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Língua portuguesa no beijo celebrizado de um marujo em Times Square

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Há 70 anos entrou numa das fotografias do século - “O Beijo”, como ficou conhecida, captada por Alfred Eisenstaedt. Os pais e avós do marinheiro galante eram portugueses, de apelido Mendonça

Alfred Eisenstaedt/Pix Inc/The LIFE Picture Collection/Getty Images

A euforia andava à solta em Times Square. Uma euforia similar à das passagens de ano, mas com muito mais gente fardada e sem a típica neve de dezembro. Aqueles milhares de pessoas não enchiam as ruas para aguardar pelas badaladas da meia-noite. Corria o dia 14 de agosto de 1945, uma terça-feira, e estavam ali para festejar a rendição japonesa, noticiada na rádio. Era o fim de um longo pesadelo chamado II Guerra Mundial.

Alfred Eisenstaedt era um dos muitos fotógrafos de imprensa que deambulavam pelas ruas de Nova Iorque à procura de material. Fotos tirara dezenas, mas ainda não conseguira a imagem pretendida.

No cruzamento da Rua 44 com a Broadway, perto de Times Square, presenciou uma cena que ajudou a imortalizar: um marinheiro galante deixou-se levar pelo momento e agarrou uma enfermeira, seguindo-se um beijo tão intenso que todos ficaram a olhar.

Eisenstaedt não captou só o beijo mais sensual do dia, como uma das imagens mais famosas do século.

Nunca imaginou que aquela seria a foto mais importante da sua vida nem lhe ocorreu perguntar os nomes dos fotografados. Na redação da revista “Life” escolheram aquela foto para ilustrar o momento e esta converteu-se num ícone da II Guerra Mundial.

Contudo, uma pergunta ficara sem resposta: quem eram os protagonistas daquele beijo? Estava criado um enigma digno de um guião de Hollywood, e que durante as décadas seguintes levou muitos casais a tentarem protagonizar aquele momento.

Da Madeira a Rhode Island

Recuemos então 60 anos e atravessemos o Atlântico. Um bebé era batizado com o nome Arsénio Mendonça numa igreja da ilha da Madeira. Esse bebé era nem mais nem menos do que o futuro pai do marinheiro que se viria a tornar mundialmente famoso.

Passaram-se alguns anos e o jovem Arsénio e a sua mulher, Maria, emigraram para os Estados Unidos, tendo a pobreza sido a causa mais provável para a decisão. Ou, quem sabe, o espírito de aventura de quem vivia do mar. O certo é que, acabado de chegar ao Novo Mundo, o jovem casal assentou em Newport, no estado de Rhode Island.

O português arranjou trabalho a fazer aquilo que melhor sabia: ser pescador no Atlântico. Daí em diante foi nascendo a sua prole. Durante os anos 20 nasceram Abel, Hilda, Manuel e George. Veio ao mundo a 19 de fevereiro de 1923 e foi registado com o apelido familiar adaptado ao inglês, passando de Mendonça para Mendonsa.

Durante a década de 30 a família tinha a sua morada oficial no número 325 da West Narragansett Street, mas a maior parte do ano era passado numa pequena ilha, conhecida por “Portuguee”, justamente por ser o local onde meia dúzia de portugueses e suas famílias viviam em casas assentes em pilares, para que a maré alta não as inundasse.

Crescer numa ilha de pescadores foi uma autêntica escola, e ainda criança George aprendeu a navegar ao largo da costa e a pescar como o pai, tornando-se marinheiro quando chegou a adulto.

Não espanta que se tenha alistado na marinha de guerra norte-americana quando ainda não completara 20 anos, no dia 26 de novembro de 1942, numa época em que a luta contra o Japão fazia as manchetes dos jornais.

Lusodescendente a bordo

Após um treino árduo, George Mendonsa foi destacado para uma tripulação misturando novatos e veteranos, formada para guarnecer o “USS The Sullivans”. Este navio de guerra passou, a partir de 30 de setembro de 1943, a ser a sua nova casa. Ainda cheirava a novo e foi batizado em honra dos cinco irmãos Sullivan mortos no ataque aeronaval a Guadalcanal, primeiro desembarque norte-americano numa ilha ocupada pelas forças japonesas.

Era um contratorpedeiro da classe Fletcher e tinha por missão detetar e perseguir submarinos japoneses com cargas de profundidade, ou enfrentar navios de superfície com as suas cinco peças de 127 mm. Contudo, os kamikazes (pilotos suicidas japoneses) acabariam por ser o adversário mais temível que viria a defrontar. Contra ameaças aéreas o navio possuía metralhadoras, além de canhões de 20 e de 40 mm.

