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Sociedade

O milagre das flores

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Luís Coelho

É preciso tocar-lhes para ver que não são verdadeiras. Campo Maior prepara-se para ficar coberta de flores de papel, feitas artesanalmente e em espírito comunitário, por mais de seis mil voluntários

Devagar, com segurança e precisão, sem que os 80 anos lhe façam tremer os dedos, Beatriz Lavadinho vai formando as pétalas de uma flor. Primeiro corta o papel em pequenos quadrados, depois dobra-o e enrola-o e, finalmente, cola-o no pé de arame coberto de verde.

À volta de uma mesa retangular de madeira antiga, Beatriz e mais seis vizinhas fazem flores de papel umas atrás das outras. Pela rapidez parece fácil, mas não é. Dizem que a arte e a habilidade nasceram com elas, porém são o resultado de uma infância e adolescência a ver e a aprender com as mães e avós a técnica artesanal das flores de papel, o símbolo das Festas do Povo de Campo Maior. Uma tradição centenária que se repete de 22 a 30 de agosto e promete trazer um milhão de visitantes à vila alentejana.

“Há muitos anos que moro em Lisboa, mas venho cá com muita frequência, principalmente agora, para ajudar a preparar as flores”, conta Beatriz.

Os 35 graus registados pelo termómetro não fazem o grupo trabalhar mais devagar. Nem lhes rouba a vontade de, daqui a uns anos, voltarem a repetir o esforço. O calor que se sente nestes serões, contudo, é mais humano do que da temperatura exterior. Nascidas sob o signo da religião, em honra de São João Baptista, o padroeiro da vila, as festas não têm uma periodicidade fixa. Acontecem, literalmente, quando o povo tem vontade. “Os cabeças de rua [os líderes de cada rua] vão detetando a vontade através de conversas aqui e acolá com os vizinhos. Quando a associação das festas percebe que a vontade é consistente, faz arruadas com um grupo de rancho folclórico, para termos a certeza”, explica João Rosinha, presidente da Associação das Festas do Povo.

Por agora, numa altura em que os dedos estão doridos e cheios de cola, é provável que muitos dos seis mil voluntários jurem que não se metem noutra aventura igual. E é igualmente provável que daqui a três anos comecem a ter saudades. “Isto é uma continuidade. Lembro-me de em pequenina ver a minha mãe e a minha avó fazerem, ensinei aos meus filhos e os meus netos já ajudam”, diz Julieta Pepe, sentada ao lado de Beatriz, antes de ir buscar a recompensa da noite, um licor caseiro (muito) açucarado.

Quem por estes dias andar por Campo Maior e entrar nas casas onde se fazem os serões, não estranhe se for convidado para um brinde.

O ambiente da Rua da Canada repete-se por mais 99 troços. Um trabalho feito por gerações mais velhas, com a preocupação de ensinar aos mais novos, mesmo os que saíram do Alentejo para estudar. “É uma vontade que nasce connosco. A minha mãe não precisou de me convencer”, conta Ana Margarida Azinhais, de 17 anos, ao fim de quase três mil tulipas feitas entre as matriarcas da família.

HOMENAGEM ÀS MULHERES

É esta a época em que Campo Maior se mostra ao exterior. Em que a porta da rua fica aberta aos amigos e aos curiosos que vêm de fora. Até à noite de dia 21, o dia da enramação, em que as flores saem para as ruas, há também um espírito de secretismo.

Uns vizinhos não podem ver o que os outros vizinhos andam a fazer.

“Não se pode mostrar nada. Antigamente, mandavam os miúdos mais pequenos para ver a concorrência, é por isso que tem sempre de ser feito à porta fechada”, conta Matilde Paixão, de 72 anos. Ao aspeto franzino e frágil, um pouco curvado pela idade, contrapõe a destreza e quantidade de horas que passou a fazer lírios e camélias. A minúcia e perfeição de Matilde vai ao ponto de replicar o pólen das flores. “Tem mesmo de tocar para ver que são de papel. Mas veja lá também os meus dedos”, diz enquanto abre as mãos para mostrar os vincos nas palmas e as unhas negras da cola ressequida. A seu cargo e das vizinhas tem a Praça Central, onde, numa casa antiga, de dois andares, está guardado o material pronto. No chão das ruas, os homens abriram buracos para colocar as estruturas de ferro que vão segurar as flores. Às mulheres a arte, aos homens a força.

“Estas festas devem-se em grande parte à força das mulheres, à sua capacidade de trabalho, e à capacidade de convencerem maridos e filhos a fazer a festa”, conta Ricardo Pinheiro, presidente da autarquia. Um dia antes do início das festas, pela primeira vez, haverá uma homenagem às mulheres de Campo Maior.

A vila vive um momento de viragem.Este ano as expectativas cresceram. Isso não se deve ao investimento de um milhão de euros ou ao milhão de visitantes previstos. Nem ao museu virtual que está a ser planeado - e que vai permitir aos visitantes virem fora da época andar com uns óculos especiais na rua e ver as festas - e cujas filmagens têm estado a ser feitas. A expectativa cresce com a candidatura a Património Imaterial da Humanidade desenvolvida pela autarquia. Depois da vitória do fado e do cante alentejano, muitos municípios colocaram as suas tradições a concurso e Campo Maior seguiu o mesmo caminho. Um enorme dossiê será entregue à UNESCO, em 2017. É altura de apontar para outro patamar.

Ligar a cultura ao crescimento financeiro e ir além do retorno gerado pelos turistas, numa altura em que as reservas de estadas são feitas num raio de quase 200 quilómetros.

“São 150 anos de história que tiveram um crescimento muito significativo nos últimos 30, percebemos que a economia pode crescer através de um evento cultural”, defende o autarca. O passo seguinte será criar uma marca, um produto que viva entre festas. “Estamos a desenvolver um estudo para ver que tipo de produto de flores de papel podemos criar e comercializar. Algo que se diferencie de um produto chinês, tailandês”, continua Ricardo Pinheiro.

Para já, os campo-maiorenses preocupam-se que o trabalho fique feito a tempo e horas. E bem feito. E, já agora, que São Pedro ajude. “Sol no céu a brilhar/ É o que queremos ver/ Não venha a chuva estragar/ O que tanto custou a fazer”, como dizem os versos populares repetidos pelos moradores.