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“Guarda social” protege gente só

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Nos 300 quilómetros quadrados do município de Mafra, entre os seus 80 mil habitantes há cinco guardas que ajudam a zelar pela segurança e bem-estar de idosos sozinhos ou em lares, necessitados, com ou sem deficiência. A alma da secção especial da GNR é o cabo Costa

“Recordem-se destes três ou quatro pontos”, diz o cabo Costa com a sua voz de comando. “Vai haver uma nota nova de 20 euros. As antigas deixam de valer? Não, valem igual. Não dão notas a ninguém! Não falem com pessoas que não conheçam, não telefonem para números que não conhecem. Não vão sozinhos levantar dinheiro. É perigoso!”

No Centro Bem-estar de idosos da Misericórdia da Ericeira, já todos conhecem este cabo da Guarda Nacional Republicana. São 42 residentes e 16 frequentadores do centro de dia, mais mulheres do que homens. Volta não volta, Luís Costa visita-os no cumprimento dos programas de apoio a seniores e a pessoas com deficiência que a GNR desenvolve por todo o país, no âmbito do policiamento comunitário.

“No lar, a média de idade está nos 85 anos. A grande percentagem, 70%, sofre de demência, uns em fase inicial outros avançada. Há um acamado, de resto tudo faz levante. As pessoas pagam uma percentagem (65%) do seu rendimento para estar no lar, mas temos 38 protocoladas com a Segurança Social”, diz a diretora técnica, assistente social nascida no Alentejo e há dez anos na Ericeira.

Na visitas da GNR, são alertados para os truques da gatunagem, para que ganhem consciência de que a rotina “é dos piores inimigos” da segurança. “Normalmente, durante o dia têm atividades, fazem ginástica, jogos de estimulação de memória, passeios ao exterior, chás-dançantes... Nesta altura, estamos com a campanha da praia, vão de manhã”, acrescenta Cremilde Calceteiro, sorrindo: “Eu vivo para isto”.

Surf e discoteca, mas muito sossegadinhos

Tanto as atividades diárias como as esporádicas não são obrigatórias, mas dão outro alento à vida. Alice Soares tem 83 anos, faz natação e ginástica pelo menos três vezes por semana, anda a pé, visita todos os dias os seus amigos da Ericeira. E não perde as iniciativas concelhias que se promovem em nome dos idosos. Foi por isso que experimentou fazer surf, no ano passado, e está desejosa de repetir a experiência.

“Só estou à espera que o tempo melhore, para ir fazer outra vez surf... que o cabo Costa não espere que eu feche os olhos antes de ir outra vez”, desabafa a antiga costureira que também gostou bastante de ir, uma vez, à discoteca: “Muito engraçado. Quer dizer, eu julgava que a discoteca não era assim tão calminha. Mas nós ja não temos idade para brincadeiras, fomos e estivemos muito sossegadinhos. Comemos, dançámos, brincámos, foi uma maravilha.

Alice enviuvou, a filha emigrou para a Venezuela sem deixar rasto... ficou sozinha, “internou-se” de bom grado, há cerca de 15 anos, no Centro de Bem-estar da Misericórdia da Ericeira. O seu caso não é vulgar. Diz o cabo Costa ao Expresso que, normalmente, “os idosos têm muita resistência em aceitar as respostas que existem”, os centros de dia ou lares ou, como agora se chamam, as estruturas residenciais para idosos.

A integração nas chamadas ERPI, na sua maioria privadas com ajudas estatais, revela-se quase sempre um mal menor, como refere o “guarda social” de Mafra. As pessoas com idade avançada “não vão de bom grado” para essas estruturas, preferem ficar nas suas casas, mesmo que não tenham condições, “daí haver uma rede de apoio domiciliário que vem colmatar esse tipo de situação”. E que, em Mafra, conforme o Expresso teve oportunidade de verificar, tem um funcionamento bem oleado.

Cozinhava numa lata de azeitonas

“Nunca pensei que viesse para aqui nem para outro lado, porque a minha pensão não dava. Quanto é? são 325 euros, nem é mais nem é menos. E foi assim o passado”, desabafa Luís Rodrigues, nesta altura a viver com uma utente do mesmo lar que o albergou. “Namorou-se um tempozito, é caso para se dizer, depois combinou-se e juntamo-nos. Pronto. E livrei-me daquelas maus caminhos e daquele tempo ingrato que lá vivi”.

Luís dos Reis Rodrigues, de 76 anos, frequenta outra ERPI concelhia. Passa o dia no Centro Social e Paroquial de Nossa Senhora da Encarnação, no Barril, e vai dormir a casa de Maria de Jesus Dias, a sua namorada de 72 anos, cujos problemas auditivos a tornam mais tímida mas não lhe tiram o sorriso. O “lá” a que se refere, é no Casal de Vale Moreira, na freguesia de Santo Isidoro, na parte rural do município de Mafra.