Após passar por Pearl Harbour, o contratorpedeiro juntou-se à Terceira Frota e participou em inúmeras missões no Pacífico Central. Assistiu ao torpedeamento do “USS Intrepid” e enfrentou o ataque de quatro aviões kamikaze ao largo de Truk, no dia 29 de abril de 1944. Por sorte, nenhum acertou no navio (ainda que um se tenha despenhado em chamas bem próximo do casco).

Em maio, “The Sullivans” estava de regresso à sua base no atol de Majuro. O lusodescendente foi um dos marinheiros que precisaram de passar para o navio-hospital “USS Relief”, e foi a partir de um navio cheio de feridos que observou o seu navio partir sem ele.

Após recuperar, Mendonsa voltou ao contratorpedeiro e no dia 6 de junho saiu de novo para o mar. Do outro lado do mundo dava-se o desembarque da Normandia e no Pacífico aproximava-se a Batalha do Mar das Filipinas, durante a qual o seu navio viria a tirar das águas 31 marinheiros japoneses e a abater um bombardeiro de voo picado com os seus canhões antiaéreos.

Os meses seguintes foram passados em missões contra ilhas dominadas pelo Japão durante as quais deu uso aos seus canhões de cinco polegadas, chegando a destruir cinco bombardeiros bimotores num aeródromo próximo de uma praia.

Enfrentar tufões e kamikazes

Faltava vencer uma última provação que nada tinha a ver com os japoneses. Em dezembro, “The Sullivans” fazia parte da frota do almirante William “Bull” Halsey. Este (fazendo jus à sua fama de temeridade) decidiu enfrentar uma das piores tempestades de que havia memória naqueles mares.

Uma semana antes do Natal, a frota foi atingida em cheio pelo tufão “Cobra”. Enormes vagas varreram os conveses, destruindo tudo no seu caminho, balouçando mesmo os navios mais pesados. Após dois dias a tormenta começou a amainar e começaram a ser socorridos os navios em pior estado.

Três contratorpedeiros tinham-se afundado, levando consigo 790 homens. Por toda a frota havia fraturas e contusões e foi necessário voltar ao porto para reparar. Por pouco tempo, pois todos os navios eram necessários para o ataque à ilha de Okinawa.

A 11 de maio de 1945, o contratorpedeiro de Mendonsa escoltava o porta-aviões “USS Bunker Hill” quando uma formação de kamikazes conseguiu furar o dispositivo protetor de caças.

A barragem certeira vinda de “The Sullivans” abateu vários inimigos mas dois caças Zero carregados com explosivos despenharam-se sobre o “Bunker Hill” e causaram um autêntico inferno a bordo.

O contratorpedeiro participou na luta contra os fogos e tirou da água vários camaradas em apuros mas quase 400 perderam a vida e outros 264 ficaram feridos, muitos gravemente queimados.

Após Okinawa, o navio voltou aos EUA para uma extensa reparação e a tripulação obteve uma licença de 36 dias, que o lusodescendente utilizou para se juntar à família em Newport, usando alguns dias para sair com uma rapariga de Queens (Nova Iorque) que conhecera num churrasco em casa dos pais.

Um momento arrebatador

Descobrir a identidade do casal da foto tornou-se um enigma de difícil solução até as novas tecnologias entrarem em cena, comprovando-se que o marinheiro era George Mendonsa e a enfermeira (na realidade assistente de um dentista) se chamava Greta Zimmer.

Na altura eram dois perfeitos desconhecidos e o lusodescendente recordou como tudo se passou. Naquele dia estava num bar a dançar com Rita Petry (a simpática rapariga de Queens com quem haveria de se casar), quando subitamente a música parou e foi anunciada a rendição do Japão.

Na confusão que se seguiu o par saiu para a rua e o lusodescendente comemorou com uma boa dose de álcool. Andavam por entre a multidão em festa quando Mendonsa se cruzou com uma enfermeira bonita. Nem pensou duas vezes antes de a agarrar e de lhe dar um beijo tão arrebatador que captou a atenção de todos à volta, incluindo o fotógrafo que ia passar. E assim se fez história.

Uma história feita por um fotógrafo alemão e uma enfermeira de ascendência austríaca que escaparam ao Holocausto, e um lusodescendente atrevido.

A foto ficou conhecida como “The Kissing Sailor” ou simplesmente como “O Beijo” e simboliza a alegria que todos sentiram pelo fim do conflito.

É também um exemplo da diversidade humana de que a América é feita e dos caminhos da imigração, neste caso da Madeira.