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Nações Unidas. Guterres mantém-se na corrida

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Thomas Mukoya /REUTERS

Ex-governante quer concorrer a secretário-geral da ONU. Processo inicia-se em setembro

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

António Guterres continua empenhado em concorrer ao cargo de secretário-geral das Nações Unidas, cujo processo oficial de escolha deverá iniciar-se no próximo mês, durante a presidência por Espanha do Conselho de Segurança, soube o Expresso.

O ex-primeiro-ministro, que se encontra de momento em férias, manter-se-á até ao final do ano como Alto Comissário para os Refugiados, terminando o seu segundo mandato à frente desta agência, mas mantém inalterada a vontade de poder ir mais longe nas Nações Unidas. O mesmo desejo que, em última análise, o levou a rejeitar a candidatura a Belém, conforme o próprio anunciou, em abril passado.

Desde o início de junho que a Assembleia Geral começou a discutir o projeto de resolução que deverá conduzir o processo de seleção para o próximo secretário-geral, que iniciará o seu mandato em janeiro em 2017. A 1 de junho, aliás, Portugal foi um dos 27 Estados subscritores de uma carta aos presidentes da Assembleia Geral e do Conselho de Segurança, reclamando maior transparência e abrangência nos métodos de trabalho e processos de eleição na organização. A carta é da responsabilidade do grupo ACT, iniciais em inglês de Prestação de contas, Coerência e Transparência.

O grupo, que reúne países de todos os continentes, recomenda que o processo de nomeação se inicie de modo aberto através de uma carta conjunta daqueles presidentes, convidando os Estados-membros a apresentar candidaturas e fixando calendários e etapas. Segundo o ACT, é necessário um processo mais rigoroso e transparente “na seleção do próximo chefe da organização, para nos representar a todos”. E sublinha: “Para garantir tempo suficiente para todas as considerações, a altura para iniciar o processo é agora”. A ideia é, pois, que isto se faça logo em setembro ou, o mais tardar, em outubro, quando o Reino Unido assumir a presidência do Conselho de Segurança.

Mas a caminhada até ao supremo cargo da organização — cujo primeiro ocupante, o norueguês Trygve Lie, descreveu como “o trabalho mais impossível do mundo” — não se afigura fácil para Guterres, nem para nenhum outro candidato, de resto. Na corrida, conhecem-se já pelo menos 18 concorrentes (ver lista ao lado), nove dos quais oriundos do grupo da Europa Oriental, a quem, segundo o costume da rotação nas Nações Unidas, deveria caber agora a vez. Desde o início da organização, nunca houve nenhum secretário-geral proveniente desta região, o que esta agora reivindica.

Não é, pois, por acaso que os primeiros nomes a surgir oficialmente foram endossados por Governos desta parte do mundo: Danilo Türk, ex-Presidente esloveno (2007-2012) com carreira na ONU (foi assistente do secretário-geral para os Assuntos Políticos entre 2000 e 2005, além de outras funções representando o seu país), e a búlgara Irina Bukova, ex-ministra dos Negócios Estrangeiros e atual diretora-geral da UNESCO, ambos em 2014. Antes disso, Vuk Jeremik, ex-ministro dos NE sérvio e ex-presidente da Assembleia Geral da ONU já anunciara a sua candidatura (2013), bem como a atual ministra croata dos negócios Estrangeiros, Vesna Pusic, que se apresentou também em maio passado.

Corrida de obstáculos

Todos eles já estão em campanha, bem como outros potenciais concorrentes, mas nada garante que qualquer deles venha a obter o consenso dentro do Conselho de Segurança, onde pontua a vontade dos cinco membros permanentes com direito a veto: Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França. do Conselho de Segurança (ver caixa).

Como descrevia um diplomata, “há sempre anticorpos em relação a muitos candidatos. À medida que vão analisando as candidaturas, os cinco membros permanentes vão pondo as suas cruzinhas. A questão é encontrar um que não receba nenhuma bola preta”. Ou seja, que não tenha o veto de nenhum deles. E na situação atual de relações tensas entre leste e oeste a propósito nomeadamente da Ucrânia, vai ser difícil encontrar um que agrade em simultâneo à Rússia ou à China e aos Estados Unidos.

O ponto é mesmo esse e, eventualmente, as duas candidatas búlgaras (Irina Bukova e a comissária europeia Kristalina Giorgieva) poderão ser rivais de peso. Pelas suas biografias e perfil podem agradar a ambos os lados, além de que são mulheres — uma reivindicação que está a crescer entre os movimentos de pressão. Mas, dizia um perito nestes assuntos, nunca será esse o critério de decisão: “Se houver uma mulher com capacidades, tanto melhor, mas a escolha à partida nunca será essa”.

António Guterres tem um prestígio indiscutível na ONU e mexe-se bem na organização, reconhecem várias fontes. “É o melhor candidato no cenário improvável de falhar um candidato da Europa de Leste e a escolha não passar para a América Latina, em vez de se manter na Europa”, dizia ao Expresso um membro do Governo. A América Latina, além de não reconhecer o princípio da rotação, também reclama agora a sua vez, apresentando vários candidatos.

No grupo da “Europa Ocidental e outros”, essencialmente os antigos países mais desenvolvidos, há também candidatos fortes, a começar por Helen Clark, ex-primeira-ministra neozelandesa e atual administradora do Programa de Desenvolvimento da ONU, outra mulher. Por isso, a caminhada será sobretudo uma corrida de obstáculos. E, claro, o resultado improvável de uma conjunção de imponderáveis.