Apesar de se sentir feliz, Luís Rodrigues confirma a regra: primeiro teve alguma relutância em ficar num lar, mas rapidamente trocou de ideias. “A minha vida mudou muito. Passei um mau bocado. Não digo mais nada.” Não é verdade, contará muito mais, mas nem precisaria. Uma visita ao casebre onde residiu é suficiente para se perceber o “tempo ingrato” de que fala.

A casa que fora de seus pais, e onde nasceu, transformou-se numa ruína. Luís levava o tempo sentado à porta... o cabo Costa viu-o, quando dava um dos seus passeios de bicicleta. “Por curiosidade, parei e começámos a falar. Ele residia mesmo ali, sem condições de higiene, sem casa de banho. Fazia comida numa lata de azeitonas, à lenha. Com graves carências económicas... não falava para os filhos, tinha dois, não havia laços de afetividade que é comum junto dos idosos.”

Como de hábito, o “guarda social” entrou em ação. “Tenho a sorte de estar num concelho onde as pessoas estão despertas para esta realidade. Temos uma equipa da rede social bastante preocupada. Aqui sou o cabo Costa, mas também sou o Luís Costa: temos de ser a parte humana... se fosse a fazer apenas aquilo a que estou obrigado, tecnicamente ou institucionalmente, seria pouco.”

“Falei com a diretora técnica e fomos ao Barril, para ver se Luís Rodrigues gostava do lar. Contactei os filhos, quis responsabilizá-los pela situação. Apesar de todos terem as suas razões para não se falarem, não podiam esquivar-se. Um deles comprometeu-se a recebê-lo, de noite. Hoje está todo satisfeito, neste momento já nem vive com o filho”, conta o cabo, com satisfação.

“É preciso gostar-se. Daí a minha disponibilidade. Um simples telefonema faz toda a diferença, para quem está sozinho, pode ser tudo num momento mau”, diz o cabo de 54 anos de idade e 28 de GNR, responsável pelos programas de apoio. Natural de Torres Vedras, entrou para a Guarda, em janeiro de 1987, e foi colocado no destacamento de Mafra, atualmente comandado pelo capitão João Amorim.

Tal como prometeu no primeiro dia a Luís Rodrigues, o cabo Costa voltou a Casal de Vale Moreira com uma viatura adequada aos tortuosos caminhos de terra. Foi buscá-lo e, de seguida, levou-o a visitar o centro de dia, cuja existência mudou a vida ao sénior que passava os dias sentado à porta do casebre.

Quase 40 mil idosos e deficientes em “situação vulnerável”

“É-nos muito difícil saber onde existem casos desta gravidade. Mas, em conjunto, temos tido algum sucesso. Acabamos por conseguir integrá-los, novamente, na sociedade e eles acabam por arrepender-se de não terem saído de casa há mais tempo”, afirma Luís Costa que se “sente bem por proporcionar este tipo de resposta”.

Está enraizado o pensamento de que “se a pessoa vive mal não há nada a fazer”, por isso, a Guarda pede, ao bombeiro, ao carteiro, ao padeiro, entre outros, que a informem dos casos que conhecem. E, falando com a assistência social, alimenta a base de dados de idosos a viver sós, mais conhecida por censos-sénior que, no concelho de Mafra, já conta 80 nomes. Em termos nacionais, são já 39.012 os idos “sinalizados em situação vulnerável”.

A GNR considera que há um trabalho de fundo a fazer e, sobretudo, que pode dar o seu contributo. As suas iniciativas comunitárias - a primeira foi a Escola-Segura, em 1992, e abrange 5460 escolas, ou seja, 707.010 alunos -, vão nesse sentido e, por isso, foram criadas as secções de programas especiais em todos os comandos territoriais do país (tanto na GNR como na PSP).

Quanto ao novo “Programa de Apoio a Pessoas com Deficiência”, cujo objetivo é “sinalizar, sensibilizar, prevenir e garantir o seu acompanhamento”, este foi lançado em dezembro do ano passado e encontra-se numa fase inicial. Em todo o país, já foram sinalizados, em situação vulnerável, 864 deficientes, em Mafra, a Guarda presta apoio a 12 munícipes, e integra-se numa equipa de técnicos da Segurança Social e da Saúde.

Sozinho, isolado... o pior é os meios urbanos

Mafra, com quase 300 quilómetros quadrados e perto de 80 mil habitantes, a meia hora de Lisboa, de carro, apesar da sua parte rural é já um concelho muito urbano, no entanto, não parece ser fora das grandes cidades que se está mais sozinho. Isolado, por vezes, não significa desapoiado.

