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Vai haver fogo sem fumo na serra da Lousã

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O ceramista, que já construiu fornos ecológicos em vários pontos do mundo, a desenhar a base do forno da Serra da Lousã

D.R.

O ceramista japonês Masakazu Kusakabe iniciou quinta-feira a construção de um forno ecológico que permite poupar madeira e não liberta fumo, o que reduz o perigo de incêndio nas florestas. A iniciativa pertence à Associação Cerdeira Art & Craft e está a ser financiada através de crowdfunding

João Ramos

João Ramos

Jornalista

Tijolo a tijolo. O mestre ceramista japonês Masakazu Kusakabe vai estar até 26 de agosto na serra da Lousã para dirigir a construção de um Sasukenei (forno sem fumo), que permite poupar lenha e não polui o ar. O mestre japonês já esteve quarta-feira no local e alterou o desenho que estava no papel. Virou a entrada do forno para sul e teve a ideia de utilizar também pedra de xisto no revestimento de parte do forno, por forma a que a obra assuma a personalidade do local.

A ideia de construir este forno ecológico em Portugal partiu da sugestão do ceramista português Ricardo Lopes de dotar as instalações da Associação Cerdeira Art & Craft de um forno de cozer cerâmica, depois de ter estado em 2010 em Jingdezhen (China), capital mundial da porcelana, a usar um forno construído pelo mestre japonês.

“Além de não produzir fumo, este tipo de forno tem a vantagem de diminuir o tempo de cozedura das peças e evitar a poluição do ambiente e o uso excessivo de lenha”, explica José Serra, membro da organização da iniciativa. Salienta também que este forno sem fumo reduz o perigo de incêndio nas florestas, uma questão importante para os ceramistas da Serra da Lousã.

D.R.

A técnica ancestral de construir fornos e de trabalhar com a complexa tecnologia do fogo ganhou nos últimos anos adeptos entre os artistas de cerâmica contemporânea. Porquê? “Pude comprovar como estas cozeduras resultam em peças espetaculares. Os efeitos e nuances provocados pelas fornadas a lenha de alta temperatura são conhecidos e admirados por ceramistas do mundo inteiro”, testemunha Ricardo Lopes.

Trabalho feito em 36 horas - em vez de uma semana

Masakazu Kusakabe, nascido em 1946 em Fukushima, já construiu alguns fornos do género em vários países, nomeadamente no Japão, na China, nos EUA, na Alemanha e na República Checa.

Com a construção deste forno a lenha na Lousã, os ceramistas portugueses terão assim um equipamento que lhes permitirá, com um consumo reduzido de lenha, realizar cozeduras em apenas 36 horas, permitindo efeitos na cerâmica que por norma só são possíveis de atingir com tempos de cozedura de 6 dias ou mais. “Uma cozedura num forno deste tipo é sempre um evento que promove o trabalho em equipa, que junta mestres e aprendizes numa experiência sempre única”, adianta José Serra.

“Multidão” financia

A iniciativa será financiada por crowdfunding, em que “apadrinhar” um tijolo do forno custa 5 euros. O objetivo é angariar um mínimo de 10 mil euros, embora o objetivo da organização seja atingir os 20 mil euros necessários para executar todo o projeto. A verba alcançada permitirá adquirir todos os materiais para a construção do forno, inclusive a base e o telheiro.

D.R.

Cerdeira, aldeia de xisto que ressuscitou

A Associação Cerdeira Art & Craft tem sede na aldeia do xisto de Cerdeira, na Serra da Lousã, que esteve abandonada. Tem vindo a organizar nos últimos 10 anos o encontro de artes Elementos à Solta-Art Meets Nature, cujos programas pode ver AQUI e que é muito focado nas artes e ofícios contemporâneos. A aldeia dispõe hoje da Casa das Artes e Ofícios, onde são realizadas residências artísticas desde 2014. Atualmente estão em fase de conclusão as oficinas multidisciplinares, mas com foco na cerâmica e no trabalho em madeira.

“Estamos a criar um polo internacional para o craft, onde os artistas portugueses, e não só, tenham um espaço para realizarem os seus projectos, para aprender e para ensinar no âmbito dos programas propostos por eles e/ou promovidos pela Associação Cerdeira Art & Craft”, diz José Serra, referindo que o objetivo é “promover os artistas e artesãos locais”.