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Bernardo também aderiu aos banhos gelados. Mas ele não é como os outros

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Em 2014, Bernardo, que tem Esclerose Lateral Amiotrófica - também aderiu ao desafio dos banhos de gelo. Na altura, o Expresso foi conhecer a sua história, saber mais sobre a doença e sobre o próprio sucesso da campanha

O verdadeiro balde de água fria caiu sobre a cabeça de Bernardo Pinto Coelho, não agora, ao aceitar o desafio que por estes dias tomou conta das redes sociais, mas há mais de cinco anos, quando, na sequência de queixas de perda de força na mão direita, o neurologista lhe comunicou que sofria de esclerose lateral amiotrófica (ELA).

Aos 36 aos, acusava o ritmo de vida a que obrigava o corpo, como agora reconhece, sem respeitar os avisos que este lhe dava ou os limites que forçou tempo demais. “Tinha dez tonturas por dia, que me faziam cair”, mas durante um mês e meio “dormia apenas duas horas por noite”. Geria à época o seu próprio restaurante, e as dificuldades de um negócio que começara por ser bem sucedido tornaram-se fonte de uma tripla pesada: “stress, revolta e ansiedade”.

Da doença nada sabia. Bastou, no entanto, uma breve pesquisa para perceber o cenário “assustador” que se desenhava. “Percebi que estava relacionada com uma esperança de vida curta”, recorda, mas Bernardo não estava disposto a resignar-se à fatalidade do que lia. Apesar de alguns momentos de “distração”, que faz por contrariar, a regra tem sido “manter o otimismo”, o que consegue devido ao facto “de me sentir muito amado, ter um pai único e amigos verdadeiros”, repete várias vezes.

Quem espreitar o vídeo que Bernardo publicou segunda-feira na sua página no Facebook, ensaiando uns passos de dança antes de despejar pela cabeça a água gelada a que o desafio “Ice Bucket” obriga, fica a perceber que a determinação continua válida. Depois de se apresentar e dizer que sofre de ELA, Bernardo remata com um “recusei cruzar os braços e estou aí na luta”. Como mandam as regras, nomeia três pessoas para darem continuidade à corrente solidária, estando por esta altura nas mãos das duas irmãs e do amigo Nuno Costa-Santos prepararem o gelo ou fazerem um donativo de 20 euros à apELA (Associação Portuguesa de Esclerose Lateral Amiotrófica).

CAMPANHA INSPIRADA EM EX-JOGADOR DE BASEBALL

Para Bernardo Pinto Coelho, esta campanha, que começou a 29 de julho nos EUA, tem obviamente um significado particular. “Acredito que Deus tem um plano para cada um de nós e sinto que posso ter sido escolhido para ajudar outras pessoas. Gostava de isto servisse para o fazer, uma forma de transmitir mais esperança e fé a quem vive com a doença.”

Inspirada no ex-jogador de baseball, Peter Frates, que sofre de ELA desde 2012, e numa prática comum na modalidade – onde as grandes vitórias ou títulos se celebram com banhos de água com gelo - , a campanha não para de atrair seguidores, entre os quais centenas de celebridades, desde Lady Gaga a Ronaldo, passando por Bill Gates, Oprah Winfrey, Eddie Vedder, Jennifer Lopez e muitos milhares de anónimos.

Não se somam apenas vídeos no YouTube - somam-se dólares, euros, reais e libras de doações. Nos EUA, por exemplo, a ASL, associação que apoia os doentes com ELA e tenta angariar financiamento para a investigação da doença, tinha conseguido com esta campanha, até 12 de agosto, cerca de 11 milhões de dólares (mais de 8 milhões de euros). O valor é 11 vezes superior ao que conseguiu no mesmo período o ano passado. Mais. Perto de 146 mil pessoas fizeram a sua primeira doação à instituição após o desafio “viral” começar a circular na internet, adianta a “ABC News”.

Em Portugal, a apELA já sente, pelo menos, o efeito da divulgação extra. Contactada pelo Expresso, Maria da Conceição Pereira, voluntária da associação, reconhece que o interesse dos media aumentou, “o que é bom”, e vê com bons olhos a possibilidade de chegarem mais donativos. “Bem precisamos”, desabafa. “Lutamos com muitas dificuldades financeiras e queremos apoiar o maior número de pessoas que nos for possível…” Em Portugal, “entre 600 e 700 pessoas terão esta doença”, que pode ou não ter origem genética, desenvolvendo-se mais ou menos lentamente, conforme os casos.

Melhor ou pior preparados, com mais amadorismo ou alguns pormenores de sofisticação, os vídeos dos banhos gelados são a moda do momento na grande rede – ainda esta terça-feira, Ukra, futebolista do Rio Ave, aderiu à “molha” e desafiou, de uma assentada, Cavaco Silva, Pedro Passos Coelho e a ministra Maria Luís Albuquerque.

UM SUCESSO QUE SE EXPLICA

Como é que estas campanhas se explicam? Como é que se tornar virais e transversais? Como é que se iniciam, como é que se propagam? “A regra é que existem poucas regras”, afirma Susana Costa e Silva, diretora do departamento de Marketing da Faculdade de Economia e Gestão da Universidade Católica do Porto. Mas, ao olhar para este fenómeno, há elementos que se percebem com facilidade, constata.

“Vejo três grandes motivos para esta campanha se ter tornado um sucesso”, diz ao Expresso a também docente universitária. “Em primeiro lugar, o meio em que circula, propício a que a mensagem se propague de forma quase contagiosa, ao qual se veio juntar a televisão, outro meio de massas por excelência; depois, a própria mensagem, que apela às emoções, torna ‘importante’ o nosso contributo, por estar aliada a uma causa social, e envolve figuras públicas; e, por fim, porque contém um elemento visual inegável: mostrar como as celebridades tomaram o banho, quem desafiaram, como reagiram à água fria”, conclui Susana Costa e Silva.

Então é fácil criar uma campanha viral como esta? Isso já é outra conversa, reconhece a especialista em marketing. Há que considerar o facto de serem geralmente fenómenos “inusitados e efémeros”. Não vale a pena copiar. Mas um movimento que alie às características referidas “a capacidade de inovar e de potenciar uma alteração de comportamento que contribua para o bem coletivo” amplia largamente a sua possibilidade de sucesso.