo, começa com uma reflexão sobre a arte de bem viver, sugerindo aos amantes que encontrem o seu caminho na vida e o seu destino, e que pensem na forma de ganhar a vida e constituir uma família.

Na língua portuguesa, a palavra desejo é um substantivo masculino que deriva do latim, estando associado nas suas origens à ideia de preguiça e indolência. Questões de género à parte, a própria língua que falamos, demonstra que o desejo requer tempo e vontade.

No desejo “feminino, a dimensão orgânica é a menos importante”, explica Sandra Vilarinho: “A resposta sexual feminina é quase tudo menos espontânea; tem a ver com a qualidade da relação [com o parceiro], com a disponibilidade física, mental e relacional, com o cansaço. É por isso que a atividade sexual é adaptativa: se uma mulher tem muitas tarefas” no seu quotidiano, “não tem disponibilidade para mais uma tarefa ao fim do dia”.

“Intimidade sexual não é coito”

O desejo sexual feminino não é mecânico, e isso explica que uma mulher que “não se sente bem tratada, amada, apreciada, não sinta desejo”, diz Sandra Vilarinho: “Se a parte biológica não se retraísse [e a resposta sexual se mantivesse igual], isso criaria uma discrepância pouco saudável”, e seria uma má resposta a uma relação desequilibrada.

Afeto e mimo podem ser mais eficazes do que qualquer comprimido

Afeto e mimo podem ser mais eficazes do que qualquer comprimido

DR

Intimidade sexual não é o coito”, explica a terapeuta sexual Sandra Vilarinho: “É estar disponível para o prazer sensorialmente, disponível para [viver] o presente e para [fruir] os cinco sentidos. Felizmente que o desejo resiste à tentativa de usar fermento para gerar uma resposta rápida”.

Américo Batista tem uma grande “descrença” sobre os efeitos do Filibanserin sobre o desejo: Este medicamento vem tratar uma coisa que não precisa de ser tratada. “As mulheres nem sempre estão disponíveis” para a atividade sexual, e “isso é normal. Mas eu também acho que os homens apesar de terem uma maior disponibilidade, também não estão sempre disponíveis”.

A opinião de Sandra Vilarinho é semelhante, e Santinho Martins também salienta a importância do aspeto relacional. Em última análise, a questão da falta de desejo da mulher só se coloca se esta tiver um parceiro mais “ativo”. No caso de um casal em que os dois são hipo ativos, “não há problemas. Não funcionamos todos da mesma maneira”, acrescenta Martins: “Há muitas mulheres que não tem orgasmo, mas têm prazer na relação” com o outro.

 “Uma vida sexual saudável exige que as pessoas se preocupem com ela”

“Uma vida sexual saudável exige que as pessoas se preocupem com ela”

DR

No reino das pílulas mágicas

Quem tem o hábito de ler as bulas dos medicamentos e já leu a de alguns antidepressivos, sabe que entre as inúmeras contraindicações deste tipo de fármacos, consta a diminuição do desejo sexual.

O antidepressivo Flibanserin, ou seja o viagra das mulheres, foi testado e chumbado duas vezes pela FDA, a entidade que aprova a comercialização de medicamentos nos EUA. No entanto os estudos permitiram verificar que, enquanto antidepressivo, o fármaco não inibia o desejo sexual feminino. É por esta razão que “poderá funcionar como terapêutica de substituição em mulheres medicadas com outros antidepressivos”, admite Vilarinho.

A grande questão é que nos “últimos 15 a 20 anos, criou-se a ideia de que a problemática sexual feminina se iria resolver com uma pílula mágica. E não é bem assim, até porque dores de cabeça, náuseas e cansaço, são algumas das contraindicações descritas” pela toma de Flibanserin, alerta Sandra Vilarinho: “Ou seja com efeitos anti eróticos como as náuseas e as dores de cabeça, como é que querem que o desejo aumento?”.

Américo Batista vai mais longe, e denuncia o facto de a sociedade atual lidar mal com a ideia de esforço: “Para tudo o que exige esforço queremos um medicamento. Resolver os problemas, perceber o que está mal numa relação, exige esforço”.

O Prozac chegou a ser visto como a pílula do bem estar

O Prozac chegou a ser visto como a pílula do bem estar

© DARREN STAPLES / REUTERS

A ilusão de resolver problemas com um comprimido explica, em parte, o sucesso do Prozac que surgiu no final da década de 1980; poucos anos depois, depois de ter circulado a ideia de que o Prozac faria perder peso, discutia-se à mesa do café eventuais benefícios da sua toma por quem queria apenas emagrecer…

Noutro plano, mas fazendo um paralelismo com a toma de estimulantes do desejo, Américo Batista, chama a atenção para o número excessivo de crianças que consomem Ritalina: “É normal uma criança ser irrequieta e não querer estudar; mas claro que dá mais trabalho aos pais discipliná-la e ensiná-la a estudar. O mesmo se passa com os casais; uma vida sexual saudável exige que as pessoas se preocupem com ela. O risco, é que em vez de se pedir aos casais que melhorem a sua vida afetiva, passe a pedir-se ao homem para tomar um comprimido e à mulher também”.

Betel, o Flibanserin da época dos Descobrimentos

Em março de 1534, o reputado médico Garcia de Orta embarcou para Goa, onde viria a morrer em 1568, aos 67 anos. Foi nessas longínquas e distantes paragens do Oriente que Orta redigiu a obra “Coloquios dos simples, e drogas he cousas mediçinais da India”. O livro foi publicado em Goa em 1563 e fez o nome de Orta correr mundo.

A obra organizada em 58 capítulos descreve e questiona os efeitos terapêuticos de várias drogas usadas no oriente, como o benjoim, a cânfora, o ópio.... e as piperáceas que “podiam ter efeitos miraculosas nas mulheres”, como recorda a historiadora Mary Del Priore: “Um dos mais notáveis cronistas a perceber a importância dos afrodisíacos foi o português Garcia de Orta, estudioso da farmacopeia oriental que viveu no século XVI (...) Orta menciona o betel, uma piperácea cuja folha se masca em muitas regiões do Oceano Índico”. Sobre a arte de mascar betel, o homem que foi médico de D. João III apesar de ser cristão novo, escreveu que “a mulher que há de tratar amores nunca fala com o homem sem que o traga mastigado na boca primeiro”.

Ou seja, sabia a pimenta o Flibanserin da época dos Descobrimentos portugueses. Para os homens, Orta recomendava o ópio que, como menciona Del Priore,“era usado para agilizar a ‘virtude imaginativa’ e retardar a ‘virtude expulsiva’, ou seja: controlar o orgasmo e a ejaculação”.

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