“Os lugares mais pequenos tornam-se mais simpáticos para as pessoas com mais necessidades. Há mais partilha, uma população pronta a ajudar. Na aldeia, a pessoa está mais vigiada. É o padeiro, é o merceeiro... Se a pessoa não vem ao pão, algo se passa, enquanto numa grande cidade as pessoas nem se conhecem”, diz o cabo Costa.

“Na cidade estamos sozinhos. Eu vivia numa torre de Odivelas e só conheci os vizinhos da frente por causa de um problema. Uma senhora muito aflita - conhecia-a dos condomínios e do elevador, do ‘bom dia e boa tarde’ - não conseguia abrir a porta. Na altura, mexia-me bem e pulei a varanda. Fui dar com a filha desmaiada, na casa de banho, por causa do esquentador”, conta mais um dos apoiados pela GNR de Mafra.

António Pinho, de 68 anos, é outro dos munícipes que a Guarda acompanha. O dinâmico gestor, obrigado à reforma, mora há um ano na localidade do Sobreiro e nunca pensou que um dia mudaria de opinião quanto à GNR. “Aquela imagem tradicional que eu tinha mudou. O único apoio que tenho tido é desta equipa encabeçada pelo cabo Costa.”

“Eu costumava dizer, o Estado esqueça-se de mim para eu poder esquecer-me dele, o que quer dizer que fugia por onde podia. Quando digo que tenho uma reforma desgraçada, é por culpa minha. Reconheço. Sempre pensei morrer a trabalhar. Nunca pensei em reformar-me, muito menos numa situação destas”, confessa António Pinho.

E quando menos se espera...

Mas como é que António ficou sozinho, doente, de cadeira de rodas, sem apoio no quotidiano? Uma queda de um primeiro andar por uma claraboia estragada, três anos de hospitalização, uma perna amputada, depois, quando já se refazia, um ataque cardíaco... levaram-no a uma situação tão precária que nem uma lente para os óculos - partida numa queda na rua - consegue comprar.

“Vivo da pensão de 328 euros. Este mês os medicamentos passaram dos 300, se não fosse o meu filho não teria qualquer hipótese. A renda da casa é de 225, mais água e luz...”, explica o ex-gestor que levou a vida a adquirir empresas difíceis para as erguer, “umas vezes com êxito e outras não”. E, agora, se não fosse a agilidade do cabo Costa que conseguiu uma doação, ia estar ano e meio à espera da consulta para obter uma receita de óculos.

António Pinho tem dois filhos, uma de 44 anos e um de 40. O rapaz visita-o uma vez por mês, quando as suas funções na empresa em que trabalha não o forçam a estar fora do país. “A rapariga tem menos hipótese, é mais complicado para ela. É a vida.” Quando teve de escolher para onde ir morar, separado, reformado, com dificuldades financeiras e de locomoção, apontou para a província.

Agora que o dia a dia de António está orientado, que tem a quem chamar se algo lhe correr mal, ou simplesmente se lhe apetecer falar, apenas precisa de ter uma ocupação para se sentir mais útil. “Estamos a tentar. Já se inscreveu no site da Câmara. Tem conhecimentos informáticos, adora ler (‘tinha cinco mil livros, tive de os vender’, afirma António). Era importante conseguir-se”, explica Luís Costa.

O ex-gestor faz parte do programa de apoio aos deficientes, como é o caso de António José, um rapaz de 19 anos que ganhou em julho uma cama articulada, um melhoramento substancial na sua qualidade de vida, na sua e na da mãe, Digna Maria, também ela com alguns problemas de saúde resultantes de uma queda.

“Antes de ter a cama, o dia a dia era um pouco complicado. Tinha uma cama normal de madeira, e eu tenho também problemas, entretanto já sou reformada. Tive um acidente, fui operada aos pés... nessa altura é que vi o que custava”, diz a mãe agradecendo a cama doada por uma viúva de um militar da GNR, já que, “de outra maneira, nunca teria uma cama destas. Foi uma grande valia que me entrou aqui em casa, sim”.

Uma doença que não existe

“A doença dele é fictícia não tem nome, puseram-lhe trisomia 8. Quando vamos ao hospital perguntam sempre ‘o que é isso?’ e eu digo, ele não anda, não fala... é só connosco que ele se expressa. Sabemos que são os cromossomas que nascem mortos e não ensinam os outros... a criança fica por ali”, explica Digna Maria, ex-empregada de escritório que, pouco depois do nascimento do filho, deixou de trabalhar para poder cuidar dele.

