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Mortes por afogamento aumentam em Portugal. Últimos dados indicam 62%

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FOTO D.R.

Oitenta e uma pessoas perderam a vida nos ambientes aquáticos nacionais durante o ano de 2013

Praias, rios, albufeiras, barragens, piscinas e outros ambientes aquáticos em Portugal tornaram-se mais letais. Os números mais recentes, adiantados ao Expresso pelo Instituto Nacional de Estatística, revelam que as mortes por afogamento e submersão acidentais aumentaram 62% entre 2012 e 2013: de 50 para 81 vidas perdidas. O número maior de vítimas que não resistiram aos perigos das águas foi acompanhado por um aumento no socorro prestado, sobretudo em dois dos períodos em que a população mais acorre aos ambientes aquáticos.

Em junho e julho de 2012, a rede de meios do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) respondeu a 100 pedidos de ajuda, que no ano seguinte chegaram aos 132. A subida é ligeira mas reflete uma tendência crescente, para já até este verão. Nos meses de junho e julho de 2014, a emergência médica voltou a ser acionada mais vezes (138) e em 2015 já houve 163 intervenções.

Os dados relativos a agosto fazem antever que a tendência de aumento no socorro a vítimas de afogamento se mantenha. Em agosto do ano passado, a emergência médica foi chamada 112 vezes, ou seja, em média quatro vezes por dia. Este mês, e apenas até dia 9, os meios do INEM já socorreram 47 pessoas, isto é, cinco diariamente. Os mais jovens estão entre as vítimas e estão a surpreender alguns especialistas pela inaptidão que aparentam. Enquanto nos adultos o afogamento se deve a questões de saúde, como a congestão ou a paragem cardiorrespiratória, nos jovens parece ser mais comum a falta de conhecimento sobre como estar dentro de água.

“Em duas semanas entre junho e julho recebi cinco casos de afogamento. As vítimas tinham entre 8 e 15 anos e não sabiam nadar. Num país como o nosso acho isto estranho”, afirma Francisco Abecasis, especialista em cuidados intensivos pediátricos no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. “Todos os anos temos casos, mas este ano têm sido mais e sobretudo com estas idades. Eram jovens de meios sociais mais desfavorecidos e um morreu.”

“Há vários fatores que contribuem para este fenómeno: a crise leva os pais a reduzirem as atividades extracurriculares dos filhos como a natação, as escolas não têm esta disciplina — embora algumas autarquias deem apoio para esse reforço curricular — e há um crescente analfabetismo motor entre os jovens, não permitindo que tenham instrumentos para reagir a um fator de risco”, explica Carlos Neto, professor na Faculdade de Motricidade Humana, em Lisboa.

“Sedentarismo gravíssimo”

Em causa está “uma tendência dos pais e dos educadores para a superproteção”. Há mais de 40 anos a trabalhar com crianças, o investigador alerta para “um sedentarismo gravíssimo devido à aposta numa geração intelectualmente ativa e corporalmente passiva”. As consequências estão à vista: “Temos uma juventude sem capacidade de adaptação e que corre o perigo de não estar preparada para a vida adulta.” Um olhar pelo país revelará que “existem muitas piscinas mas as crianças não estão lá, estão em casa ou sentadas na escola”.

Carlos Neto avisa que é preciso agir e o número de afogamentos é só um dos sinais. “As normas de segurança não resolvem os problemas porque o corpo dos mais jovens não está adaptado para o resolver. O conceito de risco é fundamental, é preciso colocar as crianças perante o que é incerto.”

O aumento da segurança tem funcionado, pelo menos, nas praias com nadadores-salvadores. A estatística do Instituto de Socorros a Náufragos (ISN) revela uma redução no número de mortes por afogamento. Em 2010 há registo de 18 óbitos, em 2012 de dez e em 2013 de 12. Nestes dois últimos períodos, metade das vítimas não tinha mais de 22 anos. Em 2014, ocorreram sete casos fatais (apenas um numa praia vigiada) e este ano, de maio até ao final de junho, há registo de três mortos.

“Jovens que não sabem nadar é uma situação pontual”, afirma o presidente do ISN, Galhardo Leitão. E acrescenta: “Durante a época balnear mais do que duplicamos a população nas nossas praias e os números confirmam que somos dos países com menos mortes” nos areais da orla costeira. Restam todos os outros ambientes aquáticos procurados no país.

E tal como os números do INEM, os dados do ISN mostram que os pedidos de socorro aumentaram. Em toda a época balnear do ano passado foram realizados 856 salvamentos e este verão, sem incluir agosto, já soma 719. Com mais pessoas na praia é expectável um aumento dos acidentes que requerem a intervenção dos nadadores-salvadores mas não só. “Desde março de 2013 que está definido que todos os afogamentos de nível III (em que vítima teve de ser ajudada a sair da água e há vómito, por exemplo) implicam chamar o INEM, portanto, naturalmente que os níveis de evacuação aumentaram”, acrescenta o responsável do ISN.

Os especialistas das áreas do comportamento alertam que a segurança só por si não chega. “Se não existir consciência do risco e capacidade de aprender, esse risco aumenta muito”, garante Vítor Franco, presidente da Sociedade Portuguesa de Psicologia Clínica. E acrescenta: “O que evita os acidentes não é a proteção, mas sim a capacidade de enfrentar perigos e está mais seguro quem tem mais competências para os enfrentar, desde logo tendo consciência de que não se domina tudo e ter até um certo medo.” E deixa um aviso: “Quem não se magoa a saltar o muro vai tropeçar nos próprios pés.”