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Luísa, a mulher que chora à luz da Lua

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Marcos Borga

Quando a autonomia de Antero acabou, Luísa não se desviou. Deu a vida em manifesto. Depoimento na primeira pessoa de quem assumiu que viver era doar-se.

Nas noites de Lua cheia, quando já não sei para onde me virar, saio de casa, atravesso o escuro, sento-me numa pedra, na ponta da Apelação, de onde consigo ver o Tejo e a Ponte Vasco da Gama. Baixinho, choro e às vezes até canto. Falo sozinha. Lembro-me do mar, de quando entrava na água para recarregar baterias. Não sei nadar nem gosto de mergulhos, mas alivia-me a alma. Há cinco anos que não vou à praia. Só saio de casa para ir ao supermercado ou aos médicos.

Descobri a doença do meu marido quando o irmão do Presidente morreu. Nessa altura, o meu marido andava nas consultas do São José, queixava-se de dores na coluna. Os sintomas eram os mesmos do irmão do Cavaco Silva. Fiquei assustada, pensei que ficava sem ele. Não lhe disse nada e fui pesquisar na internet, imprimi o que encontrei e levei ao médico: “Livre-se de o seu marido ter essa doença!". Há cinco anos, eu trabalhava na cozinha do Hospital do Mar, na Bobadela, e ganhava menos de 500 euros. Foi quando a situação piorou e tive de parar. Tudo mudou. Muita coisa acabou.

Antero e Luísa, em casa

Antero e Luísa, em casa

Marcos Borga

Conheço o meu marido há 41 anos. Eu tenho 57 e ele, dez anos mais. Temos dois filhos, que vivem connosco. Também o neto está cá em casa. Quando começamos a namorar, foi logo para casar. Sempre levei a sério aquilo de se dizer “na saúde e na doença...”. Mas ele está revoltado, isola-se. Ainda não está totalmente dependente, mas não sai de casa, fica muitas vezes à janela a fumar. Calado. Sente muitas dores. Só sai do quarto para ir à casa de banho e fazer as refeições à cozinha. Tem dificuldade em comer sólidos. A maior parte do tempo, passa na cama. Caiu duas vezes e partiu o pulso. Sou eu quem o ajuda a tomar banho... Não o posso deixar sozinho muito tempo, mas apesar de todas as dificuldades dele, procuro não o mimar de mais para ele manter alguma independência.

Não foi fácil descobrir o que ele tinha. Tivemos de ir a três consultas particulares até confirmar que se tratava de uma doença neurológica. Afinal descobriu-se: Paraparesia Espática, esclerose lateral primária, que quer dizer que a evolução é muito lenta. Fiquei em pânico. Entretanto, tive um AVC e há três anos estou de baixa, sem vencimento. Meti os papéis para a baixa por invalidez, mas fui considerada apta a trabalhar. Estou isenta de pagar IRS e as taxas moderadoras por insuficiência económica e quando penso nas despesas da casa, no que ele precisa, entro em ansiedade. Ele recebe 800 euros, está reformado por invalidez. Todas as semanas jogo no Euromilhões. Tento.

Ele costuma dizer que a única coisa que lhe falta é a morte e eu respondo logo: “Tu, cala-te”. Os médicos dizem que não sabem o que se vai passar. Mas eu estou cá para o ajudar. Eu sou Luísa. Ele chama-se Antero Bernardo. “Marido, já vou!”

  • Rúben, o rapaz que fez mover o mundo

    A incrível história de um rapaz que a todos conquistou. Para viver, Rúben precisava passar por uma cirugia que o poderia matar. Recusada por por 45 grandes hospitais estrangeiros devido ao risco elevado, a operação foi concluída com sucesso em Portugal por uma equipa de médicos portugueses. Aos 14 anos, Rúben tornou-se um símbolo de que desistir não é uma opção