“Com o tempo, foi aprendendo, aprendendo a conhecer-nos, a falar connosco, quer dizer, ele não fala mas nós compreendemo-lo perfeitamente. Foi melhorando, nas ações, no conhecimento...”, adianta a mãe de António José que o leva todas as semanas à fisioterapia e o passeia numa cadeira de rodas.

“Chegou a ter piscina... acabou porque o Hospital da Estefânia achou que havia crianças que iam durar mais tempo e que iam precisar mais do que ele.” Quando António José nasceu, ninguém na maternidade acreditava que ele sobrevivesse, com a exceção de Digna Maria que se dedica à costurar para sobreviver.

“Virava-o de um lado para o outro, de quarto em quatro de hora, consecutivamente... a pensar que o último dia dele era sempre o amanhã.” E agora ainda é assim que pensa, um dia de cada vez, sem lamúrias.

Apesar das suas dificuldades financeiras - a filha, mãe dos seus três netos, voltou para casa, trazendo os filhos -, Digna Maria só tem um lamento: “O que faz isto é a falta de conhecimento. Não sabemos que podemos ser ajudados.Os médicos também não sabe, senão até podiam ajudar-nos, informar-nos”.

A GNR é, na prática, a ponte entre os cidadãos com necessidade e quem pode solucionar os problemas. No caso de Mafra, as pessoas envolvidas marcam a diferença. Sílvia Marçal, assistente social, é outro “membro” desta equipa que vai aliviando a vida de muitos munícipes e criando consciência em outros.

“A GNR, para já, sinaliza quem precisa de apoio. E sempre que acontece alguma coisa, ligo ao cabo Costa. Acompanha-me em várias situações”, reforça Sílvia Marçal, que também dirige o Centro Intergeracional, Biblioteca e Centro de Dia, na Póvoa da Galega, onde se encontram 27 idosos.

Neste centro da freguesia do Milharado, convivem crianças, jovens, adultos e seniores. Na altura das férias, têm atividades em comum. Fazem jogos de palavras, “os jovens tentam ensinar idosos a ler, estes contam histórias de antigamente aos miúdos, e eles contam algumas histórias da escola aos idosos”.

“Vêm de manhã e voltam às cinco da tarde - explica a diretora do centro -, estão sempre entretidos com alguma coisa. Têm ginástica, trabalhos manuais, teatro, cantam, dão passeios, têm uma horta...”

De camponesa a coveira

A ‘dona’ do cultivo é Jacinta da Costa Simões Lopes. Quando tinha 32 anos “fugiu” do trabalho no campo, agora, aos 77, no Centro Intergeracional, a horta é a sua paixão. E a miudagem um saudável desassossego.

Antes, seguia os pais, ceifava e apanhava legumes para vender na praça. Era um trabalho duro. Na altura, “tirava àgua ao cambão, agora ninguém trabalha ao cambão, é com motor para tudo”.

“Trabalhei muitos e muitos anos, e por não poder aturar esta vida, fui para o cemitério fazer buracos para as covas.” Assim, virou coveira durante 27 anos, e só não foi por mais tempo “por não poder aturar” uma personagem que não vale a pena nomear.

“Eu gosto de estar aqui e vou para a minha terra, a minha filha diz-me ‘ó mãe você não pode trabalhar por causa dos pulmões, ó mãe você não pode trabalhar por causa das pernas’, ora se eu vou por isto e aquilo não faço nada”, argumenta a frequentadora do Centro Intergeracional.

Jacinta ainda está muito bem, tem energia, vontade, só a falta de uma dentadura dificulta a compreensão do que diz, mas o seu caso não é o mais comum. No centro que frequenta, “há muitos doentes com Alzheimer, e com outras problemáticas a nível da saúde mental, porque não existem outro tipo de respostas”, diz Sílvia Marçal.

No centro da Póvoa da Galega, há, como se tornou habitual, problemas financeiros, facto que o impede de ter uma carrinha adaptada a pessoas com problemas de locomoção. “Temos dois ou três idosos que estão em casa e podiam estar aqui, e não estão porque não temos como os ir buscar. Ou levá-los a outros sítios e acabam por ficar no centro de dia, que nem sempre é o melhor enquadramento para estarem.”

A assistente social recorre ao cabo Costa quando necessita. Como o fazem outras suas colegas ou entidades ligadas à saúde. A GNR pretende sinalizar casos dentro dos seus novos programas, mas acaba por apoiar muitos dos já referenciados. Neste momento, como diz Sílvia Marçal, “a maior dificuldade é a nível da saúde mental e não só em idosos”. Por mais que façam, “não há saídas”. Todavia, ninguém quer desistir.