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LOL? Já foste! Hahaha!

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O “laughing out loud”, qualquer coisa como “rir a bandeiras despregadas”, deu origem ao lol. A expressão caiu em desuso

“Rir nunca foi uma arte simples e o riso digital, então, nem se fala. Tem sexo, idade e geografia. Cuidado que pode ser classificado de velho só pela forma como expressa o seu bom humor.” Crónica de Christiana Martins no mês em que foi declarado o óbito do LOL

Eu não sou pessoa de muito riso, já passei da idade de marcar novas tendências e não me sinto especialmente à vontade no mundo digital. Tudo muito cinzento. E quando já me tinha acostumado ao LOL (“laughing out loud”, algo como rir alto e de forma audível) como sinónimo de riso na escrita das redes sociais e dos mails, fui confrontada com uma dura realidade: faço parte da velha guarda, desatualizada, que nem rir à maneira sabe. Uma má escolha para escrever este texto, portanto.

Mas o que interessa não sou eu, claro, e sim que a notícia sobre a morte do LOL está a incendiar os jornais internacionais que se interessam pelas novas tendências e, por isso, o Expresso não podia manter-se à parte. Preparem-se porque aqui vai a explicação disto tudo, desde o início.

Já se sabe que no mundo digital, a volatilidade é maior e, por isso, não se espantem com a rapidez com que tudo o que lhes vou contar se passou. Há apenas três meses, uma jornalista da reputada revista norte-americana “New Yorker” deu-se ao trabalho de escrever um artigo com o misterioso título “Hahaha vs. Hehehe”.

Sarah Larson, a autora, também começa o texto com o seu próprio desabafo, mas, no caso dela, bem mais interessante. Mulher de riso fácil, explica que se transformou numa escritora de abundante de risos digitais. Adepta dos “hahas's”, uma mulher de 42 anos que ri de boca aberta, mas que percebeu que havia uma nova forma de se expressar satisfação digital: o “hehe”. Já lá vamos.

Nas bandas desenhadas, sempre houve “has's”, uma espécie de peça Lego, explica Sarah Larson, ou, nas suas próprias palavras, “um bloco de construção da hilariedade”. Algo que soa aos ouvidos da imaginação e dos leitores como uma risada. Uma unidade de significação transparente, que não causa dúvidas a ninguém. Na opinião da autora, o “hehe” é mais misterioso, é a risada digital das gerações mais jovens, com menos de 30 anos.

Depois de alguma pesquisa de campo, Larson chega finalmente à conclusão de que o tradicional LOL estava demodé, uma quase peça de museu até já tinha sido integrada no “Oxford English Dictionary”. A minha pesquisa mostrou ainda, com base num artigo da BBC News, que esta será uma das primeiras expressões utilizadas pelos avós, quando estes se aventuram na Internet... No mundo do imediatismo, o LOL pecou por ser pouco expressivo e ter de ser traduzido para poder ser entendido. Além do mais, o som, não remete para o riso. Logo, transformou-se num falhanço, que não se sabe como durou tanto.

“Zuckerberg is watching you”

O Facebook não deixou escapar o artigo da “New Yorker” e rapidamente tratou de fazer um estudo — “A não tão universal linguagem do riso” — sobre as expressões que aparecem nos comentários dos utilizadores norte-americanos desta rede social. Concluiu, então, que a grande maioria usa o “haha” (51,4%). Os mais visuais já recorrem aos emoji (33,7%), todo um novo mundo ilustrado com ícones e bonecos, em que as imagens substituem as palavras e as letras. A correr por fora, mas anunciando uma tendência de crescimento surge o “hehe” (13,1%), referido por Larson. E os velhotes do LOL resumem-se a uma minúscula minoria (1,9%).

Há muito que se diga sobre o riso digital. A forma de expor a boa disposição muda conforme o sexo e a idade

Há muito que se diga sobre o riso digital. A forma de expor a boa disposição muda conforme o sexo e a idade

THE NEW YORKER

Mas há mais a dizer. A equipa de análise de dados do Facebook percebeu que as mulheres gostam mais de usar os bonequinhos, o “haha” é mais masculino e o “hehe” não tem sexo definido. A enorme maioria (85%) ri menos de cinco vezes por semana e 46% só expressam a sua satisfação uma vez a cada sete dias.

A pesquisa foi de tal forma detalhada que o pessoal do Facebook construiu um mapa do riso digital nos Estados Unidos. O “haha” é típico da costa oeste, os emoji são mais usados no centro do país e os conservadores do sul ainda usam o LOL. E até o número de letras foi investigado, chegando-se à conclusão de que houve um utilizador que escreveu o “haha” com 600 letras!

Visto desta forma, tudo parece fazer mais sentido, sobretudo, se os estereótipos forem usados como instrumentos de análise social... Mas dá vontade de saber, em Portugal, como ri a Nação do Porto ou qual o som do sorriso digital de Lisboa ou o erudito sorriso nos ecrãs dos lentes de Coimbra. E no Alentejo, o som será outro? Fica feito o desafio, Mark Zuckerberg...

Assim, dito isto, já sabe, se faz parte, como eu, da minoria que ainda continuava a usar o LOL, está mais que desatualizado. Ponha um sorriso discreto na cara, digite os indicados “haha” e ouça o meu conselho, com sotaque brasileiro: o LOL já era. HaHa! E pode rir do meu desabafo, que não me incomodo nada, até porque os dinossauros também têm dentes e o riso deles também tem a sua graça, não acha?

Os países do riso

O tema é interminável e não há quem se ponha à margem. A revista americana “The Atlantic” explicou num artigo as várias formas de rir nos ecrãs, conforme o país dos utilizadores a quem nos dirigimos. Todo um mundo a descobrir:

- 555: Em tailandês, o número cinco é pronunciado como “ha”
- www: em japonês, o símbolo utilizado para reproduzir uma risada é pronunciado como “warai”, daí a abreviatura “w”
- kekeke: os coreanos usam esta expressão para representar as suas risadas na internet
- MDR ou héhéhé: os franceses tinham de ter o seu jeito especial de rir e o equivalente de LOL em França é MDR, ou seja “mort de rire”
- jajaja: nuestro hermanos preferem o “j”, que tem som de “r”
- xaxaxa: é o sotaque grego a falar
- xàxàxà: em hebraico leva um acento
- hi hi ou ho ho ou ti hi: são as variações das risadas digitais na Dinamarca
- xexe: é como a “Atlantic” garante que se ri em terras de Putin
- rsrsrs: no Brasil, como a Mónica e o Cebolinha