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Bons vizinhos, mas há séculos em... disputa feroz por dois rochedos

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A ilha de Machias Seal tem um farol, aves várias e lagostas. Estados Unidos e Canadá não abrem mão dela

D.R.

Machias Seal e North Rock são ilhéus sem valor económico ou geoestratégico, mas Washington e Otava não conseguem entender-se desde há séculos

Se é certo que em toda a história da Humanidade sempre houve quezílias entre vizinhos e guerras entre países com fronteiras comuns, a verdade é que os Estados Unidos da América e o Canadá não vêm à mente como as mais prováveis fações beligerantes num conflito bilateral. Ainda assim, poderá um par de ilhas desabitadas levá-los ao confronto armado? Se depender dos pescadores de lagosta, a balança inclina-se para o sim.

Em causa estão Machias Seal e North Rock, dois ilhéus que são as últimas terras disputadas entre Washington e Otava. Ficam entre o Estado americano de Maine e a província canadiana de Novo Brunswick, naquela que é conhecida como a “zona cinzenta”. Áridas e desabitadas (Machias Seal, a maior, tem uma área de 10 hectares, não têm evidente valor geoestratégico nem recursos naturais que justifiquem mobilizar grandes esforços. O que ali abunda são papagaios-do-mar e lagostas, havendo ainda espécies como a torda-mergulheira, o airo (existente em Portugal nas Berlengas), a andorinha-do-mar-ártica, o painho-de-cauda-forcada e o eider-edredão.

Todas estas patuscas aves atraem às ilhas investigadores, que ali passam alguns meses por ano. Este ano a Universidade do Novo Brunswick está preocupada com a população de papagaios-do-mar, que, com 5800 efetivos, está em recordes mínimos desde o ano 2000. Já os crustáceos são chamariz para pescadores – americanos do Maine e canadianos da ilha de Grand Manan, à qual Machias Seal poderá estar geologicamente ligada – que não raro se zangam, chegando a vias de facto (há oito anos houve um que perdeu o polegar). Em 2015, porém, o clima tem estado mais tenso do que nunca, ao ponto de o presidente do conselho distrital da zona lagosteira de Maine, John Drouin, ter admitido à revista canadiana “Macleans” que “alguém pode morrer”.

“Há imbecis dos dois lados da fronteira que levam as coisas longe de mais”, concorda Laurence Cook, presidente do comité da zona cinzenta na Associação de Pescadores de Grand Manan. Ele próprio já foi ameaçado de morte. Recorde-se que falamos de ilhas desabitadas, que nem o Império Britânico colonizou.

Lagosta sai cara no preço e não só

A explicação para o agravamento das tensões pode residir no preço da lagosta. Anda pelos 5,5 dólares por libra (453 gramas), isto é, 11 euros por quilo, uma subida de quase 40% em relação ao ano passado. Isto atrai muitos pescadores, que não vêm só de Maine e Grand Manan e que estão menos familiarizados com regras que, oficial ou tacitamente, regem aquela zona desde 1783, data de um tratado de paz. Os que vêm da Nova Escócia, outra província canadiana vizinha, são particularmente agressivos.

Quer os Estados Unidos quer o Canadá têm agências responsáveis por supervisionar a pesca na zona cinzenta. Do número de armadilhas colocadas ao tamanho das lagostas capturadas, tudo tem regras. O certo, porém, é que cada lado acusa o outro de violar a lei e ambos fazem por reforçar a soberania que reivindicam.

Otava autorizou as pescas no verão desde 2002 e já este ano, a 2 de julho, declarou o farol de Machias Seal património nacional. Trata-se do último farol com faroleiro na costa leste do Canadá e é gerido pela Guarda Costeira deste país desde 1832. Também são as autoridades canadianas para a vida selvagem que controlam o acesso de turistas às ilhas, que o Governo canadiano elevou a santuário de vida selvagem (o limite é de 15 pessoas por dia do lado americano e 15 do lado canadiano).

Solução não parece estar para breve

Reconheça-se que o Canadá tem feito mais do que os Estados Unidos por reclamar as ilhas. Washington nunca manteve presença fixa em Machias Seal e North Rock e já houve deslizes, por parte do Governo federal e do Estado do Maine, que se referiram àquele território como sendo canadiano. Desde a I Guerra Mundial – e, então, a pedido de Otava – que nenhum militar dos EUA pisa as ilhas.

Em 1984 o Tribunal Internacional de Justiça resolveu várias disputas territoriais entre os dois países, mas esta zona cinzenta ficou de fora do acórdão. A julgar pelas palavras de representantes das duas maiores nações da América do Norte, não parece haver grande vontade de negociar. Diz Nicolas Doire, do lado canadiano: “A soberania do Canadá sobre esta área está fortemente alicerçada no direito internacional e remonta a 1621”. Contrapõe Katherine Pfaff, dos EUA: “A nossa posição de longa data é que a ilha de Machias Seal pertence aos Estados Unidos, em virtude do tratado de paz de 1783”.

As disputas territoriais entre o Canadá e os Estados Unidos não se resumem a Machias Seal e North Rock. Há pelo menos três outros pontos de controvérsia em redor do Alasca e na Passagem do Noroeste, perto do Ártico.