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“Demorei uma semana a decidir se devia aceitar a condecoração de Cavaco Silva”

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O rosto fecha-se quando Vhils fala da sua geração: “O país esqueceu-a”, lamenta

Rui Soares

Alexandre Farto a.k.a. Vhils, 28 anos, é um dos artistas portugueses em maior ascensão internacional. Esculpe e faz explodir paredes, realiza vídeos para bandas como os U2, quer experimentar o cinema. Mas é como ativista que se realiza, tornando visíveis as comunidades esquecidas. Foi condecorado pelo Presidente da República e explica as dúvidas que teve em aceitar: “Não esqueço todas as políticas que ele teve no passado em relação à cultura, maltratando artistas e escritores”

Esta conversa estava combinada desde janeiro, mas só aconteceu agora porque o homem não para quieto. Tanto está em Londres, a inaugurar uma exposição na galeria Lazarides, que representa alguns dos artistas mais conhecidos da arte urbana — Banksy acima de todos —, como em Kiev, a imortalizar numa parede o primeiro jovem ucraniano morto nos protestos da praça Maidan.

Assume-se como artista e ativista, “uma arma” ao serviço das comunidades esquecidas. Dá rostos à exclusão social, das favelas do Rio de Janeiro à China. Agora, quer também dar voz a uma geração esquecida, a dele. A geração desprezada, das famílias fragmentadas, do talento desperdiçado, forçada a deixar o país por falta de oportunidades.

Ele, que foi estudar para Londres, para a prestigiada Central Saint Martins, porque não conseguiu entrar em Belas-Artes, regressou a Portugal porque, entre várias razões, queria “dar espaço a outros artistas”. Tem um estúdio e uma galeria que empregam 14 pessoas, todas contratadas. Voltou para o Seixal, na periferia de Lisboa, onde nasceu há 28 anos e onde, aos 10, começou a interessar-se pelo graffiti.

O seu trabalho saltou dos comboios e dos murais da Margem Sul para as galerias de arte e os museus. É um artista global e total, que já fez ilustrações para o Expresso, cravou rostos em paredes de todo o mundo e realizou um videoclipe dos U2. Seguir-se-á o documentário e o cinema, vontade que “anda a borbulhar há muito”.

A revista “Forbes” considerou-o um dos 30 principais talentos no mundo das artes com menos de 30 anos. E, no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, o Presidente da República ordenou-o cavaleiro da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada. Começámos por aí a conversa com Vhils, que decorreu em São Miguel, nos Açores, durante o festival de arte pública Walk&Talk.

No 10 de junho, depois de ter sido condecorado pelo Presidente da República, escreveu uma nota no Facebook a explicar por que razão aceitou a distinção. Sentiu necessidade de se justificar?
Não sinto que tenha sido uma justificação. Foi mais usar aquele momento para conseguir transmitir o que pensava. Como é óbvio, questionei o porquê desta condecoração e o aproveitamento político que poderia existir. Depois de uma semana de grande debate interno, a pensar se devia aceitar ou não, concluí acima de tudo que era um reconhecimento do país. Conhecendo as dificuldades que os artistas têm, e ainda mais sendo de uma geração que muitas vezes não é valorizada, senti um grande peso em não aceitar a condecoração. Mas não deixo de dizer aquilo que penso, e isso foi claro no comunicado que fiz.

Houve quem o aconselhasse a não aceitar?
Alguns amigos sim. Eu próprio, no início, estava de pé atrás.

Isso deveu-se ao facto de o Presidente ser Cavaco Silva? Que opinião tem dele?
Não acho nada saudável que o país tenha uma pessoa na vida política há tantos anos. Desde que nasci que o vejo na televisão. A democracia saudável deve ter uma renovação mais regular. Além disso, não esqueço todas as políticas que ele teve no passado em relação à cultura, maltratando artistas e escritores, por exemplo.

A condecoração surpreendeu-o?
Surpreendeu-me pela passividade que [o Presidente] teve em relação a muitas políticas que acabaram por isolar ainda mais a minha geração, a geração “à rasca”, dos jovens entre os 20 e os 35/40 anos. Mas também me surpreendeu porque, pela primeira vez, foram reconhecidas pessoas mais jovens, quase em início de carreira, quando até então estas condecorações eram quase de consagração. É de louvar, mas também percebo que houve algum aproveitamento político. Mas negar a condecoração era nem sequer ser ouvido, e eu tinha a oportunidade de falar sobre todas estas questões, pela responsabilidade que o reconhecimento me dava.

Disse que aceitava o prémio em nome da “geração mais qualificada de sempre que se vê forçada a emigrar por falta de oportunidades”. Chamou-lhe a geração desprezada.
Os decisores têm discriminado esta geração, que é, na sua maioria, precária. O mercado de trabalho não a absorveu, empurrando muitos jovens para fora do país. Isso faz com que não consigam subir na escada social nem encontrar espaço dentro dos poderes de decisão. É uma geração que tem sido penalizada, porque ninguém tem interesse em representá-la, porque não vota, porque se está a ir embora, porque cada vez é menos no país. Porque o Estado, que a devia proteger e valorizar, a esqueceu. Cria-se assim um ciclo vicioso, em que ela não participa no país nem o país conta com ela.

Leia a entrevista na íntegra na edição deste sábado da revista E do Expresso